sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quem somos eu?

  

A pergunta é exatamente esta: “Quem SOMOS eu?”. (O revisor, é verdade, chegou a ficar confuso no início.) Com certeza, a única estranheza no título vem de nossa língua portuguesa e suas boas regras de concordância verbal. Mas vamos por partes.

Um artigo do periódico Popular Science, publicado em 2011, revelou que as bactérias presentes em nosso organismo superam de 10 a 1 o número de células de nosso corpo! Mas, “pelo fato de serem muito menores que as células humanas, elas corresponde a apenas cerca de 1 a 2% de nossa massa corporalembora totalizem quase metade de nossas excreções sólidas”, explicou a doutora Lita Proctor, coordenadora do Projeto Microbioma Humano (do Instituto Nacional de Saúde, nos Estados Unidos), estudo este que focaliza as comunidades bacterianas que vivem sobre nossa pele e dentro de nós.

Os exércitos de bactérias que levamos conosco não haviam sido adequadamente catalogados até recentemente. Em julho de 2011, na Universidade do Estado da Carolina do Norte, o Belly Button Biodiversity Study (curioso objeto de pesquisa, já que o nome significa, literalmente, “Estudo da Biodiversidade do Umbigo”) identificou cerca de 1.400 diferentes variedades de bactérias vivendo nos umbigos de 95 participantes. Destas, 662 eram até então desconhecidas.

Uma interessante reação a nossos “hóspedes”, voluntária ou involuntariamente adquiridos, começou então a ganhar corpo na internet: uma nova entidade sem fins lucrativos chamada “Meus Micróbios”http://my.microbes.eu/ — propõe-se a conectar pessoas em rede social com o exclusivo propósito de conversarem e trocarem experiências sobre bactérias, especificamente as gastrointestinais.

O site http://hypescience.com/ também publicou os resultados de outras pesquisas sobre nossas mais íntimas relações com essa parafernália de vida microscópica. Selecionei os trechos mais instigantes:

“Não há absolutamente nada de errado com seu corpo, formado por várias células. Disso você já sabia. O que talvez você não saiba é que, para cada célula do seu corpo, existem outros 10 organismos que são essenciais para o desempenho de várias funções que o nosso sistema necessita. Existem cerca de 100 trilhõesvamos repetir: 100 trilhões!de organismos vivendo sobre ou dentro de você neste momento. Eles entram por sua boca, nariz, ouvidos e por qualquer outra entrada de seu corpo. Ou seja, aquilo que você considera ser você é apenas uma fração do que realmente é... você. Nós chamamos este sistema de seres vivos morando em nós de microbiota. Estas pequenas criaturas contêm cerca de 22 milhões de genes, com seus próprios DNAs, que não só permitem que elas existam, como também são fundamentais para vários processos do nosso corpo. Elas auxiliam na digestão, mantêm o sistema imunológico saudável e controlam nossa fome, ajudando a nos fazer sentir ‘cheios’. Elas até mesmo podem alterar nosso humor. Ratos criados em ambientes esterilizados, não expostos a estes micro-organismos, respondem de forma menos efetiva a estímulos de estresse do que ratos normais.”

E o Hypescience continua... surpreendentemente: “Você já ouviu falar em ‘transplante de fezes’? Acredite, é uma coisa real e muito eficiente. Algumas doenças são causadas por microbiotas com pouca diversidade, o que deixa o indivíduo suscetível a infecções. As fezes de uma pessoa saudável são transferidas diretamente para o intestino da pessoa com poucos micro-organismos. Os novos habitantes recolonizam o local e deixam tudo bem novamente. Esse tratamento é usado com mais frequência quando alguém toma algum antibiótico que acaba matando uma parte grande demais da microbiota. Os cientistas inclusive descobriram que ratos obesos que receberam microbiota de ratos magros incrivelmente perdem peso de forma mais eficiente, mesmo que as suas dietas fossem mantidas inalteradas. Os micro-organismos que vivem em nós são tão significativos, de várias maneiras diferentes, que se cogita que, no futuro, os médicos não irão mais nos diagnosticar, mas sim diagnosticá-los.”

“Embora apenas 10% de você seja você, você tem um papel importante em relação a seu corpo. Porque, na verdade, você pode mudar os outros 90%. Tudo o que você come afeta sua microbiota. Comidas que possuem prebióticos e probióticos, por exemplo, introduzem novas e saudáveis bactérias, que podem ajudar as velhas a funcionarem. Por outro lado, os ‘nuggets’ de frango que você adora ou quaisquer outros alimentos processados são tratados com produtos químicos que matam as más bactérias, mas que possuem o infeliz efeito colateral de matar as suas bactérias boas também. Pessoas que vivem no lado ocidental do planeta, na verdade, possuem uma microbiota muito menos rica do que pessoas em outras culturas sem o costume comer alimentos processados. Isso acontece não só por causa deste tipo de dieta, mas também pelo uso frequente de antibióticos e sabonetes antibactericidas. Esses costumes ocidentais também podem explicar por que existem muito mais casos de alergia e de doenças autoimunes neste lado do planeta.”

As revelações sobre a diversidade de vida que vive dentro de nós e que, em grande parte, nos controla (pelo menos fisiologicamente), têm feito um rebuliço em nossa desavisada mente, tão habituada à ideia, e a uma profunda sensação, de individualidade. Vamos então refletir, com “nosso” cérebro, sobre o significado de “eu sou”:

O mestre Antonio Houaiss esclarece que “ser” denota “ter identidade, característica ou propriedade intrínseca”, como exemplificado em a Terra é esférica” ou o homem é um animal racional”. Já o pronome “eu” é usado “por aquele que fala ou escreve para se referir a si mesmo, quando gramaticalmente é o sujeito da oração” e também para designar “a individualidade da pessoa humana” e, por extensão, a “forma assumida por uma personalidade num momento dado” (como em “meu eu de outrora não mais existe”). Mais revelador de nossa cultura ocidental é que a palavra EU, ainda segundo Houaiss, designa a “tendência de um indivíduo a não levar em consideração senão a si mesmo; egocentrismo; egoísmo, narcisismo”.

Nosso dicionarista é esclarecedor: “Meu eu de outrora não mais existe”. E basta de divagações por hoje. Definitivamente, somos não só eu, mas também o outro e muitos mais...

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FONTE DA IMAGEM: autorretrato de Nadia Wicker


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Para sair de uma urucubaca...




Recentemente fiz uma experiência, inadvertidamente, sobre o papel de pessoas que considero como raras. São as amigas e os amigos. Uma presença muito forte em minha vida e, consequentemente, um tema inesgotável em minhas crônicas.

Tudo começou com conversas, e-mails e whatsapps sobre acontecimentos recentes — furtos, doenças, mortes, explorações financeiras e até pequenos, mas devastadores, mal-entendidos. Quando percebi, eu havia me deixado envolver a tal ponto pelos eventos, que estava sendo soterrada sob uma onda de energia muito ruim. Com falta de ar e assustada, pedi socorro.

Recebi conselhos, orações e receitas de todos os tipos. Algumas não muito publicáveis; outras sim, como estas:

“Reze, amiga. Reze sempre!”

“Já experimentou a Veuve Clicquot brut? Fantástica. Caríssima, mas não dá nem sombra de ressaca rsrsrs e o mundo fica melhor.”

“Lembre-se que o Senhor dá fardos de acordo com os ombros de quem os recebe!”

“Para de lengalenga e vai encher a cara. Nenhum FDP vai ficar te incomodando depois de uma dúzia de cervas estupidamente geladas. Tudo isso é esse calor infernal.”

“Toda noite, ao deitar, faça orações para seu anjo da guarda que ele irá protegê-la. Diga, com muita fé: Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a vós me confiaste a providência divina, guardai-me, iluminai-me, amém!”

“Sai dessa, mulher! Você é mais forte que esse clima do mal. Vai tomar quatro banhos de cachoeira e, durante sete dias, use sal grosso nos quatro cantos do seu quarto.”

“Fiz oferendas para Iemanjá na passagem do ano e pensei muito na nossa amizade. Não se esqueça que você é uma querida filha dela, um tipo muito maternal. Você precisa aprender a se fechar para maus espíritos por que a porta da sua casa está sempre aberta para acolher junto de si todos que a procuram. Mas Iemanjá protege suas filhas. Vou fazer um trabalho de descarrego pra você. Seus caminhos ficarão desimpedidos.”

“Já te disse que odeio essa distância entre nós. Mas hoje já temos a Azul, a Arvoredo... ou é Passaredo... kkkk... até o Rio e depois pegue um voo e venha pra cá. Tem promoções da Lufthansa. Vamos tomar chocolate quente com rum em frente a lareira e rir. Estou com saudades das suas gargalhadas.”

“Existem fases em nossas vidas que tudo parece que vai desmoronar. Não creia nisso. Você passou por muitos (piores) obstáculos. Fique tranquila que daqui faremos vibrações para você. Mas não se entregue. Abração.”

“Saia para andar descalça, pisando na grama. É muito bom.”

“Cante, bem alto, no final da tarde: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Esse antiquíssimo mantra é uma invocação de amor e devoção.”

“Não reprise mentalmente os episódios. Vá para um local aberto, pegue um copo com água e outro vazio e verta a água de um para o outro, para arejar, umas 20 vezes ou quanto sentir que deva. Depois tome a água. Não se ocupe de notícias negativas. Evite mentalizar críticas ruins. Elas drenam sua energia e te deixam vulnerável. Vigie toda reação ou postura mental que te tire do eixo. O que está sem eixo fica à mercê. Se não souber com o que se ocupar hoje, veja coisas bonitas, leia poesia inspiradora...”

“Use floral de Bach.”

Somente hoje notei que meu grito de desespero foi respondido carinhosamente por amigos ateus e espiritualizados, praticantes de diversas religiões — budista, católica, muçulmana, umbandista, presbiteriana e kardecista. Literalmente, uma legião ecumênica. Diante de tanta intolerância religiosa rondando as pessoas, me senti resgatada e inundada por uma forte luz de discernimento. Como é bom perceber que nenhuma venda me cobre os olhos.

Mas depois fiquei pensando na pretensão de “nenhuma venda”. Sou uma aprendiz na vida, uma tola inexperiente em questões espirituais, nem sempre humilde. Entretanto, até onde posso enxergar no momento, estou liberta de antolhos e amo pessoas de diferentes tipos e crenças, não apesar disso, mas também por isso. O importante é que as conheço bem, há muitos e muitos anos. Elas são boas no que fazem, conseguem manter diálogos inesgotáveis, são inteligentes, divertidas, sérias, irônicas, companheiras e, principalmente, não fazem, voluntariamente, mal a ninguém.

Acordei inundada de azul, sorrindo, com a alma leve como há tempos não sentia. Só me resta dar graças à minha legião de benfeitores e cantar, como Emmanuel Marinho em seus versos: “Amigo é bom. Amigo é tão bom!”.
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FONTE DA IMAGEM: http://conexaopromessa.com.br/

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

E ainda estamos em janeiro!

 

Não sei se é somente impressão ou se há um clima de intranquilidade, com algo estranho e pesado no ar. A sensação é de que faz um tempão que o ano começou. Nem dá pra acreditar que mal e mal se foram duas semanas somente. E, para piorar minhas caraminholas premonitórias, uma avalanche de acontecimentos está soterrando as expectativas de um feliz 2015.

Nas primeiras horas do dia primeiro, um acidente enlutou uma das famílias que estava na festa em que celebrávamos o ano novo. Uma daquelas tragédias que deixam marcas para sempre. E as fatalidades continuaram... Sem tantas dores e tristezas, mas com contato direto com uma das piores faces humanas — a hipocrisia —, fui envolvida em um desgastante caso de furto, que se arrastou por dias, até que a ladra caiu em uma armadilha e foi pega em flagrante, abandonando rapidamente a prova envolta em um pano de limpeza, sujo. Uma irônica analogia ao ato. Assistir ao desenrolar da farsa, ao abuso da confiança de uma idosa, e ver o cinismo final, com cena de choro ensaiado, me deixou com um estranho gosto de fel na garganta, talvez pela vontade, reprimida, de xingar a simpaticíssima e gentil pessoa que se revelou tão cínica e perigosa em poucos dias. Que começo de ano!

Como se não bastassem os maus augúrios dos acontecimentos locais, o mundo ficou muito mais sujo e mal-humorado no último dia 7, com o brutal assassinato de 12 pessoas no atentado ao jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris. Não há justificativa, sagrada ou profana, de forma alguma, mas me pareceu um ato há muito tempo anunciado. Afinal, radicais, descrevam-se eles como religiosos ou não, são radicais! E nunca vi um radical ter bom humor e tampouco, principalmente tampouco, rir de si mesmo.

Voltei no tempo e reli um irretocável artigo, intitulado “Qual é a graça? Um manifesto”, que o jornalista Alberto Dines publicou no “Observatório da Imprensa” em 25 de setembro de 2012. Aqui vão alguns trechos:

“O homem é o único animal que ri e este particularismo faz do humor um tema da maior seriedade. Sócrates, São Tomás de Aquino, Immanuel Kant debruçaram-se sobre as diferentes formas de humor, mas Sigmund Freud parece ter encontrado a melhor interpretação — ou, pelo menos, a mais política — ao constatar que o riso é resultado da remoção de uma censura interna. Alívio.

O riso é libertário. Impossível suprimi-lo, sufocá-lo. Graças ao riso o rei infalível aparece nu, inexpugnáveis muralhas mostram-se feitas de barro e vilões mal-encarados ficam ridículos sentados na privada. Comédias derrubaram déspotas ainda no império romano, sátiras desarmaram a ignorância da Inquisição portuguesa, os pequenos pasquins do Renascimento sugeriram piadas que de outra forma não poderiam ser engendradas. [...]

Caricatura vem do italiano ‘caricare’, carregar, exagerar, buscar o grotesco; charge vem do francês, charger’, forçar; cartum vem do inglês,cartoon’, cartão, onde se fazem desenhos humorísticos. O Ocidente fez do riso uma arma a um tempo destruidora e enriquecedora, agressiva e benfazeja, ponte e ruptura.”

E assim, de charge em charge, chegamos a 2015 e ao massacre do último dia 7. E novamente Alberto Dines me chamou a atenção no “Observatório da Imprensa”, em um artigo publicado cinco dias depois do atentado: “Por quem os sinos dobram, cara-pálida?”. Veja por quem:

“Os sinos dobram pelos caídos em defesa do laicismo, contra a chantagem fundamentalista e a barbárie das guerras santas.

Quase quatro milhões de franceses foram no domingo (11/1) às ruas do país — num espetáculo emocionante pelas dimensões, pela serenidade e simplicidade — para se identificar com o projeto na qual se engajou o ‘Charlie Hebdo’ nos últimos anos: ‘Penso, logo me manifesto’. Ou esperneio. Ou chuto o pau da barraca. Este é o mandamento elementar do cartesianismo jornalístico. O resto é diletantismo, conversa fiada, frivolidade.

Jornalistas resistem contra as forças que os oprimem diretamente e não dão trégua àqueles que rondam as redações para silenciá-los.

E quem ameaçava os ‘Charlies’ massacrados na quarta-feira (7/1) — o governo francês, a liga neofascista europeia, o imperialismo ianque, a máfia russa, o narcotráfico internacional?

Não há o que discutir: as kalashnikovs foram acionadas dezessete vezes entre quarta e sexta-feira nas ruas de Paris em nome do fanatismo e do fundamentalismo religioso.

Os ‘Charlies’ franceses foram longe demais? Problema dos que não querem se incomodar, os não-me-importistas de sempre. Se no hemisfério democrático há jornalistas que recusam ser Charlie, lamentam a matança, mas denunciam as vítimas como incendiários, blasfemos e obscenos, é um direito que a democracia oferece aos que preferem ver o mundo em cima do muro. [...]

Intransigência na França não é defeito, é atributo. ‘Je suis Charlie’ não é apenas uma casual defesa da liberdade da expressão: é um compromisso com a memória coletiva do primeiro país a separar com o necessário rigor e intransigência a Igreja (= religião) do Estado. [...]”

E cá estamos, assistindo ao maior show recente do fanatismo religioso e seu enorme sucesso. Afinal, o que interessa ao terrorismo senão a divulgação de seus atos? Mas a publicidade é relativa... Fiquei impressionada ao ler um editorial da “Folha de S. Paulo” de terça-feira (13/1):

“Terror na Nigéria — Passou quase despercebido, na semana passada, um massacre de proporções catastróficas ocorrido em Baga, cidade no nordeste da Nigéria. Autoridades locais afirmam ter desistido de contar os corpos, e por essa razão não se sabe ao certo quantos são os mortos. Segundo estimativas da Anistia Internacional, seriam cerca de 2.000. Foram todos chacinados por fanáticos da milícia islâmica Boko Haram [...]”.

E aqui fica uma incômoda sensação: Por que “passou quase despercebido”? Por que a mídia não noticiou esse massacre na África com o mesmo alarde do atentado de Paris?  


Com o estômago embrulhado, relembro que o ano mal começou. E mau começou.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Uma paixão adolescente


Ele era o homem mais bonito que eu já havia encontrado frente a frente em toda a minha vida. Com 12 para 13 anos de idade (e começando a fumar escondida), eu me sentia uma mulher adulta, apesar das espinhas que insistiam em me brotar no nariz.

Tudo começou por causa de meu coração machucado pelo desinteresse do Paulo Roberto, que namorava quase todas as minhas amigas, uma atrás da outra, e continuava meu amigo. Foi no recreio do colégio que senti que algo novo estava acontecendo: meu coração bateu descompassado e um calorão subiu em meu rosto quando vi o Silvio pela primeira vez. Que homem! Um cara maduro (devia ter uns 15 anos, 16 no máximo), alto, claro, cabelos loiros, olhos de um verde profundo. A materialização do Troy Donahue. Naquele dia, lembrei-me de uma trovinha popular: Silvio dos olhos verdes, / Olhos verdes como o mar, / Não me olhe com seus olhos, / Para eu não me afogar.

A trovinha é terrível... Mas acho que nunca a esqueci porque não tive a oportunidade de afogar-me naqueles olhos. O Silvio passava por mim e não me dava uma gota sequer daquele mar. Passei a odiar os homens mais velhos. Odiar e amar. Amar e odiar. Essa emoção confusa devia ser coisa de adulto, pensei para me confortar. E em meus cadernos continuei a escrever carinhosamente o seu nome e o meu, entrelaçados em um coração, para riscá-los em seguida e arrancar a página com fúria.

Naquela mesma semana, em uma aula de geografia, o professor falou de mares e oceanos. E entendi que o oceano Atlântico tinha o formato de um grande “S”. Foi o que bastou: “S” de Silvio, oceano Atlântico de profundos olhos verdes... “S” de Segredo...

As semanas se passaram. Meu pai — que folheava meus cadernos periodicamente — não entendeu meu interesse repentino pelo oceano Atlântico. E assim, protegida pelo mar, eu escrevia Atlântico, Atlântico, Atlântico, em todos os meus cadernos. Um dia, li sobre amor platônico e fiquei aliviada. Aliviada e confiante em minha capacidade de amar e ser amada sem ao menos um toque, suspirando e me deliciando com a possibilidade romântica de olhar meu amado a distância, respirando o mesmo ar que o circundava, mesmo com ele a uns dois metros de distância. (Eu já conhecia as propriedades do estado gasoso.)

E o inesperado aconteceu. Meu “vovô” Nelson Araújo chegou de uma viagem ao Paraná com um presente especial: um caderno de recordações. Uma obra artesanal, com capas de madeira trabalhada em marchetaria. Rapidamente, após os escritos do vovô, conferi a duas ou três amigas a honra de inaugurar o caderno com seus dizeres — na verdade, somente para disfarçar — e, mais que correndo, procurei o Silvio para lhe “pedir uma recordação”. Foram cinco longos e angustiantes dias de espera. Mas por fim, e com o coração aos saltos, li: A CANÇÃO / Adeus! Já nada tenho que dizer-te; / Minhas horas finais trêmulas correm. / Dá-me o último riso p’ra que eu possa / Morrer cantando, como as aves morrem. / Ai daquele que fêz do amor seu mundo! / Nem deuses, nem demônios o socorrem. / Dá-me o último olhar para que eu possa / Morrer sorrindo, como os anjos morrem. / Foste a serpente, e eu, vil, ainda te adoro. / Que vertigens meu cérebro percorrem! / Mente a última vez para que eu possa / Morrer sonhando, como os doidos morrem.

“Uauuuu... Ele me adora!”, convenci-me de imediato. “Não pode ser outra coisa! Nenhum homem até hoje me viu tão ‘adulta’, tão ‘perigosa’. Ele me ama. Eu... Euzinha... Uma Serpente! Isso é paixão, daquelas avassaladoras. Ele está enlouquecido por mim... Nos seus delírios de amor platônico ele me vê usurpando o nosso amor, mentindo...”

Fiquei pasma, tonta. Não dormi a noite toda.

Na manhã seguinte, com olheiras profundas, mostrei o caderno a todas as minhas amigas, calada (mas incontida por dentro), colecionando a reação de cada uma. Agora, definitivamente, eu era uma mulher adulta. Adulta e provocante!

Soltei longas baforadas silvantes de meu cigarro no recreio, silenciosa e oculta daquelas pobres e reles mortais que nunca haviam sido chamadas de serpente e que tampouco deixaram qualquer homem enlouquecido.

Os dias se passaram. Os meses também. Não recebi mais nenhum olhar, nenhum sinal. Fiquei confusa: Era realmente um adeus? Ser uma serpente era bom ou ruim? Selei meu destino com a conclusão de que o amaria até a eternidade. Curiosamente, lembrei-me dele somente hoje, ao folhear meu livro de recordações.
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FONTE DA IMAGEM: Foto de Goldem Fonseca.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Celebrando dezembro, janeiro, fevereiro...



Em minha infância, dezembro era sinônimo de celebração: férias, presentes no Natal e mais férias. Férias! Como eram bem-vindas!
Correr no pomar do sítio, sem nenhuma preocupação de tempo: perder horas olhando ninho de passarinho, cutucando bicho de goiaba, espremendo amora caprichosamente pra ficar com as unhas pintadas de roxo, seguir carreiro de formiga só para incomodá-las com uma pista de obstáculos — pedras de todos os tamanhos, gravetos, buracos e fendas, verdadeiros canyons em minha imaginação — e depois chupar manga no pé, lá no alto da mangueira, onde as mais amarelas e doces teimavam em ficar, e então levar um tempão para descer, assustada com o vento e as sombras, enxergando um saci pronto a me castigar pelo ovo derrubado do ninho da sabiá.
Um grito distante, um chamado, me trazia o conforto da realidade. E a voz paterna que enchia o pomar com meu nome me dava forças para vencer as sombras do final da tarde. E voltava eu para casa — correndo.
A infância devia ser designada como a idade da velocidade. O tempo era precioso: um sopro mágico que balançava meus cabelos, refrescando meu rosto sempre molhado, ora com água da bica, ora com o suor da correria. Nas manhãs das férias eu me vestia apressada e corria do quarto para ver o dia na varanda. Vai ter sol ou vai chover? Sob o sol, brincadeiras mil com a companhia inseparável de meus primos Walter, Maria Dirce e Antoninho, que atravessavam a rua voando, prontos para aventuras inesquecíveis. Sob a chuva, bolos de chocolate de barro, banho de enxurrada e deslizamento na grama encharcada, até que algum adulto percebesse e encerrasse minha carreira matinal com um banho quente na tina. Então, sentindo-me presa em casa, corria para meus livros prediletos, pronta para uma aventura com Narizinho. No Natal, mais livros vinham me acompanhar, e assim podia chover ainda mais no final de dezembro, e em janeiro inteiro também, que eu nem ligava. Lendo, eu continuava a correr, a pular e até... voava.
Por vezes retomo a idade da velocidade com novos parâmetros — computador, megabytes, internet — e faço meu próprio tempo. Ele, o tempo, continua a ser o mesmo de minha infância — um sopro mágico que desliza ágil por meus dedos —, mas não me coloca mais para correr. Agora ele é partilhado com outros prazeres, sem o rubor da correria infantil, mas com o tato, o abraço, o toque calmo e quente que acolhe, acalma, acalenta e que me leva a querer celebrar todos os meses, não só dezembro.
E hoje, adulta, às vezes reencontro a menina que, correndo, me empurra ladeira abaixo. Nesses momentos, o joelho esfolado ou o mau jeito nas costas me colocam de volta na idade certa. É quando refaço caminhos e trilhas, avaliando o tempo gasto. O mesmo precioso tempo que pode me deixar envergonhada pelas bobagens feitas, ditas, escritas, e que da mesma forma pode me levar a rir de tais feitos, ditos e escritos. É o tempo que brinca com minha vida e que se materializa anualmente, sempre em dezembro, renovando o ritual de encerramento do ano, como se exigisse um balancete final. Fico cabisbaixa — por vezes rígida e exigente; em outros momentos, flexível e compreensiva — até concluir um relatório satisfatório, me concedendo outro ano, em que usarei o tempo me aperfeiçoando como uma pessoa melhor.
Com o balancete aprovado, vou gastar meu tempo prazerosamente até dezembro do ano seguinte. O tempo me confidenciou que a melhor moeda de troca é o prazer: celebrar a vida como uma manga madura que escorre pelo queixo.
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Dezembro de 2007.

Crônica que dá nome ao meu livro Celebrando dezembro, janeiro, fevereiro... – Editora Letra Livre, Campo Grande, MS, 2014.


IMAGEM: Estou cantando, com uma lata de goiabada na cabeça, com meus primos Walter Amaral, Antoninho (o menor) e Maria Dirce. 
 

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