domingo, 30 de outubro de 2011

“A arte perdida da caligrafia”, por Umberto Eco

Recentemente, dois jornalistas italianos escreveram um artigo de jornal de três páginas (em letras de imprensa – ai de mim!) sobre o declínio da caligrafia. Agora já é fato conhecido: a maioria das crianças – devido aos computadores (quando elas os usam) e às mensagens de texto – não consegue mais escrever a mão, exceto em suadas letras maiúsculas.

Em uma entrevista, um professor disse que os alunos também cometem muitos erros de ortografia, o que me parece um problema em separado: médicos sabem escrever e, mesmo assim, suas escritas são sofríveis; e você pode ser um especialista em caligrafia, mas escrever “conserto”, e não “concerto”.

Eu conheço crianças cuja caligrafia é bastante boa. Mas o artigo fala em 50 por cento de italianinhos – e eu suponho que seja graças a um destino indulgente que eu frequente os outros 50 por cento (algo que me acontece também na arena política). A tragédia começou bem antes do computador e do telefone celular.

A caligrafia de meus pais era ligeiramente inclinada, porque eles posicionavam o papel em ângulo e suas letras eram, pelo menos para os padrões atuais, pequenas obras de arte.

Na época, alguns – provavelmente aqueles com letra feia – diziam que a caligrafia elegante era a arte dos tolos. É óbvio que caligrafia bonita não significa, necessariamente, inteligência refinada. Mas era prazeroso ler notas ou documentos escritos de maneira mais correta.

Minha geração foi treinada para ter boa caligrafia e nós passávamos os primeiros meses da escola primária aprendendo a traçar as letras. Posteriormente, o exercício foi tido como obtuso e repressivo, mas ele nos ensinou a manter o pulso firme ao usarmos a caneta para formar letras arredondadas e delicadamente desenhadas. Bem, nem sempre – porque as canetas-tinteiro, com as quais sujávamos carteiras, livros, cadernos, dedos e roupas, costumavam produzir uma borra desagradável que grudava na caneta e obrigava a dez minutos de lambança para limpar.

A crise começou com o advento da caneta esferográfica. As primeiras esferográficas também faziam sujeira – se, imediatamente após escrever, você passasse o dedo sobre as últimas palavras, era inevitável aparecer um borrão. E as pessoas já não tinham muito interesse em escrever bem, já que a caligrafia feita com uma esferográfica, mesmo que limpa, não tinha mais alma, estilo ou personalidade.

Por que deveríamos lamentar o passamento da boa caligrafia? A capacidade de escrever bem e velozmente em um teclado estimula o pensamento rápido e, com frequência (não sempre), o corretor ortográfico irá sublinhar um erro de grafia.

Embora o celular tenha ensinado a geração mais jovem a escrever “Kd vc?” no lugar de “Cadê você?”, não nos esqueçamos de que nossos antepassados ficariam chocados ao ver que escrevemos “farmácia” e não “pharmacia”, ou “xícara” em vez de “chicara”. Teólogos medievais escreviam “respondeo dicendum quod”, coisa que teria feito Cícero se revirar no túmulo.

A arte da caligrafia nos ensina a controlar nossas mãos e encoraja a coordenação mão-olho.

O artigo de três páginas apontava que a escrita a mão nos obriga a compor a frase mentalmente antes de escrevê-la. Graças à resistência da caneta e do papel, somos forçados a parar para pensar. Muitos escritores, embora acostumados a escrever no computador, algumas vezes até preferem imprimir letras em uma placa de argila, porque assim podem pensar com mais calma.

É verdade que as crianças escreverão cada vez mais em computadores e celulares. Apesar de tudo, a humanidade aprendeu a redescobrir muitas coisas que a civilização eliminara como desnecessárias, como nos esportes e prazeres estéticos.

As pessoas não viajam mais a cavalo, mas algumas fazem aulas de equitação; existem iates motorizados, mas muita gente é tão devotada à arte de velejar quanto os fenícios de três mil anos atrás; há túneis e ferrovias, mas muitos ainda apreciam caminhar a pé por passagens alpinas; há pessoas que colecionam selos na era do e-mail; e exércitos vão à guerra com rifles kalashnikovs, mas também organizamos pacíficos torneios de esgrima.

Seria bom se os pais enviassem os filhos a escolas de caligrafia, para que eles pudessem participar de competições e torneios – não só para adquirir base em algo que é belo, mas também para seu bem-estar psicomotor. Tais escolas já existem, basta procurar “escola de caligrafia” na internet. E, talvez para aqueles com mão firme e sem emprego estável, ensinar essa arte possa se tornar um bom negócio.
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FONTE DO TEXTO: New York Times Sindicate, clipado da Revista da Cultura, Artigo “A arte perdida da caligrafia”, assinado por Umberto Eco e traduzido por Marina Mariz.

FONTE DA IMAGEM: Microsoft Media Gallery

 

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