quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Celebrando dezembro, janeiro, fevereiro...



Em minha infância, dezembro era sinônimo de celebração: férias, presentes no Natal e mais férias. Férias! Como eram bem-vindas!
Correr no pomar do sítio, sem nenhuma preocupação de tempo: perder horas olhando ninho de passarinho, cutucando bicho de goiaba, espremendo amora caprichosamente pra ficar com as unhas pintadas de roxo, seguir carreiro de formiga só para incomodá-las com uma pista de obstáculos — pedras de todos os tamanhos, gravetos, buracos e fendas, verdadeiros canyons em minha imaginação — e depois chupar manga no pé, lá no alto da mangueira, onde as mais amarelas e doces teimavam em ficar, e então levar um tempão para descer, assustada com o vento e as sombras, enxergando um saci pronto a me castigar pelo ovo derrubado do ninho da sabiá.
Um grito distante, um chamado, me trazia o conforto da realidade. E a voz paterna que enchia o pomar com meu nome me dava forças para vencer as sombras do final da tarde. E voltava eu para casa — correndo.
A infância devia ser designada como a idade da velocidade. O tempo era precioso: um sopro mágico que balançava meus cabelos, refrescando meu rosto sempre molhado, ora com água da bica, ora com o suor da correria. Nas manhãs das férias eu me vestia apressada e corria do quarto para ver o dia na varanda. Vai ter sol ou vai chover? Sob o sol, brincadeiras mil com a companhia inseparável de meus primos Walter, Maria Dirce e Antoninho, que atravessavam a rua voando, prontos para aventuras inesquecíveis. Sob a chuva, bolos de chocolate de barro, banho de enxurrada e deslizamento na grama encharcada, até que algum adulto percebesse e encerrasse minha carreira matinal com um banho quente na tina. Então, sentindo-me presa em casa, corria para meus livros prediletos, pronta para uma aventura com Narizinho. No Natal, mais livros vinham me acompanhar, e assim podia chover ainda mais no final de dezembro, e em janeiro inteiro também, que eu nem ligava. Lendo, eu continuava a correr, a pular e até... voava.
Por vezes retomo a idade da velocidade com novos parâmetros — computador, megabytes, internet — e faço meu próprio tempo. Ele, o tempo, continua a ser o mesmo de minha infância — um sopro mágico que desliza ágil por meus dedos —, mas não me coloca mais para correr. Agora ele é partilhado com outros prazeres, sem o rubor da correria infantil, mas com o tato, o abraço, o toque calmo e quente que acolhe, acalma, acalenta e que me leva a querer celebrar todos os meses, não só dezembro.
E hoje, adulta, às vezes reencontro a menina que, correndo, me empurra ladeira abaixo. Nesses momentos, o joelho esfolado ou o mau jeito nas costas me colocam de volta na idade certa. É quando refaço caminhos e trilhas, avaliando o tempo gasto. O mesmo precioso tempo que pode me deixar envergonhada pelas bobagens feitas, ditas, escritas, e que da mesma forma pode me levar a rir de tais feitos, ditos e escritos. É o tempo que brinca com minha vida e que se materializa anualmente, sempre em dezembro, renovando o ritual de encerramento do ano, como se exigisse um balancete final. Fico cabisbaixa — por vezes rígida e exigente; em outros momentos, flexível e compreensiva — até concluir um relatório satisfatório, me concedendo outro ano, em que usarei o tempo me aperfeiçoando como uma pessoa melhor.
Com o balancete aprovado, vou gastar meu tempo prazerosamente até dezembro do ano seguinte. O tempo me confidenciou que a melhor moeda de troca é o prazer: celebrar a vida como uma manga madura que escorre pelo queixo.
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Dezembro de 2007.

Crônica que dá nome ao meu livro Celebrando dezembro, janeiro, fevereiro... – Editora Letra Livre, Campo Grande, MS, 2014.


IMAGEM: Estou cantando, com uma lata de goiabada na cabeça, com meus primos Walter Amaral, Antoninho (o menor) e Maria Dirce. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Livro, presente de amigo!



Para todos os tipos de amigos... secretos, públicos, insubstituíveis, próximos, distantes, adorados, suportados, dissimulados ou escancarados. Aqui vai a dica de um livro para ser presenteado: Celebrando dezembro, janeiro, fevereiro..., com 71 crônicas ilustradas por 71 fotos, em 312 páginas, por somente R$ 20,00 (vinte reais).

Em Dourados, ele está à venda na Livraria Canto das Letras (Weimar Torres).
Em Campo Grande, nas livrarias Leparole (Euclides da Cunha) e Leitura (Shopping C. Grande).

Divirtam-se! (Modéstia às favas.)


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Para apreciar o TON


E o tom certo é TON BARBOSA. Um artista plástico que estuda cada vez mais, sabe o que faz e faz com carinho e dedicação.

A abertura da exposição é hoje, dia 26 (quarta-feira) e promete homenagens, performances e pinturas ao vivo. Boa viagem!


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Um jardim para o poeta


Há meses que trabalho nele, planejando, organizando, encomendando mudas e plantando. Uma jabuticabeira, dezenas de chuvas-de-ouro fixadas em uma antiga mangueira, canteiros de alecrim, lavanda e amendoinzinho, além de duas árvores para colher pitangas e acerolas. Um jardim feito com e para os sentidos: para olhar, tocar, colher, cheirar, comer. Mas sempre faltava um pé de alguma coisa, cobertura para algum canteiro, uma muda pra transplantar... E hoje, ao sentir o aroma do alecrim e me alegrar com os primeiros botões da alamanda amarela, decidi que o jardim estava pronto. Foi então que encontrei um joão-de-barro caído, agonizante sobre o gramado. Um calafrio me percorreu e pensei, com tristeza profunda: “O poeta está partindo...”. Ontem mesmo eu havia conversado com amigos sobre sua hospitalização e a fragilidade de sua saúde.

A tristeza não me atingiu em vão. Manoel de Barros foi embora e deixou órfãos incontáveis: borboletas, pedras, sapos, árvores, lesmas, jabutis, pássaros, rios e até o vento. Nem o cachorro Ramela escapou. Ficamos todos à deriva, buscando terra firme, sem asas, com ramos caídos, pernas e patas sem chão.

Faz muito tempo que nos conhecemos, e no começo achei muito esquisitas aquelas suas palavras, à primeira vista tão sem pé nem cabeça — como se a alguma delas faltasse cabeça ou pé. E então, baixando a guarda e deixando-me contaminar por suas invencionices, fui abduzida em 1985. A nave alienígena foi um livro seu. Na época, coordenando um grupo de pesquisa na UFMS, estudávamos sobre biodiversidade de plantas aquáticas e sua fauna associada. E eu passava a vida envolvida com questões a serem respondidas sobre padrões e processos reguladores, com planilhas, análises estatísticas e uma parafernália de teorias e hipóteses sobre a diversidade biológica no Pantanal. Foi quando li em seu “Livro de pré-coisas” que “no Pantanal ninguém pode passar régua. Sobremuito quando chove. A régua é existidura de limite. E o Pantanal não tem limites” — e uma revelação me atingiu como um raio. Eu era uma besta! Tanto trabalho, tanta pesquisa, e o poeta matava a questão a pau, nua e crua. Nunca mais fui a mesma.

Hoje não tem mais jeito; vou deixar a tristeza me derrubar. Mas amanhã, prometo, vou dançar de cabelos soltos no jardim, dando bom dia às lesmas e beija-flores, celebrando a alegria de ter em mãos (a ao alcance de minha compreensão) poemas como os seus.

Obrigada, Manoel de Barros!

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FONTE DA IMAGEM – O poeta Manoel de Barros – página de divulgação do Facebook.

domingo, 2 de novembro de 2014

Fundação de Cultura lança livro sobre talentos da Literatura de MS


A obra, Vozes da Literatura, com mais de 300 páginas, apresenta perfis e fotos de 50 escritores, entre homenagens póstumas e autores contemporâneos de Mato Grosso do Sul.

“Trata-se da quinta publicação da série Vozes, que homenageia expressivos artistas sul-mato-grossenses”, sublinha o presidente da FCMS, Américo Calheiros. “Neste volume, 50 nomes que fizeram e fazem Literatura em nosso Estado se dão a conhecer um pouco mais. São cronistas, poetas, contistas, romancistas, ensaístas, memorialistas, historiadores – representantes do que se pode conceituar Literatura em seu sentido mais amplo.”

Segundo os organizadores do livro, Fabio Pellegrini e Melly Sena, o trabalho de elencar os nomes enfocados foi uma árdua missão. Felizmente, não por falta deles e sim pelas revelações que vêm se multiplicando em nosso Estado, somando-se a autores consagrados e constituindo uma crescente produção que, certamente, frutificará cada vez mais pujante nas gerações futuras.

Os perfis dos escritores foram redigidos por 48 autores convidados, conhecedores da vida e obra de cada um dos homenageados. O texto de apresentação, de autoria de Albana Xavier Nogueira, traça um panorama da história da Literatura em nosso Estado, desde os primeiros relatos feitos por viajantes e desbravadores (como Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, Ricardo Franco de Almeida Serra e Augusto João Manoel Leverger) até a aplicação das novas tecnologias na área e o necessário trabalho de formação de leitores, passando pelo papel desempenhado pela imprensa na descoberta e revelação de talentos.

A apresentação visual da obra, que tem design gráfico assinado por Desirée Melo, é valorizada pelo trabalho fotográfico de Rachid Waqued, que assina a maioria dos retratos dos autores. O livro não será comercializado e posteriormente será distribuído a bibliotecas, escolas públicas e instituições culturais.

Lançamento do livro Vozes da Literatura
Dia 6 de novembro (quinta-feira), às 8:30 horas.

Auditório da Governadoria do Estado de Mato Grosso do Sul
Avenida do Poeta, Bloco 8
Parque dos Poderes – Campo Grande – MS
ENTRADA FRANCA.
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FONTE DO TEXTO E DA IMAGEM: Material de divulgação da FCMS


sábado, 25 de outubro de 2014

Você já sabe o que fazer, não sabe?



Se sua memória não está muito boa, aqui vai um lembrete:
depois-das-cicatrizes-um-projeto


 

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