terça-feira, 29 de março de 2011

LEILO DOM: Um leilão que doa um pouco de você

Tudo começou em 2004... Cida Oliveira Couto havia acabado de perder sua mãe, Odalíria, e não conseguia esquecer o sofrimento e a via-crúcis entre médicos, hospitais e tratamentos. Um dia, conversando com sua grande amiga Lolita Azambuja, comentou como deveria ser imenso o desespero das pessoas doentes e seus familiares sem posses materiais, pois à dor da enfermidade somava-se a dificuldade em contar com a rapidez e qualidade que, infelizmente, só um atendimento particular poderia oferecer. A conversa daquele dia acabaria por provocar uma decisão interior que tomaria conta das vidas de Cida e Lolita: “Alguma coisa tinha que ser feita para ajudar pessoas doentes desamparadas!”.

Cida se lembra como hoje: “Resolvemos deixar a ideia amadurecer por uns dias”. E a proposta rapidamente ficou madura com a ajuda de outras amigas – Ana Viana, Marley Radeke e Andréa Alves. Era o final de abril de 2004, faltavam poucas semanas para o início da Exposição Agropecuária de Dourados (Expoagro), e todas elas, de uma forma ou de outra, estavam envolvidas com o evento. Pronto! Nada como atuar em ambiente conhecido.

E o grupo de amigas decidiu organizar um LEILÃO BENEFICENTE, mas um leilão diferente: as prendas precisariam ser doadas com muito amor; teriam que ser feitas pelas próprias mãos dos doadores. Assim, cada prenda seria a doação não apenas de um objeto, mas de um dom de quem a fez. Tiago, filho de Cida, ficou encantado com a ideia e sugeriu o nome: LEILO DOM. Imediatamente, Ely Oliveira e Cibele Bodelão se pronunciaram: “Nós cedemos o espaço do Luzly!”. Chegou a vez de Josias Vitorino, leiloeiro afamado: “Eu faço o leilão de graça!”.

Agora, sim, faltava o principal: prendas para o leilão. E Cida me contou ter ficado apavorada. Estava em cima da hora e muito trabalho ainda devia ser feito. Foi quando se lembrou de Helena e seus filhos, uma família de artesãos que trabalha com lã e faz coisas lindas. Ela foi a primeira a ser procurada. Na casa da Helena havia uma jovem senhora ― Marlene ―, discreta, sentada em um canto da varanda e trabalhando com umas lãs. Mal Cida explicou a razão do leilão, Marlene levantou-se:

Eu também perdi minha mãe recentemente e sei do que você está falando. Eu faço crochê pra vender e quero ajudar.

Marlene saiu da varanda e retornou com as mãos em concha, segurando alguma coisa com todo cuidado, como se fosse um diamante raro, relata Cida. E então, com o maior carinho, doou uma minúscula bonequinha – um ímã para geladeira.

Sabe o que aconteceu? A tal bonequinha (que está na foto acima) foi colocada no leilão como a última prenda e foi arrematada... e em seguida doada, e novamente arrematada e doada: seis vezes. Foi a prenda mais valiosa do primeiro Leilo Dom, e assim vem sendo ano após ano. Transformou-se na mascote do evento. Até hoje continua sendo concorridamente arrematada e outra vez doada, voltando a ser carinhosamente guardada pela Cida em uma caixinha de prata, como a joia rara que é.

“Você que já tem o Dom de fazer, agora tem também o Dom de Doar.”


LEILO DOM – 8.º Leilão Beneficente – Obras Artesanais

DATA: 14 de maio, às 20h.
LOCAL: Parque de Exposições de Dourados, MS – EXPOAGRO – no Tattersal.
LEILOEIRA: Leiloboi.

O leilão será em prol da Rede Feminina de Combate ao Câncer

Informe-se como você pode colaborar, ligando para Cida Oliveira Couto:
(67) 9971-8181

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ficha Limpa fica pra depois...

Após o empate de 5 a 5 às vésperas das eleições de 2010, o Supremo Tribunal Federal decidiu na última quinta-feira (dia 24 de março) que a Lei da Ficha Limpa não é válida para as eleições do ano passado. Tal decisão foi viabilizada por uma votação de 6 a 5, com o voto de seu 11.° e mais recente membro: o ministro Luiz Fux.

Enfim, segundo o STF, a Ficha Limpa não deveria ter sido aplicada nas eleições de 2010 devido ao “princípio da anualidade”. De acordo com tal princípio, pelo que entendi, toda lei só entra em vigor um ano após sua promulgação (e a Ficha Limpa foi sancionada em junho de 2010).

Continuo meu aprendizado sobre questões legais. No ano passado o “princípio da anualidade” não foi impedimento para cinco de dez votos. Será que nas próximas eleições não surgirá outro aspecto legal impeditivo? Quem sabe um novo princípio, da “bienalidade” ou “trienalidade”? Podemos chegar a “decadalidade”. Enquanto isso, vamos manter políticos “ficha-suja” em plena atividade. E, com eles, a fétida e interminável contaminação dos serviços públicos.

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terça-feira, 22 de março de 2011

Amigos... Obesidade, tabagismo e felicidade

Fiquei impressionada com a leitura de uma matéria de capa da Revista SUPER INTERESSANTE, de autoria de Camilla Costa, e entendi perfeitamente por que “a amizade é uma das coisas mais importantes de nossas vidas” Leia o texto na íntegra:

A reportagem mostra dados interessantíssimos sobre a capacidade que os amigos têm de influenciar nossa vida:

REDE DE INFLUÊNCIA ― veja como as características e atitudes de seus amigos mexem com você:

OBESIDADE:
Um estudo realizado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, prova que não basta vigiar a balança. Fique de olho também na dos seus amigos, pois você tem uma influência enorme sobre o peso deles — e eles sobre o seu. Se seu amigo é obeso, isso aumenta em 45% o risco de você também ficar obeso. Se o obeso é o amigo do amigo, o risco aumenta 20%. Se o amigo do amigo do amigo é que é obeso, o risco aumenta 10%. Se a obesidade é de seu cônjuge, você tem risco 37% maior de tornar-se obeso também.

TABAGISMO:
Os pesquisadores também estudaram a maneira como o hábito de fumar se espalha ao longo do tempo em um grupo de pessoas conectadas. Fizeram as seguintes descobertas: Se um amigo seu começa a fumar, seu risco de se tornar fumante aumenta 61%. Se o amigo de um amigo vira fumante, o risco aumenta 29%. Se o amigo do amigo de um amigo fuma, o risco cresce 10%.

FELICIDADE:
Ela também se dissemina pelas redes de amigos, embora (infelizmente) com menor intensidade. Se um amigo está feliz, a felicidade que você vivencia aumenta 15,3%. Se o amigo de um amigo está feliz, a felicidade cresce 9,8%. Se o amigo do amigo do amigo é que está feliz, você passa a experimentar um bem-estar 5,6% maior. Se a felicidade é do cônjuge, você se torna 8% mais feliz.

Que vida complicada... Sou obrigada a concluir, então, que É muito mais fácil FUMAR e FICAR OBESO do que FICAR FELIZ!

E falo de experiência. Consegui parar de fumar após anos e anos de tentativas — e venho lutando incessantemente contra a balança desde a adolescência. Mas chegar a esta altura do campeonato e ainda ficar sabendo que há uma forte probabilidade de me tornar uma fumante obesa e infeliz? Recuso-me a acreditar. A força de vontade tem que ser mais forte que as influências. Aceito, no máximo, um leve sobrepeso... Digamos: uma gordinha feliz!



segunda-feira, 21 de março de 2011

“Haruo Ohara” ― O premiado filme sobre o fotógrafo lavrador


Realizado em 2010 pela Kinoarte, com o patrocínio do Ministério da Cultura, o filme mostra a vida e a obra do imigrante, agricultor e fotógrafo japonês Haruo Ohara (1909-1999), que por mais de 50 anos produziu quase 20 mil fotos da região de Londrina, no interior do Paraná ― obra que hoje integra o acervo do Instituto Moreira Salles. Produzido por Bruno Gehring, o filme teve direção, roteiro e montagem de Rodrigo Grota, fotografia de Carlos Ebert, direção de arte de José de Aguiar e um elenco formado por Marco Hisatomi, Márcia Kinjo, Rogério Ivano e César Sumyia.

Até o momento, o curta metragem “Haruo Ohara” (com duração de 16 minutos, filmado em cores e P&B), recebeu os seguintes prêmios:

Melhor Filme (Júri Oficial e Júri Estudantil), Melhor Direção (para Rodrigo Grota), Melhor Fotografia (para Carlos Ebert) e Prêmio de Aquisição do Canal Brasil, no 38.º Festival de Cinema de Gramado. Prêmio Onda Curta no 20.º Curta Cinema – Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Melhor Produção (para Bruno Gehring) e Menção Honrosa para a Fotografia (de Carlos Ebert) no 17.º Vitória Cine Vídeo. Prêmio Especial do Júri no Goiamum Audiovisual, em Natal (RN), e Menção Honrosa no II Curta Carajás, festival realizado em Parauapebas, no Pará.

Agora, bem informado, assista a alguns trechos do filme:



Dois olhares: Cartier-Bresson e Haruo Ohara

Foto de Cartier-Bresson, em Paris (1932)

Foto de Ohara, em Londrina, PR, Brasil (1950)


Dois fotógrafos que eu admiro. Dois flagrantes. Dois homens. Um na França (em Paris) e o outro no Brasil (em Londrina). ÁGUA E LAMA!


O francês Henri Cartier-Bresson (1908—2004) é um dos mais importantes fotógrafos do século XX, reconhecido como um dos precursores do fotojornalismo. Saiba mais sobre ele acessando o site de sua Fundação:

O nipo-brasileiro Haruo Ohara (1909—1999), lavrador e fotógrafo autodidata, registrou o dia a dia do interior do Paraná e a vida simples e árdua de quem trabalha com a terra. Conheça mais clicando no link que dá acesso a seu acervo, cedido pela família ao Instituto Moreira Salles:

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FONTES DAS IMAGENS: Fundação Cartier-Bresson e Instituto Moreira Salles

sábado, 19 de março de 2011

Medos, monstros e histórias

FONTE DA IMAGEM: Commons Wikimedia Org.
A noite caía escura como breu. Nada se via no céu, além de algumas minguadas estrelas e uma nesga de luz da lua nova. Fui dormir bem cedo, pouco depois de as galinhas se aquietarem em seus poleiros. Após aquele dia na fazenda ― correndo atrás da bezerrada, pegando laranja no pé e ralando o joelho no centésimo tombo da semana ―, tamanha era minha canseira que cheguei ao quarto e não deitei na cama. Desmaiei.

Acordei no meio da noite, na mais completa escuridão, com respingos de água morna em meu rosto. Fechei os olhos molhados, prendi a respiração, assustada, e fiquei alguns segundos quieta, tentando entender o que estava acontecendo, morrendo de medo de abrir um olho sequer. E a água voltou a respingar sobre mim, escorrendo sobre meus lábios. Um gosto amargo me aterrorizou. Não faço idéia de quanto tempo fiquei ali, sem mexer um músculo, paralisada de pavor. E a água continuava a cair, lentamente. Quanto mais eu pensava, mais medo sentia. Nada, nadinha de nada que eu conhecesse neste mundo podia explicar o que estava acontecendo. Era uma noite fria e aquela “água” era morna. Como era possível? Apurei os ouvidos e constatei que não chovia ― nem uma garoinha sequer. Não era goteira.

Aos poucos, com o corpo inerte e a mente acelerada ao máximo, exausta por respirar tão mal, uma única e aterrorizante verdade se apossava de mim: pendurado no teto de madeira, a pouca distância de meu rosto, um monstro imenso, com boca escancarada, deixava sua saliva morna escorrer. Meu estômago ficava embrulhado só de imaginar e meu corpo inteirinho começava a doer. Então tomei a decisão: ele pode me devorar, mas antes eu vou gritar... E gritei: “Paiiêêê!”.

No dia seguinte o cano de cobre do reservatório de água quente foi consertado. Por sorte, o fogão a lenha tinha sido pouco usado e a água da serpentina não se aquecera demais. Além disso, a noite fria ajudou a manter apenas morna a água da caixa. Por pouco “meu monstro” não expeliu uma saliva quente de pelar.

Mas as semanas seguintes foram tensas. Apesar da constatação da realidade, sem monstros visíveis, as noites ainda me perturbavam. Com o tempo, porém, fui me tornando cética. Passei a duvidar de qualquer ameaça estranha e comecei, desafiadoramente, a vasculhar a escuridão e as sombras até iluminá-las. Foi assim que aprendi a destruir os monstros que se atrevessem a aparecer.

Hoje me lembrei dessa história ao ficar sabendo que minha livraria predileta em Dourados ― CANTO DAS LETRAS ―, vai começar a oferecer “contação de histórias” em seu canto das letrinhas aos sábados. A primeira delas, baseada no livro “O domador de monstros”, de Ana Maria Machado, será apresentada pela Profa. Dra. Bruna Paes de Barros ― psicóloga que é mestre e doutora em Ciências da Saúde pela UNIFESP. Bruna, que se mudou da Pauliceia para Dourados em busca de melhor qualidade de vida, também conta histórias. E o faz prazerosamente, como hobby. Isso é bom demais!

Os monstros que se cuidem. Seus dias estão contados...


terça-feira, 15 de março de 2011

FOTO & HUMOR ― O favorito da mamãe


Foto do site Pixdaus

segunda-feira, 14 de março de 2011

CIÊNCIA: “As mulheres e o álcool”, por Drauzio Varella

FONTE DA IMAGEM: Programas Livres Net

O fim de semana foi uma delícia. Reencontro com velhos amigos, abraços, risadas, histórias e gargalhadas regadas a um bom vinho. E a semana começou com um peso descomunal, uma ressaca sem precedentes, como se a bebida, ingerida parcimoniosamente, tivesse sido sorvida aos galões. O que foi isso? Sem entender o despropósito entre a quantidade de álcool ingerida e meu estado lastimável, encontrei as respostas neste providencial artigo do médico Drauzio Varella:


“Quando eu era pequeno, botequins eram lugares muito frequentados, mas mal-afamados. Meu pai se orgulhava de jamais haver posto os pés num deles, proeza da qual o filho não pode se gabar.

Naquele tempo, o homem de verdade pedia uma pinga no balcão e tomava de um gole só, sem cara feia. A menos que, afeitas a gracejos, as mulheres mudavam de calçada para desviar dos bares. Os tempos felizmente são outros: elas entram onde bem entendem, não hesitam em dar o troco ao primeiro insolente e bebem o que lhes dá na cabeça.

Apesar do empenho feminino em busca da igualdade, por um capricho da natureza, o metabolismo do álcool nas mulheres não é, nem jamais será igual ao nosso. Se administrarmos para mulheres e homens a mesma dose, ajustada de acordo com os índices de massa corpórea, elas fatalmente apresentarão níveis sanguíneos mais elevados.

Nelas, a fragilidade aos efeitos embriagadores é justificada pela maior proporção de tecido gorduroso, por variações na absorção do álcool no decorrer do ciclo menstrual e porque a concentração gástrica da desidrogenase alcoólica (enzima essencial para a decomposição do álcool) é mais baixa do que nos homens.

Esses mecanismos explicam por que ficam embriagadas com doses mais baixas e progridem mais rapidamente para o alcoolismo crônico e seu cortejo de complicações.

O efeito de uma cerveja no corpo feminino equivale ao de duas tomadas por um homem de mesmo peso. Para os mesmos níveis de ingestão, o risco de cirrose nas mulheres é três vezes maior. As que tomam de 28 a 41 drinques por semana (1 drinque = 150 ml de vinho = 1 lata de cerveja = 45 ml de bebida destilada) apresentam risco de cirrose 16 vezes maior do que o dos homens abstêmios.

A avaliação dos questionários aplicados durante anos consecutivos em dezenas de milhares de mulheres acompanhadas no célebre “Nurses’ Health Study”, revelou que tomar 2 ou 3 drinques diários aumenta em 40% o risco de surgir hipertensão arterial, bem como o de derrame cerebral hemorrágico.

Uma análise de seis estudos (metanálise) demonstrou que as mulheres habituadas a ingerir de 2,5 a 5 drinques por dia, apresentam probabilidade 40% maior de desenvolver câncer de mama.

O uso continuado de álcool reduz a densidade da massa óssea em ambos os sexos, mas a probabilidade de provocar osteoporose é maior no feminino. Estudos demonstram que a maior parte das mulheres bebe como forma de livrar-se das angústias associadas aos quadros depressivos. A prevalência de depressão nas que abusam de álcool é de 30% a 40%. Talvez por essa razão, tentem o suicídio 4 vezes mais do que as abstêmias.

A bebida pode causar problemas ao feto. A ingestão de álcool durante a gestação eventualmente provoca distúrbios fetais que vão do retardo de desenvolvimento à chamada síndrome alcoólica fetal.

Não há nenhum estudo que assegure existir na gravidez uma quantidade de álcool segura. É imprevisível: bebês de mães que beberam a gestação inteira podem nascer normais, enquanto os de outras que o fizeram ocasionalmente podem apresentar malformações congênitas.

Na dúvida, recomenda-se que a gestante não beba; afinal, são apenas nove meses.

Alguns trabalhos sugerem, no entanto, que beber pouco e regularmente é menos grave para o feto do que beber muito de uma só vez: tomar um copo de vinho por dia, durante cinco dias, traz menos riscos do que tomar os cinco numa única ocasião. Ao contrário do que se pensava, os efeitos nocivos do álcool não se fazem sentir apenas no primeiro trimestre, período crucial para o desenvolvimento embrionário. Um estudo norte-americano mostrou que o abuso de bebida durante o segundo trimestre está associado à dificuldade dos filhos para aprender a ler e a escrever.

A complicação mais grave, porém, é a síndrome alcoólica fetal, distúrbio que pode surgir em 50% das gestantes que ingeriram álcool. O diagnóstico é baseado nos seguintes critérios: redução do tamanho do feto (abaixo de 10% do esperado), alterações faciais típicas e distúrbios neurológicos.

Você, leitora, que resistiu até aqui, não adianta ficar com ódio de mim. Caso não esteja grávida, a mulher pode beber, mas pouco, talvez um ou dois drinques por vez. Como a carne é frágil, entretanto, se você exagerar neste sábado, dê um tempo amanhã e depois e mais alguns dias. Contrariar a natureza é guerra perdida.”


__________


Bom senso e pouco vinho é só o que me resta!
Ainda é possível “exagerar” quando a companhia vale a pena e a alma não é pequena. Mas, ainda assim, a ressaca pode ser grande.

sábado, 12 de março de 2011

A medida do infinito

FONTE DA IMAGEM: site Microsoft Media Gallery

Tenho um amigo que é também escritor e, curiosamente, usa duas assinaturas. Uma delas — Felipe A.P.L. Costa —, mais antiga, é vinculada a textos científicos e frequenta a academia, desempenhando o papel, por vezes árduo e sempre rigoroso, de divulgar a ciência. A segunda assinatura — F. Ponce de León —, mais recente, se ocupa da poesia. É movida por um traço mais livre, com o propósito não menos árduo de difundir a criação poética e, quem sabe, estimular ao sonho de sair em busca da realização de desejos, tal como seu ancestral, o espanhol Juan Ponce de León, que no século XVI partiu ao Novo Mundo à procura da mítica “Fonte da Juventude”.

Meu amigo entrega-se à criatividade poética registrando-a no site www.poesiacontraaguerra.blogspot.com. O nome do blog — Poesia contra a guerra — é logo explicado: “A história da humanidade se confunde com a história das guerras. Deveríamos lutar para que se confundisse apenas com a história da literatura”. Assim, antevendo qualquer batalha, me sinto estimulada a “lutar” pela poesia.

Pródigo em sobrenomes, Felipe mantém a dualidade profissional como uma de suas facetas mais notáveis. De bem com a vida, utiliza sua capacidade de apreciar a beleza e de escrever sobre ela, deixando que a criatividade flua pelos dedos e fique registrada em sua página virtual.

Recentemente, o filho de uma amiga, estudando matemática, me perguntou o que era infinito. Fui salva pelo Felipe — mais exatamente por seu texto “Uma medida do infinito” (que tomei de empréstimo para o título desta crônica):

“No primeiro dia do ano, uma águia desce dos céus e sobrevoa o Himalaia.
Paira no ar e, a uns cem metros do cume, observa o alvo lá embaixo.
Por volta do meio-dia, bate as asas com força, produzindo uma corrente de ar.
O vento descendente sopra e afasta umas tantas partículas que cobrem o topo da rocha.
Chamamos de infinito o tempo que a águia levaria para desse modo desmontar toda a montanha.”

E assim, em palavras simples, o infinito foi por ele mensurado. Pensando em sua capacidade criativa, não tenho mais dúvidas: a fonte da juventude já foi encontrada, se não por seu ancestral, decerto por meu amigo Felipe, seu herdeiro. E a pista mais evidente sempre esteve à minha frente: a fonte está ao alcance de quem cultiva amigos que ajudam a sonhar. Amigos e poesia... É outra medida do infinito.

Adoro pensar e divagar. Sou capaz de passar horas e horas na companhia dos meus botões, matutando. Por vezes os pensamentos viram poesia. Mas nem sempre as palavras fazem uma boa tradução do pensamento, tão livre e ligeiro que escapa pelo canto dos olhos sem me dar tempo de transformá-lo em letras. Hoje fui mais rápida e peguei alguns desses pensamentos fugitivos pela ponta do dedão...

Sendo momentaneamente possuída por um clima de autoajuda, me arrisco a sugerir: se você tem vivido tal qual Ponce de León, em busca de fontes perdidas e sonhos distantes, não se esqueça de procurar por perto. A proximidade nos engana e a fantasia pode camuflar a realidade. Sempre se abrirá um caminho (nem sempre o racionalmente cogitado), para identificar sua fonte da juventude, da amizade e da liberdade para sonhar. Todas elas jorram, generosamente, em seu interior.


sexta-feira, 11 de março de 2011

Uma senhora poeta carioca

pisei em nuvens,
escorreguei pelo arco-íris,
banhei-me em raios de luar...
sorvi, gota a gota, a chuva que caía.

não pense
que vivo de magia,
apenas...
escrevo poesia!

Angela Maria Carrocino


[Angela é uma mulher, quase uma menina, além de poeta e carioca ― uma condição que por vezes é quase uma sinonímia]

quinta-feira, 10 de março de 2011

WEGA NERY (1912–2007), uma estrela sul-mato-grossense



Wega Nery, em 1986, fotografada por Leonardo Crescenti


Uma das obras de Wega: “Onde dormem as âncoras”,
óleo sobre tela de 1986

Esta corumbaense, filha de Leôncio Nery e Ottilia Gomes da Silva Nery, nasceu no dia 10 de março de 1912. E hoje, quando ela completaria 99 anos de idade, quero relembrá-la como ela foi (e seu nome declarava): Wega, uma estrela.

Seu pai, um campineiro que foi a Corumbá em 1907 para participar da equipe de engenheiros que estudava a implantação da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, acabou ficando por lá, encantado pela jovem Ottilia, filha do “Nheco” Gomes da Silva (o fundador da Nhecolândia) e de Maria das Mercês (da família Leite de Barros).

Com esses avós, e um pai apaixonado pela região, as raízes pantaneiras de Wega Nery cresceram profundas e sólidas, regadas pela mãe. Grande parte de sua infância transcorreu na Fazenda Campo Leda, no Pantanal. Ainda menina, foi enviada ao internato do Colégio Sion, em São Paulo. Lá também estudava piano, escrevia poesias e sonhava com as férias passadas em Corumbá e na fazenda.

Mas o contato de Wega com o Pantanal foi ficando cada vez mais raro. Sua família mudou-se em 1924 para Campinas e em 1933 para São Paulo. Em seguida, a então jovem professora Wega fez um curso de aperfeiçoamento pedagógico na Escola Caetano de Campos e foi nomeada Inspetora Federal de Ensino. Nos dois anos seguintes a essa nomeação, viajou incessantemente pelo interior paulista, inspecionando escolas da rede oficial.

Em 1938 casou-se em São Paulo com Fausto Gomes Pinto, funcionário do Banco do Brasil, seu professor de inglês. Em 1939 nasceu seu único filho, Sebastião Rubens “Tão” Gomes Pinto. Entre 1943 e 1945, por complicações cirúrgicas, Wega foi hospitalizada repetidas vezes: no total, doze meses de internações. Nesse tempo, retomou o hábito de desenhar — que já no Colégio Sion chamara a atenção das freiras — e começou a pintar suas primeiras telas a óleo.

A partir de 1946, incentivada pelo marido, Wega começou a frequentar o meio artístico paulistano e desistiu de ser pianista ou poetisa. Declarou anos depois que não sentiu falta da poesia; afinal, para ela “...a pintura tem muito de poesia e muito de música”. Matriculou-se então na Escola de Belas Artes de São Paulo, com 33 anos de idade, mostrando seus trabalhos pela primeira vez na 5.ª Exposição Coletiva da Associação Paulista de Belas Artes.

No início da carreira como artista plástica, Wega recebeu o apoio de críticos importantes, além do estímulo do marido (que veio a falecer em 1955). Depois que enviuvou, teve como companheiro o novelista e crítico do jornal O Estado de S. Paulo Geraldo Ferraz, que conheceu pessoalmente em 1963. Mas em 1979 Geraldo falece, e Wega perde seu mais ardoroso crítico.

Após concluir o curso da Escola de Belas Artes, estudou com Yoshiya Takaoka e participou do 15.° Salão Paulista de Belas Artes. Com um ano de formada, recebeu seu primeiro prêmio — a medalha de bronze do 56.° Salão Nacional de Belas Artes — e aderiu ao Grupo Guanabara. Esse grupo, que reunia cerca de vinte e cinco artistas plásticos (inclusive o próprio Takaoka), manteve-se ativo em São Paulo de 1950 a 1959, com uma produção marcada pela liberdade individual de estilo e de técnica.

Em 1953 Wega Nery participou de sua primeira Bienal e frequentou por cinco meses o Atelier Abstração, sob a orientação de Samson Flexor — pintor franco-romeno que ensinava a arte abstrata de princípios geométricos. Ela então aprofundou seus estudos e pesquisas sobre a abstração e começou a trabalhar regularmente com nanquim sobre papel. A partir de 1962 passou a dedicar-se ao abstracionismo lírico e informal, trabalhando principalmente com óleo sobre tela.

Considerada uma artista irrequieta e de temperamento vulcânico, segundo o crítico Leo Gilson Ribeiro, Wega justificava sua têmpera citando as raízes maternas, de mulheres indômitas que desbravavam o sertão, enfrentavam ásperas jornadas de sol e ventos gelados, enchentes e o desconforto primitivo do Pantanal, desprezando as fraquezas e vaidades da cidade grande.

Guilherme Gomes, jornalista (e neto de Wega Nery), teve o privilégio de visitá-la no Guarujá em seus últimos anos de vida e registrar cenas e testemunhos preciosos, como relatou em um artigo para a revista Cult, em maio de 2006:

“...convivendo com a natural debilidade decorrente da idade, Wega não pinta mais. Mesmo assim, seus olhos ainda brilham quando fala das tintas, cavaletes e terebintina. Com a lucidez de uma jovem e a experiência de uma vida, pontifica. ‘Enquanto espero o barqueiro para me levar a outras dimensões, quero deixar uma mensagem para os jovens. A juventude me fascina, é a melhor fase da vida. Acreditem e façam acontecer. Fico pensando nesse ideal comum e na inutilidade de múltiplas classificações da arte: expressionismo, abstracionismo, concretismo, neo-expressionismo, tantos ismos... E vanguarda, transvanguarda... Qual a duração de uma vanguarda? As vanguardas se renovam, não há necessidade de alarde’...”

Wega Nery produziu incessantemente, tornando-se uma referência nacional em artes plásticas na área do abstracionismo lírico, e sua obra recebeu (e tem recebido) elogios da crítica nacional e internacional.

Além do Brasil, onde participou de 12 Bienais e de aproximadamente 80 mostras em várias cidades, sua obra foi exposta na Argentina, Uruguai, México, Estados Unidos, França, Alemanha e Inglaterra — um mundo que teve a fortuna de receber parte da energia onírica que Wega Nery soube extrair de seu Éden (como ela chamou o Pantanal). Energia que parece ter orientado sua obra, que hoje, com certeza, é uma das mais premiadas — e reconhecidas — entre as dos pintores brasileiros representantes do abstracionismo lírico. Exatamente um dos tantos “ismos” de classificação da arte, inúteis na visão Wega. Afinal, para que uma estrela dessa grandeza necessitaria de rótulos?


quinta-feira, 3 de março de 2011

RIO — o filme — do diretor de “Era do Gelo”

Carlos Saldanha, o brasileiro que dirigiu Era do Gelo 2 e 3, em breve estará lançando no Brasil seu filme mais recente: RIO — um longa metragem de animação sobre a Cidade Maravilhosa que mostra as agruras de Blu, uma arara-azul de cativeiro que nunca aprendeu a voar e que foi criada no interior de Minnesota, nos Estados Unidos.

Já adulta, a nerd Blu, que é macho e acredita ser o único exemplar vivo de sua espécie (tecnicamente extinta), vem parar no Rio de Janeiro em pleno Carnaval para namorar e, quem sabe, fazer ararinhas com uma fêmea recém-descoberta: Jewel.

Com o lançamento previsto para o próximo mês de abril, Rio chegará em 3D nas telonas brasileiras. Aproveite e assista ao trailer que acabou de cair na rede:


terça-feira, 1 de março de 2011

Uma Vênus de 35... mil anos



Uma pequena escultura entalhada em marfim ― com 5,9 centímetros de altura e pesando 33 gramas ― é a mais recente descoberta arqueológica e, provavelmente, o mais antigo dentre todos os artefatos humanos esculpidos já encontrados. Com fartas e proeminentes mamas, quadril largo e ampla área genital, a figura feminina foi submetida a exames para datação que revelaram ter sido criada há 35 mil anos.

Encontrada pelo arqueólogo Nicholas Conard em uma área da caverna de Hohle Fels, na Alemanha, a “Vênus” (foto) veio revelar-se a nossos olhos modernos para polemizar a história das manifestações artísticas, conforme relata seu descobridor em um artigo publicado na revista científica Nature.

Uma curiosidade: a “Vênus de Hohle Fels” não possui cabeça. Em seu lugar encontra-se uma pequena cavidade arredondada. Tal característica, frisam os cientistas, é um forte indício de que a escultura era usada como adorno ― informação sobre a qual não resisto perguntar: adorno ou amuleto?

Um homem de 35 mil anos atrás provavelmente reverenciava, adorando e temendo, a mulher ― aquele ser estranho que sangrava todo mês e não morria por isso. Além do mais, quando menos se esperava, ela ficava enorme e depois dava à luz. Uma nova vida saindo por sua genitália devia ser algo bastante especial (e pensando bem, hoje, à medida que aumenta nossa distância à natureza, talvez pareça mais especial ainda!). Eu, se fosse um deles, carregaria pendurado no pescoço um pingente dessa entidade poderosa para que essa grande mãe me protegesse, em todas as paragens em que viesse a andar, a caçar, a dormir, a criar, a amar.

 

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