terça-feira, 19 de abril de 2011

Passagens e mudanças

Foto de Katie Kukulka
O tema é recorrente, as pessoas são praticamente as mesmas, mas as emoções se renovam. Terão sido elas, o tempo ou eu mesma que mudei? Pessoas que não se alteram com o tempo, que se mantêm imutáveis, me causam arrepios. Sinto atração e repulsa simultaneamente — sentimentos antagônicos para o que me impressiona e que considero uma distorção da realidade. Pode ser apenas uma deficiência em minha capacidade de discernimento, mais um tema incompreensível para mim. E assim continuo a ampliar minha coleção sobre o tópico “conhece-te a ti mesmo”. Uma espécie de álbum de figurinhas e recortes de tudo aquilo que mexe comigo.

Quem não guarda lembranças? Aquela foto do colégio, a flor prensada dentro de um livro de poemas, uma pequena caixa com anéis que não servem mais, um lenço de cambraia, a velha camiseta da escola, um bilhete de seu amor... Quem não registra eventos? Memórias e fragmentos de fases e momentos marcantes que se foram ou que ainda estão acontecendo. Até hoje tenho um pequeno papel-celofane vermelho — o mesmo que envolvia um bombom recheado — que foi dobrado com um nó, marcando meu primeiro beijo na boca. Está guardado em algum lugar (nem faço ideia onde), mas ainda sinto nitidamente o calor úmido, a textura e a pressão sobre os lábios. O beijo está lá, impregnado em minha memória, gravado no álbum de recortes de minhas melhores sensações adolescentes.

Memórias agradáveis, e outras nem tanto. O álbum vai ficando atulhado de lembranças. E hoje decidi abri-lo um pouco mais demoradamente. Coincidência de datas ou não, dei de cara com um domingo de Páscoa: uma bela manhã de doces promessas, com chocolates e brincadeiras. De vestido rodado e laço branco nos cabelos, o riso solto e o chocolate ficaram presos na correria pela fazenda, amargos, como que esmagados com um safanão. Estática, assisti à dilaceração de um gatinho. Pequena, sem noção do perigo, nem sequer suspeitava da possibilidade de quase ter sido eu a vítima. Meu grito, agudo e forte, não chegou a tempo de salvar o bichinho, mas deve ter assustado o cavalo desembestado, que mudou a direção da carroça desgovernada e me salvou.

A violência com que aquela vida foi arrancada deu-me uma dimensão prematura da vida e da morte. E aquela Páscoa marcou minha infância, amargando os chocolates por um longo tempo. Hoje o doce sabor retornou, outros gatinhos nasceram e me alegro ao ver crianças correndo com seus chocolates, sem laços de fita, mas prontas (assim espero) para as mudanças que o tempo manifesta.

E agora os tempos são outros, sem carroças nem cavalos desembestados. A violência também mudou. Não é mais resultado de atos irracionais. Ficou pior, muito pior, se é que é possível mensurar e comparar violências. Com planejamento e organização, a violência consta do calendário escolar, com dia e hora para ser executada por atos “racionais”. Com dezenas de teorias, laudos psiquiátricos sobre personalidades doentias e ampla repercussão na mídia, sobram explicações e faltam vidas. Só sobrou um gosto insuportavelmente amargo e forte, em uma escola que nunca mais será a mesma.
 

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