sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz 2012!

Eu espero, com toda a força do meu coração, que 2012 seja o melhor ano da sua vida.





Retrospectiva 2011 da “Ciência Hoje On-line”


2011 foi o ano da química, dos neutrinos supervelozes, das doenças crônicas, de avanços em estudos sobre a Aids, dos desastres naturais, das mudanças climáticas, das revoltas no mundo árabe... (montagem a partir de foto de Alex Slobodkin/ iStockphoto)

A revista eletrônica Ciência Hoje On-line fez uma seleção de acontecimentos deste ano em cinco áreas: química, física, saúde, meio ambiente e ciências humanas. Assinada por Carla Almeida, a matéria está no link para o Blog Bússola. Confira:

FONTE DO TEXTO E DA IMAGEM: Ciência Hoje On-line

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo!


Todo fim de ano é a mesma coisa. Fico reclusa e cabisbaixa, atenta, em compasso de espera, e por vezes observo amigos que oscilam entre deprimidos e eufóricos. É o poder da expectativa de um Ano Novo, como se o nascer do dia — acontecimento rotineiro a cada manhã — pudesse, com a simples diferença de um novo calendário, controlar desejos e atitudes, magicamente alterando a vida, rompendo elos e abrindo novos caminhos.

Eis que me deparo com uma receita de Ano Novo detalhada, com ingredientes e modo de fazer caprichosamente listados por Drummond. Recorrendo a Nelson Rodrigues, optei por ser óbvia ululante e reproduzi-la, em vez de tentar escrever mais. O poeta já disse um dia:

Receita de Ano Novo – Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido),
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior),
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegrama?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Eiiii! Acorde! Desperte esse Ano Novo que o poeta sabe que existe dentro de você. Eu fico por aqui torcendo para que 2012 seja um dos melhores que você viveu. E o poder dessa magia nem sequer é meu...


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

COMUNICAÇÃO É TUDO: Tal pai, tal filho?



Em matéria publicada hoje na Folha de S.Paulo, intitulada “Após 10 anos, Jader volta ao Senado no recesso e ganha extra de R$ 30 mil”, a jornalista Maria Clara Cabral relata que “dez anos após renunciar ao cargo de senador devido a suspeitas de corrupção, Jader Barbalho (PMDB-PA) voltou ontem ao Senado, em rara sessão realizada durante o recesso parlamentar. Se seguisse os trâmites comuns, ele tomaria posse apenas em fevereiro. Mas, graças à cerimônia adiantada, receberá pelo menos R$ 30 mil extras — referentes ao salário proporcional ao resto deste mês (R$ 3,5 mil) e outros R$ 26,7 mil pagos a todo parlamentar ao final de cada ano.”

FONTE DO TEXTO E DA IMAGEM: Folha de S.Paulo – Foto de Sérgio Lima/Folhapress
  
Curiosamente, o filho do senador Jader Barbalho, Daniel (9 anos), faz pose para os jornalistas durante a entrevista do pai, logo após a posse no Senado. Coisa de criança... Uma mera coincidência entre a careta do filho do senador e o beliscão no bolso do contribuinte. Ai! Ai! Ai! Que saudades da FICHA LIMPA...

Vassouradas na Igreja da Natividade



A Igreja da Natividade, em Belém (Cisjordânia), construída onde os cristãos acreditam ser o local de nascimento de Cristo, foi palco de cenas de pancadaria entre grupos de clérigos e a polícia nesta última quarta-feira (dia 28 de dezembro).

As cenas absurdas de agressões e violência começaram quando os clérigos da Igreja Ortodoxa Grega e da Igreja Apostólica Armênia varriam o chão da Igreja da Natividade: uma tradição religiosa de preparação para o Natal ortodoxo, celebrado em janeiro. A briga foi iniciada por desavenças sobre os limites de cada grupo de religiosos dentro do templo. A polícia de choque interveio, usando cassetetes e escudos contra padres e monges “armados” com vassouras.

FONTES DO TEXTO E DA IMAGEM: BBC

Se os cabos das vassouras fossem coloridos, do tipo das espadas utilizadas pela Ordem dos Jedis, a cena seria perfeita para a série Star Wars. E pelo comportamento dos monges, já se saberia quem estava do “Lado Negro da Força”, ou não.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

“O caçuá do Paulo Robson”


O Prof. Paulo Robson escreveu o texto “O Desmemoriado” (que copiei e colei logo abaixo), para explicar as razões do nome caçuá, que identifica seu “blog de poemas quase esquecidos”. Um blog que foi montado há dois anos, mas que ainda continua em versão beta, ou seja, experimental, ainda não acessível ao público em geral.

Dois anos... Um blog quase esquecido... Mas, para quem se diz com problemas de memória, o cérebro de Paulo Robson está impecável, guardando o essencial para ser compartilhado: seu caçuá — um reservatório de histórias deliciosas, relatadas pela perspectiva do poeta que dosa as emoções com a formação científica de biólogo e que por vezes se deixa contagiar por inteiro, como criança na primeira ida ao circo.

Com a palavra, Paulo Robson — que, como mostra a foto abaixo, nem precisa de sementes no chapéu para ganhar o pouso inesperado de um “joão-pinto”. Poetas são assim mesmo, atraem bichos. Tal como disse Manoel de Barros: “Passarinhos do mato gostam de mim e de goiaba.”

O Desmemoriado

Vamos ver se me lembro... Caçuá (do tupi) é um tipo de cesto grande, geralmente feito de ramos de cipó ou vime rusticamente trançados, usado no transporte de alimentos e outros materiais nas fazendas. É carregado por burro ou jumento, equinos muito resistentes ao trabalho pesado. Isto eu me lembro bem: o caçuá é pendurado ainda vazio na cangalha, por uma alça, formando um par. Em seguida a carga é distribuída cuidadosamente, para que uma má distribuição do peso nos dois cestos não cause sofrimento ao animal.

Com este blog pretendo resgatar alguns poemas perdidos nas minhas velhas agendas (quase nunca utilizadas para marcar datas e compromissos!), ou  publicados não sei onde nem quando, uns tantos versos há muito ausentes na minha tênue memória, e mais outros, que há anos decidi concluí-los “depois” – dentre tantos que não merecem maior atenção. Ou seja: este é mais um espaço para um exercício mnemônico compartilhado, do que propriamente um objeto literário do tipo “obras escolhidas”.

Mas, em vez de chamá-lo de baú, termo mais associado à guarda de objetos caros, raros e finos, preferi denominá-lo caçuá, que me soa mais familiar pois que me traz diversas lembranças da minha infância na Piabanha, vale do Pardo, no sudoeste da Bahia – e, principalmente, porque combina mais com meus escritos, geralmente rústicos, pretensamente (ou desejosamente)  vertidos da poesia popular cantada nas feiras de Santana e de Conquista, na Bahia.

Diferentemente do baú, o caçuá é ambulante, roceiro, da gente simples, feito artesanalmente sabe-se lá desde quando e por quem nesta terra que ainda nem se chamava Brasil. O conteúdo do caçuá é discernível pelas frestas do trançado – cipós que formam paredes quase diáfanas, revelando objetos que contam histórias, incitam sensações, reavivam memórias...

Baú é aristocracia sobre cavalo branco. Prefiro os caminhos desbravados pelo jegue...


P.S. Hoje já é dia 30 de dezembro e acabei de ficar sabendo que o Paulo Robson "liberou" os acessos ao seu caçuá. Divirta-se:
http://www.paulorobsondesouza.blogspot.com/

Juntos por uma paixão

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Uma crônica sobre estrelas-do-mar


Era uma vez um escritor que morava próximo a uma remota colônia de pescadores. Todas as manhãs ele caminhava à beira mar para se inspirar, e à tarde ficava em casa escrevendo. Certo dia, andando pela praia, enxergou um vulto distante que parecia dançar. Ao chegar perto, percebeu que se tratava de uma jovem mulher recolhendo estrelas-do-mar da areia para, uma por uma, jogá-las de volta ao oceano.

Curioso, o escritor perguntou: “Por que está fazendo isso?”

“Você não vê o porquê?”, respondeu a mulher. “A maré está abaixando e o sol está quente. Elas irão secar e morrer se ficarem aqui na areia, tão distante do mar.”

O escritor, não-convicto, comentou: “Mas... existem milhares de quilômetros de praias por este mundo afora, e outras milhares de estrelas-do-mar espalhadas pelas praias do planeta. Que diferença faz? Você joga umas poucas de volta ao oceano e a maioria vai perecer de qualquer forma”.

A mulher pegou mais uma estrela na praia, devolveu-a ao oceano e, olhando séria, falou ao escritor: “Para esta aqui eu fiz a diferença!”.

Naquela noite o escritor não conseguiu escrever, sequer dormir. Pela manhã, retornou à praia, procurou a mulher e não a encontrou. Voltou para casa, procurou-a na colônia de pescadores e nada... Após algumas semanas já nem se lembrava do ocorrido quando, caminhando pela praia, quase pisou em uma estrela-do-mar. Parou e percebeu que ela estava distante da água. Não hesitou um instante sequer e a carregou gentilmente até encontrar as primeiras ondas, onde a deixou. Ao retornar à praia viu uma mulher descalça, a mesma de dias atrás. Os dois trocaram um olhar de cumplicidade e abriram um sorriso do tamanho do mar.

___________

Esse texto de autoria desconhecida tem circulado pela internet. Gostei tanto dele que decidi postá-lo. Pareceu-me uma daquelas antigas fábulas que estimulavam boas ações sem olhar a quem. Afinal, é muito bom pensar em “fazer a diferença”...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Música para não esquecer

 

Clive Wearing é um maestro britânico que vive sob a hostil condição de esquecer tudo em 10 segundos. Sem memória recente, duas lembranças ainda permanecem: de sua mulher e das canções que aprendeu.

Assim começa o artigo de Thiago Camelo no Blog Bússola da revista Ciência Hoje On-line desse mês. Nele é descrito que a condição de Clive Wearing tornou-se conhecida recentemente depois que a BBC publicou, no final do mês passado, uma matéria sobre uma reunião de neurocientistas em Washington, nos Estados Unidos, onde a memória do maestro foi discutida.

Em 1985, Clive Wearing contraiu uma encefalite por herpes e, desde então, desenvolveu o maior caso de amnésia de que se tem notícia – Wearing retém, no máximo, 10 segundos de memória. Em outras palavras: ele está preso num presente absoluto, um mundo sem lembranças e – menos ainda – projeções.

“Ele responde perguntas, mas já não sabe o que ou por que foi perguntado”, diz sua mulher, única pessoa que Wearing reconhece, mas com certas limitações: todo encontro com ela parece ser o primeiro após muitos anos. Wearing, ao vê-la, reage sempre como quem tem muita saudade.

O que torna o caso desse homem ainda mais especial? Ele, hoje com 73 anos, apesar de não ter ideia de nada senão do agora, tem capacidade de ler partituras, tocar piano e reger um coro – todas as atividades realizadas com as habilidades que já lhe eram peculiares antes da doença.

A conclusão dos cientistas na conferência em Washington aponta para um cérebro que armazena a memória musical num lugar diferente do lobo temporal médio, afetado na enfermidade de Wearing e, de fato, fundamental para eventos que exigem lembranças do tipo “como”, “quando”, “onde”, mas aparentemente menos importante para lembranças de melodias, harmonias e ritmos.

O renomado neurocientista Oliver Sacks tratou do caso do britânico em seu livro sobre cérebro e música, “Alucinações musicais” (“Musicophilia” no título original, em inglês). Em sua análise, o neurocientista afirma que a música libertou Wearing de sua condição: “Quando há música, o homem volta a ser o que sempre foi”. Opinião que combina com a da mulher do músico, que em um recente vídeo disse: “A música é onde podemos estar juntos. Enquanto está tocando ele é inteiramente normal”.


FONTE DA IMAGEM: Foto de Clive Wearing tocando piano - The New Yorker

domingo, 25 de dezembro de 2011

Para uma noite de paz...


Uma imagem do fotógrafo Aparecido Frota (Praça Antonio João, Dourados, MS)


sábado, 24 de dezembro de 2011

“Saber viver” até durante o Natal


Atualmente a simples expectativa do Natal me entristece. Conforme o tempo vai passando, sobe uma espécie de nó no peito que perdura, incomoda. Não sei bem qual a razão desse mal-estar, mas ele persiste e vai ficando cada vez mais intenso com a proximidade do Natal. São tantos apelos e pedidos, desejos, mensagens... Eles aumentam dia a dia e vão me envolvendo, me sufocando, me mostrando como devo ser bondosa, caridosa, amável e como eu mereço tudo de bom no Natal e em todos os demais dias do ano.

Não sei, mas há algo de falso nisso tudo. Há um certo exagero nesse “clima natalino”. Até pessoas que nunca vi me enviam mensagens melosas de paz e boa vontade. Não questiono a beleza do simbolismo da data, de forma alguma. E respeito quem a venera. Mas os excessos são desagradáveis. Tudo isso me parece uma overdose de doçura. E tenho tremenda dificuldade em lidar com exageros.

Eu estava justamente pensando nessa avalanche de rebuscadas mensagens natalinas quando recebi um e-mail de um amigo muito querido, meu ex-aluno. Nele, o Paulo diz somente isso: “Acho que você vai gostar deste poema de Cora Coralina. Feliz Natal. Beijo.” Que bom que existem pessoas que nos conhecem tão bem. Fiquei encantada com o texto da poetisa goiana (foto). Ele diz exatamente tudo o que sinto e que gostaria de ter escrito sobre “saber viver”. Como dar sentido à vida em qualquer dia do ano, simplesmente tocando o coração das pessoas, mesmo (e especialmente) no Natal. Que mulher simples e sábia era ela.

Obrigada, Paulo, e um Feliz Natal para você também. Outro beijo.

“Saber viver”

Não sei se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais.
Mas que seja intensa,
verdadeira, pura... Enquanto durar

Cora Coralina – poetisa de Goiás


COMUNICAÇÃO É TUDO: Fornos de micro-ondas “tocam” música de Natal


Criatividade, sensibilidade musical e bom humor: Feliz Natal!


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Nosso cérebro em contato com a natureza



Nos anos 60, a moçada do “paz e amor” protestava contra a guerra do Vietnã, fazia amor e adorava sentir-se parte da natureza, não necessariamente nessa ordem. Enfim, éramos todos um pouco “porras-loucas” e “bichos-grilos” e acreditávamos que a natureza nos fazia bem. E estávamos certos!

Um recente artigo da revista Psychological Science afirma que “apenas uma hora caminhando pelo campo já seria suficiente para melhorar o desempenho do cérebro em 20% — caminhar por ruas movimentadas de uma cidade, por outro lado, não tem nenhum efeito benéfico sobre o cérebro”.

Se você reside em um grande núcleo urbano, relaxe. Os cientistas da Universidade de Michigan, autores do estudo, também concluíram que após simplesmente olhar fotografias da natureza as pessoas melhoram suas capacidades cerebrais de atenção e de memória. É como se dizia nos anos 60: Grande Mãe Natureza!


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mais detalhes sobre a decoração de Natal de Dourados


A artista plástica Andréa Franklin Queiroz Alves publicou na internet um belo texto — "Natal 2011, nasce uma nova Luz pra nossa Dourados" —, em que relata sua participação no projeto de decoração natalina de Dourados, que foi criado e coordenado pela arquiteta Lolita Azambuja. Como grande admiradora da qualidade e criatividade do trabalho dessas duas profissionais, não resisti à vontade de postar tal texto, repleto de fotos. E aproveito para acrescentar outras imagens, com detalhes da casa do Papai Noel e da árvore de Natal que foi toda montada com sucata.

Parabéns à Lolita e à Andréa! Muito obrigada por compartilharem tanta beleza.




 Detalhes do interior da casa do Papai Noel


Uma árvore construída com CDs, aros de bicicletas, flores de garrafas PET, calotas de carros e hélices de ventiladores

Os aros de bicicletas com flores de PET e o efeito de vitrais coloridos

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um Natal solidário: "Livro, presente de amigo"

domingo, 18 de dezembro de 2011

COMUNICAÇÃO É TUDO: Um Natal “digital”


José e Maria trocariam e-mails e fariam reservas online para a viagem à Belém. Os Reis Magos comprariam incenso, mirra e ouro pela internet e seguiriam a Estrela de Belém pelo twitter.




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um toque de luz, com Cora Coralina


Vestida de sol
a tarde se abre
em calçadas.

Entre a primavera e o verão
desfilam pessoas iluminadas.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Luzes de Natal em Dourados


Esta é a primeira vez que sou testemunha de como uma cidade pode se alegrar do dia pra noite. Algumas decisões, fortes parcerias, um projeto bem elaborado, sob a responsabilidade técnica da arquiteta Lolita Azambuja, com a colaboração da artista plástica Andréa Queiroz Alves e de uma centena de voluntários, além de muito, muito trabalho, transformaram uma proposta ─ que poderia ser considerada um mero estímulo ao consumo natalino ─ em um toque de magia sobre o centro da cidade.

E tudo começou meses atrás, quando percebi que algumas amigas estavam por demais atarefadas e só falavam no (então distante) Natal: Lolita, Andréa, Ely Oliveira e Elizabeth Salomão. Foi inevitável dar palpites (desnecessários, é claro!) e deixar-se contagiar pelo clima de trabalho que elas criaram de forma tão prazerosa. Nunca liguei muito para Natal. Mas desta vez... Fiquei impressionada com a dedicação dos voluntários e a alegria de cada um deles ao montarem uma flor a partir de uma garrafa PET, recortarem um plástico vermelho ou pintarem uma velha calota de carro, detalhada e cuidadosamente. E assim, vi uma árvore de Natal ser construída com o reaproveitamento de rodas de bicicletas, hélices de ventiladores, CDs, calotas e garrafas de plástico.

Dourados... Tenho um carinho especial por ela, minha cidade natal. E, ao caminhar através das luzes natalinas da Praça Antônio João e da Av. Marcelino Pires, me deixei levar pelas imagens e senti que a cidade falava, sussurrando, ainda frágil: “Fui maltratada, espezinhada e roubada em meu passado recente, mas continuo viva e estou reagindo.” Tive uma vontade enorme de abraçar minha cidade. E foi então que percebi que um clima de paz e renascimento tomava conta do lugar. Não deve ter sido por acaso que a árvore de Natal transformou sucata em cores e luzes.

Espero que os desejos de Dourados sejam atendidos, a começar por um Feliz Natal!


Teste final de iluminação, com a árvore ainda sem a ponteira.


A árvore pronta (foto de Hédio Fazan).


Pórticos do presépio (à direita) e casa do Papai Noel (à esquerda), na Praça Antônio João (foto de Hédio Fazan).


Avenida Marcelino Pires (foto de Hédio Fazan).

domingo, 4 de dezembro de 2011

Crônica de Feliz Desaniversário


Hoje, com certeza, é aniversário de alguém. Não importa de quem. Pode ser seu, meu ou de outra pessoa. Alguém está feliz – ou triste. Não conheço outros estados de espírito para aniversariantes. Quem diz que fica indiferente, mente. Indiferença em dia de aniversário é tristeza disfarçada, por vezes com um toque de arrogância. Em minha infância eu ficava alegre. Sempre tinha presentes, sorvete e pudim de claras ― que eu adorava comer imaginando serem “nuvens assadas” que derretiam na boca como um chuvisco de verão. Meu aniversário era um dia com regalias, travessuras perdoadas, abraços especiais, correrias pela casa e joelhos ralados sem o mercurocromo (e tampouco o iodo que ardia).

Hoje já não sou tão previsível. Por vezes fico alegre, por outras tantas fico triste. E também existem os aniversários em que me sinto indiferente (eu também tenho minhas fases de disfarçar tristeza). Mas na maioria das vezes não acho graça nenhuma em ter data marcada para comemorar. Prefiro festa de desaniversário.

Todo dia é desaniversário! (Todo dia, menos um: justamente a data de aniversariar.) Acho a ideia uma delícia: festejar o ano inteiro, sem se prender à agenda. E a invenção nem é minha. É criação de Lewis Carroll, em seu livro “Alice no país das maravilhas”. Nunca me esqueci da festa que o Chapeleiro Maluco fez durante seu chá. Carroll presenteou minha infância com uma divertida e intrigante palavra nova e um sentido inesperado para todos os dias do ano que “sobravam” sem comemorar.

Desaniversários são sempre bem-vindos. São festas sem dia certo e sem hora marcada. São celebrações cotidianas. Se os humores e os hormônios estiverem em equilíbrio, se o alinhamento dos planetas for favorável e se os amores mantiverem-se florescendo, não haverá uma única desarmonia no dia a dia das comemorações. Mas, regido pelos astros e guiado ao sabor da maré dos fluidos, meu desaniversário precisa de cor em tons de anil.

Pelas manhãs, ao abrir os olhos ainda inchados, gosto de espiar pela cortina azul de voal para ver se o dia está azul também. Desaniversários azuis! Eu jamais serviria para morar em países cinzentos. Viro gel, fico viscosa em dias escuros. Mas com céu claro...

Nem sei explicar direito o que é acordar sentindo o azul... Pela janela entreaberta, acompanhando a claridade, adentra uma lufada de ar fresco que me arrepia o corpo todo. E o azul me banha, me ilumina. Fico inundada com o lume, que nem pirilampo, acesa.

Com a alma cheia de luz, levanto-me feliz e lembro que posso fazer uma grande festa. Meu cachorro concorda e delicia-se rolando na grama, detendo-se a cada tanto para me olhar, convidando-me a fazer o mesmo. Afinal, hoje é meu desaniversário (e dele também).

E o seu? Vai passar esquecido, em brancas nuvens, ou imerso em azul? A decisão é sua. Mas eu adorarei dar um imenso abraço de Feliz Desaniversário em você também!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Como lidar com corruptos


Há muitas maneiras de lidar com um pedido de propina. Pode-se atendê-lo. Pode-se rejeitá-lo. Pode-se reclamar em um site anticorrupção. Pode-se chamar a polícia e fazer um escândalo. Pode-se anotar na agenda uma participação na próxima passeata contra corruptos. Pode-se passar a noite relatando aos amigos, mais uma vez, seu horror com a corrupção e como ela está destruindo a alma da nação.

Ou pode-se dar o troco soltando as cobras (e ganhando visibilidade mundial).

No início desta semana, um agricultor e encantador de serpentes da cidade de Haraiya, no distrito de Basti, no estado indiano de Uttar Pradesh, soltou três sacos de serpentes na Divisão de Cadastro Fundiário, por não se conformar com um pedido de propina. Enquanto umas 40 cobras deslizavam sinuosas pelo escritório, funcionários apavorados corriam para as saídas, subiam em mesas ou se espremiam pelos cantos. Entre os bichinhos havia quatro mortíferas najas.

Um homem usa uma toalha tentando afugentar cobras que se espalham pelo escritório, enquanto outros sobem em cadeiras e mesas, em 29 de novembro de 2011, em Basti, na Índia (Foto: Associated Press).

Le Parole e Beco ─ dois bons programas em Campo Grande


Hoje é quinta-feira. Dia de encontrar alguns amigos para conversar, beber e degustar as comidinhas especiais do Beco. Não sem antes dar uma passadinha na livraria Le Parole, a mais bonita da cidade.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Como usar o 13°. salário para ficar “chique”




“Chique é não ter dívida. Usar o dinheiro extra para resolver esse problema é um presente que você se dá.”


 
Gloria Kalil, consultora de moda

domingo, 27 de novembro de 2011

"Encontros sobre a Arte e seus assuntos", com Maria Adélia Menegazzo

sábado, 26 de novembro de 2011

Uma livraria que presenteia...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A tecnologia do abraço, por um mineiro


Recebi um texto lindo, apesar de repleto de palavras difíceis, tais como “tequilonogia” e “massargiado”. Não ficou “taum bunitim”, mas tomei a liberdade de traduzir o dialeto mineiro (e fiz alguns acréscimos, pequenos):

O matuto mineiro falava tão calmamente, que parecia medir, analisar e meditar sobre cada palavra que dizia.

“Pois é... das invenções dos homens, a que mais tem sentido é o abraço. O abraço não tem jeito de não ser compartilhado, é impossível uma pessoa somente aproveitá-lo! Tudo quanto é gente, no abraço, participa uma beradinha...

Quando você tá danado de saudades, o abraço de alguém te alivia...
Quando você tá com muita raiva, vem um, te abraça e você fica até sem graça de continuar com raiva...
Se você tá feliz e abraça alguém, esse alguém pega um pouquinho da sua alegria...

Se alguém tá doente, quando você o abraça, ele começa a melhorar e você melhora junto também...

Muita gente importante e letrada já tentou dar um jeito de saber por que que o abraço tem tanta tecnologia, mas ninguém ainda descobriu. Mas, eu sei! Foi um bom espírito de Deus que me contou. Eu vou contar pra vocês o que foi que ele me falou:

O abraço é bom por causa do coração...
Quando você abraça alguém, faz massagem no seu coração!
E o coração do outro é massageado também!
Mas não é só isso, não... Aqui tá a chave do maior segredo de todos:
É que quando se abraça alguém, com um abraço bem apertado, a gente fica com dois corações no peito guardado.”

Isso que é tecnologia! Melhor que um queijinho...

[Obrigada ao Prof. Paulo Robson pelo texto.]

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A música do western-spaghetti “Três homens em conflito”





A película, como se dizia na época, fez sucesso na década de 60 (século passado), apesar do estranho título (politicamente correto?) em português: “Três homens em conflito” (título original: Il buono, il brutto, il cattivo / The good, the bad and the ugly). Um western-spaghetti – filme ambientado no Velho Oeste americano, com produção italiana – que deu fama a Clint Eastwood.

A música-tema do filme, de Ennio Morricone, é aqui apresentada pela orquestra de cordas britânica “Ukulele” (foto), um grupo formado por um violão e seis pequenas guitarras de quatro cordas, as ukuleles (“pulgas saltadoras” no idioma havaiano). Se você achar o início do vídeo meio estranho, espere até 1 minuto e 18 segundos para entrar no clima da música. E divirta-se!

[Obrigada pela dica do Johnny Khouri.]



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

“Bonito”, um poema de Paulo Robson


Nos jardins submersos de Bonito
Algas, lama, dourados, grandes folhas,
Caramujos e musgos... cospem bolhas.
Naturais, são aquários infinitos.
Mundos d’água gasosa — e inauditos —
Nos inspiram poemas, fantasias.
Respirar dentro d’água é alegria
Para os que vivem imersos na pureza.
Reparando melhor, a natureza —
De algum modo — respira poesia.

Paulo Robson.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

“Uma viagem à Grécia”, com Carla de Cápua


A artista plástica Carla de Cápua nos convida para uma bela viagem pela Grécia através de seus desenhos, gravuras e óleos sobre tela. Com um roteiro preparado cuidadosamente, a cicerone Carla mostra a sensibilidade de seu olhar na escolha de cada local a ser visitado ou cada objeto a ser apreciado. Embarque no MARCO, ainda hoje ou durante o trajeto, até o dia 20 de janeiro de 2012.

LOCAL: Museu de Arte Contemporânea de MS – MARCO
ENDEREÇO: Rua Antônio Maria Coelho, 6000 – Parque das Nações Indígenas – Campo Grande, MS.
ABERTURA: Hoje, dia 22 de novembro (terça-feira), às 19h30
HORÁRIOS DE VISITAÇÃO: Terças a sextas-feiras das 12 às 18h - Sábados, domingos e feriados das 14 às 18h
ENTRADA GRATUITA
INFORMAÇÕES: (67)3326-7449 (das 12 às 18h)


Consumo! Compras, compras e compras... A HISTÓRIA DAS COISAS


Todos nós (com exceções, é claro) gostamos de fazer compras. Você pode até ser do tipo que não as “faz”, mas certamente delas usufrui, em maior ou menor grau. Resumindo: somos todos consumidores e, menos ou mais conscientes, estamos imersos em uma economia baseada no consumo.

Qual é o problema em fazer compras? O comércio ganha com isso. O produtor e o distribuidor também ganham, assim como, obviamente, a parte mais interessada: você, que ganha porque adquiriu alguma coisa que queria ou de que precisava. Enfim, trata-se de uma série de elos coesos, em diferentes graus de dependência. Aparentemente, essas interrelações são tão familiares que nos parecem naturais na vida em sociedade. É exatamente aí que moram o perigo e as contradições: o que compramos, por que compramos e de quem compramos.

Retratando os hábitos de compra e venda, seus custos e consequências, foi lançado nos Estados Unidos no final de 2007 um curta-metragem que transporta o espectador para uma viagem instigante pela cultura de consumo — desde a extração de recursos, passando pela produção e distribuição de um bem qualquer, até seu descarte —, expondo o custo real desse bem. E assim, o filme mostra os diferentes caminhos percorridos pelas “coisas” que são vendidas e compradas, caminhos esses que são objetos de estudo da “economia de materiais”.

O filme, “The Story of Stuff” (A História das Coisas), foi escrito pela economista Annie Leonard. Com pós-graduação em Planejamento na Universidade Cornell, em Nova York, Annie especializou-se em problemas internacionais de saúde ambiental e sustentabilidade ao longo de mais de 20 anos de pesquisas, que a levaram a percorrer fábricas e descartes de lixo ao redor do mundo.

Em um de seus trabalhos pioneiros, Annie Leonard esteve em países asiáticos para identificar os trajetos do lixo exportado dos Estados Unidos e Europa. Suas constatações sobre o tráfico internacional de lixo foram documentadas não apenas em grande número de artigos, mas também em depoimentos perante o Congresso americano, buscando banir tais exportações destinadas ao Terceiro Mundo.

Coordenadora do “Funders Workgroup for Sustainable Production and Consumption” (Grupo de Trabalho dos Financiadores para a Produção e Consumo Sustentáveis), faz atualmente palestras sobre os impactos do materialismo e do consumismo sobre a economia global e a saúde internacional. Em “A História das Coisas” a escritora (que também é a narradora) examina os custos sociais, ambientais e globais da extração, produção, distribuição, consumo e descarte. Analisando uma cultura movida a coisas, ela identifica nas políticas pós-Segunda Guerra Mundial a semente das noções de consumismo e examina como essas noções ainda orientam grande parte das economias do mundo.

Tanto na limitada vida útil de um computador quanto nas mudanças em qualquer ramo da moda, ela vê exemplos de produtos projetados para durarem pouco (fabricados para ficarem obsoletos rapidamente) ou para criarem no consumidor o desejo de atualizá-los regularmente (o seguidor da moda é bombardeado com a ideia de que precisa “continuar na moda”, ou seja, comprar os novos lançamentos). E assim, Annie Leonard afirma que essas ações de “obsolescência programada” e de “obsolescência percebida” movimentam a máquina do consumismo. Com um enfoque provocativo mas realista, o filme pode gerar reações dos mais diferentes tipos. Acho que essa é a ideia: fazer pensar! Queremos continuar vivendo nesse sistema de consumo?

O curta pode ser visto em inglês em sua versão original — http://www.storyofstuff.org/ —, ou legendado em português, através do vídeo aqui disponibilizado.

Se o tema lhe interessa, assista e tire suas próprias conclusões. Talvez as imagens (e a contundente explicação da narradora) revelem muito mais de nosso cotidiano do que realmente gostaríamos de ver. Eu sou suspeita: sou fã do trabalho de Annie Leonard! E há anos venho insistindo em divulgá-lo. Acho que o curta-metragem escancara o tamanho do embuste político que existe no capitalismo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Benetton e sua famosa estratégia: polemizar!


Se você não conhece, a Benetton é um grupo italiano que já fez muito sucesso no Brasil (no final dos anos 80 e início dos 90), não exatamente por seus jeans e camisetas coloridas, mas por suas campanhas publicitárias polêmicas, que na época deram muito o que falar (e ainda dão). Veja uma delas, veiculada em 1991, com o nome de “Angel & Devil” (“Anjo & Demônio”):


O fotógrafo Oliviero Toscani foi o grande parceiro do grupo Benetton, desde os anos 80, ao criar imagens de impacto que exasperavam diversos segmentos da sociedade e instituições, tais como a Igreja Católica no beijo entre o padre e a freira:


E hoje, cerca de vinte anos depois de sua fase mais agressiva (publicitariamente falando), a Benetton retorna distribuindo mais beijos na boca, entre líderes adversários. Todos eles são falsos (os beijos, é claro). Um deles, entre o papa Bento XVI e o imã sunita Ahmed El Tayeb, foi condenado pelo Vaticano, que não só o qualificou como “uma grave falta de respeito com o papa”, como também ameaçou processar a Benetton, que, educadamente, publicou seu pedido de desculpas e deletou a fotomontagem de seu site.

A proposta da campanha não tem meias palavras: cada beijo entre os adversários vem com um apelo para o fim do ódio – UNHATE (algo como “desodiar”). E, devo confessar, me diverti com duas das imagens. As que mostram beijos entre a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy (mais parecendo um “selinho” roubado pela alemã) e entre Barack Obama e Hugo Chávez (que me leva a rir pelo clima de latin lover que paira entre os dois). Veja as cenas, ou melhor, as fotomontagens:





“Coro de Câmara da UFMS” se apresenta hoje, em Campo Grande


Uma apresentação para festejar a noite de domingo, com a impecável regência do maestro Manoel Câmara Rasslan.


sábado, 19 de novembro de 2011

Um menino – André Matos Moreira – e seus desejos


Na Fazenda Azulão — a primeira morada da família Mattos lá pelos idos de 1902 — uma bela mata protegia a casa do calorão, deixando passar uma aragem úmida e refrescante nas tardes de sol a pino. A casa, erguida pelo patriarca Francisco de Mattos Pereira, já não existe mais. A Azulão foi retalhada por heranças, mas boa parte dessa mata foi mantida, soberana. E ainda hoje ameniza o calor para quem passa por lá.

Erguida pela família de uma das netas do patriarca — Clarinda de Matos Moreira e seu marido Devaldo Moreira, um paulista, poeta —, outra casa foi construída no local em que hoje um pedaço da Azulão leva o nome de Fazenda Coqueiro. E nela morou um menino... Um menino que não andou a cavalo, não correu com medo de boi brabo e tampouco brincou de arar a terra. Um menino quieto e retraído que desfrutou da sombra da mata para caminhar, sentar-se e ler — André Matos.

Esse trineto de Francisco de Mattos Pereira, e bisneto do Zé Leitão, deu dor de cabeça à família. Baita menino esquisito! Todo mundo esperava que ele, se não morresse logo, fosse diferente mesmo. Afinal, tinha nascido muitas horas após o rompimento da bolsa — diziam as comadres — e até o Dr. Vilela, logo após o parto, no dia 10 de outubro de 1984, pressentia algum tipo de problema: “Vamos ver o que vai acontecer...”.

Mas o menino, filho de José Humberto de Matos Moreira e Neusa Carmo Gonçalves, sobreviveu e acabou crescendo na Fazenda Coqueiro, criado pelos avós paternos.

As esquisitices começaram mesmo quando André desandou a ler antes de completar cinco anos e não parou mais. Encantado com a descoberta das formas das letras, seus desenhos e significados, ele passou a devorar livros e revistas com mais apetite do que para mingau de aveia. E não havia cristão que o distraísse enquanto estava lendo — nem uma promessa de bicicleta nova ou de caminhãozinho basculante. Tampouco um pedação de rapadura com queijo fresco dava conta do recado. Até que um dia, na cidade, André descobriu outra paixão que deixou os livros em segundo plano.

Era uma sala, na casa de Eliane Freitas de Alencar, em um final de tarde. André, impecável em sua roupa de passeio, se distraía com uma revista quase de seu tamanho enquanto sua avó Clarinda, que o levara consigo, conversava com algumas amigas. De repente, um som nunca antes ouvido o deixou paralisado. E ele me contou, recentemente, com detalhes: “Eu tinha quatro anos de idade e uma centelha me atingiu. Somente hoje eu sei explicar o que senti. Foi como se uma corrente elétrica tivesse me atravessado. Eu nunca tinha escutado nada parecido. E tampouco entendia de onde saía aquele som. Havia um piano na sala, todos estavam em silêncio e a Eliane o tocava. Mas eu nem fazia ideia de que a música vinha do piano. Aquele som foi inesquecível... E uma certeza naquele momento tomou conta de mim: ‘É isso que quero fazer!’, decidi”.

E o menino levou a sério sua decisão. Alguns meses depois, no aniversário de cinco anos, bateu pé e não deixou a moça da loja embrulhar aquele imenso carro de bombeiros que a avó escolhera para lhe dar. Pediu um piano! E a avó o atendeu, com o único então disponível: um pianinho de brinquedo.

André tanto tocou e tanto pediu, que a avó Clarinda cedeu: levou-o para ter umas aulas de piano com a professora Iza. E ele logo começou a ler partituras, sem nem saber como. Impressionada com a aptidão do neto, Dona Clarinda o encaminhou para estudar piano clássico com a professora Eliane, a mesma que lhe apresentara o som que o eletrizara alguns meses antes.

A partir daí a história é de uma dedicação espartana. André passou a adolescência estudando prazerosamente, fazendo exatamente o que descobriu que queria fazer, com o incentivo da avó. Assim, concluiu o curso de nível técnico em piano, em Campo Grande, e ganhou o tão desejado presente, agora de gente grande: um piano... digital. Ainda residindo em sua terra natal, Dourados, MS, outros interesses afloraram e ele apaixonou-se, quase casou. Foi sua primeira desilusão amorosa. A tristeza o levou a outras plagas. Foi para Goiás (mas felizmente não formou uma dupla caipira). Ali trabalhou em um conservatório e começou a firmar-se como pianista, junto com um preparador vocal. Quando deu por si, já estava produzindo arranjos, compondo e dirigindo gravações. Estudou durante quatro anos no Conservatório de Goiás, enquanto ministrava aulas de piano em Goianésia e Goiânia e dirigia um coro vocal em Ceres.

Voltou para Dourados e tornou-se pianista auxiliar na Igreja Presbiteriana do Brasil – a “igreja do relógio”. Em 2008 dedicou-se a um curso de afinação e restauração de piano, em Campo Grande, com Albino Ferraz. Em seguida sua avó teve diagnóstico de câncer e André decidiu permanecer em Dourados. Hoje ele tem a alegria de acompanhá-la, curada, enquanto ensina piano, estuda, grava e compõe em seu próprio conservatório na cidade — o Escritório da Música —, além de ser pianista e regente do coral da igreja do relógio. E, graças a Deus, continua sendo um cara esquisito, daqueles que ficam horas e horas ao piano, ou imerso em leituras.

Pois é... Dizem que avós estragam os netos. Nesse caso, Dona Clarinda, todos na cidade estão lhe agradecendo. Que belíssimo “estrago” a senhora fez!
___________


P.S. Respondendo dúvidas enviadas por e-mail: o ANDRÉ MATOS MOREIRA existe, mesmo! O texto é uma crônica baseada em fatos reais da sua história (até a mata é verdadeira). Aqui está ele, em uma foto recente - um belo homem de 27 anos.



 

Blog da Maria Eugênia Amaral Copyright © 2011 -- Powered by Blogger