segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

[No dia 31 de outubro de 1902, em Itabira, Minas Gerais, nascia Drummond]


domingo, 30 de outubro de 2011

“A arte perdida da caligrafia”, por Umberto Eco

Recentemente, dois jornalistas italianos escreveram um artigo de jornal de três páginas (em letras de imprensa – ai de mim!) sobre o declínio da caligrafia. Agora já é fato conhecido: a maioria das crianças – devido aos computadores (quando elas os usam) e às mensagens de texto – não consegue mais escrever a mão, exceto em suadas letras maiúsculas.

Em uma entrevista, um professor disse que os alunos também cometem muitos erros de ortografia, o que me parece um problema em separado: médicos sabem escrever e, mesmo assim, suas escritas são sofríveis; e você pode ser um especialista em caligrafia, mas escrever “conserto”, e não “concerto”.

Eu conheço crianças cuja caligrafia é bastante boa. Mas o artigo fala em 50 por cento de italianinhos – e eu suponho que seja graças a um destino indulgente que eu frequente os outros 50 por cento (algo que me acontece também na arena política). A tragédia começou bem antes do computador e do telefone celular.

A caligrafia de meus pais era ligeiramente inclinada, porque eles posicionavam o papel em ângulo e suas letras eram, pelo menos para os padrões atuais, pequenas obras de arte.

Na época, alguns – provavelmente aqueles com letra feia – diziam que a caligrafia elegante era a arte dos tolos. É óbvio que caligrafia bonita não significa, necessariamente, inteligência refinada. Mas era prazeroso ler notas ou documentos escritos de maneira mais correta.

Minha geração foi treinada para ter boa caligrafia e nós passávamos os primeiros meses da escola primária aprendendo a traçar as letras. Posteriormente, o exercício foi tido como obtuso e repressivo, mas ele nos ensinou a manter o pulso firme ao usarmos a caneta para formar letras arredondadas e delicadamente desenhadas. Bem, nem sempre – porque as canetas-tinteiro, com as quais sujávamos carteiras, livros, cadernos, dedos e roupas, costumavam produzir uma borra desagradável que grudava na caneta e obrigava a dez minutos de lambança para limpar.

A crise começou com o advento da caneta esferográfica. As primeiras esferográficas também faziam sujeira – se, imediatamente após escrever, você passasse o dedo sobre as últimas palavras, era inevitável aparecer um borrão. E as pessoas já não tinham muito interesse em escrever bem, já que a caligrafia feita com uma esferográfica, mesmo que limpa, não tinha mais alma, estilo ou personalidade.

Por que deveríamos lamentar o passamento da boa caligrafia? A capacidade de escrever bem e velozmente em um teclado estimula o pensamento rápido e, com frequência (não sempre), o corretor ortográfico irá sublinhar um erro de grafia.

Embora o celular tenha ensinado a geração mais jovem a escrever “Kd vc?” no lugar de “Cadê você?”, não nos esqueçamos de que nossos antepassados ficariam chocados ao ver que escrevemos “farmácia” e não “pharmacia”, ou “xícara” em vez de “chicara”. Teólogos medievais escreviam “respondeo dicendum quod”, coisa que teria feito Cícero se revirar no túmulo.

A arte da caligrafia nos ensina a controlar nossas mãos e encoraja a coordenação mão-olho.

O artigo de três páginas apontava que a escrita a mão nos obriga a compor a frase mentalmente antes de escrevê-la. Graças à resistência da caneta e do papel, somos forçados a parar para pensar. Muitos escritores, embora acostumados a escrever no computador, algumas vezes até preferem imprimir letras em uma placa de argila, porque assim podem pensar com mais calma.

É verdade que as crianças escreverão cada vez mais em computadores e celulares. Apesar de tudo, a humanidade aprendeu a redescobrir muitas coisas que a civilização eliminara como desnecessárias, como nos esportes e prazeres estéticos.

As pessoas não viajam mais a cavalo, mas algumas fazem aulas de equitação; existem iates motorizados, mas muita gente é tão devotada à arte de velejar quanto os fenícios de três mil anos atrás; há túneis e ferrovias, mas muitos ainda apreciam caminhar a pé por passagens alpinas; há pessoas que colecionam selos na era do e-mail; e exércitos vão à guerra com rifles kalashnikovs, mas também organizamos pacíficos torneios de esgrima.

Seria bom se os pais enviassem os filhos a escolas de caligrafia, para que eles pudessem participar de competições e torneios – não só para adquirir base em algo que é belo, mas também para seu bem-estar psicomotor. Tais escolas já existem, basta procurar “escola de caligrafia” na internet. E, talvez para aqueles com mão firme e sem emprego estável, ensinar essa arte possa se tornar um bom negócio.
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FONTE DO TEXTO: New York Times Sindicate, clipado da Revista da Cultura, Artigo “A arte perdida da caligrafia”, assinado por Umberto Eco e traduzido por Marina Mariz.

FONTE DA IMAGEM: Microsoft Media Gallery

sábado, 29 de outubro de 2011

Quadrinhas Populares [Comentadas]



O cravo brigou com a rosa
debaixo de uma sacada. [Isso é europeu.]
O cravo saiu ferido
e a rosa despedaçada. [Isso é mediterrâneo.]

O cravo ficou doente;
a rosa foi visitar. [Isso é ibérico.]
O cravo teve um desmaio; [Isso é lusitano; jamais hispânico.]
a rosa pôs-se a chorar. [Isso não sei mapear.]

Palma, palma, palma; [Isso é brasileiro.]
pé, pé, pé-é. [Isso é indígena ou africano.]
Roda, roda, roda; [Isso é do corpo.]
Caranguejo peixe é. [Isso é bárbaro.]


[COMENTÁRIOS: Gerson Ferracini]
[IMAGEM: Escultura de Sandra Guinle. Ciranda mista, 2003]

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

“Concerto para Dois Pianos”: André Matos, seus alunos e convidados

Ele é pianista, regente produtor e professor de piano do “Escritório da Música”, em Dourados, MS. Em seus recém-celebrados 27 anos, André Matos trabalha apaixonadamente, com ênfase em arranjo, improvisação e harmonia.

Como se não bastasse, ele também atua como pianista e regente do coro da Igreja Presbiteriana do Brasil – a “igreja do relógio” de Dourados. E é justamente nela que André nos presenteia com seu cuidadosamente planejado e ensaiado Concerto para dois pianos.

Hoje à noite, sexta-feira, 28 de outubro, em Dourados: vá encher a alma de música ao vivo da melhor qualidade (e de graça). E experimente como é bom vivenciar novos repertórios. Vale a pena sair da mesmice.

Confira a programação:

·        Goodbye (Jan A. P. Kaczmarek)
Pianos: Vinícius Carvalho Peitl e André Matos
·        Sonata em Dó Maior (Mozart)
Pianos: Gabriela Markus e André Matos
·        Comptine D'un Autre Ete (YannTiersen)
Pianos: Vinícius Carvalho Peitl e André Matos
·        Majesty
Pianos: Abisael Alves Barbosa e André Matos
·        Camacua
Pianos: Raissa Barbosa e André Matos
·        Inventio13 BWV 784 (Bach)
Pianos: Gabriela Markus e André Matos
·        Prelúdio em Dó Maior (Bach)
Pianos: Ingrid Carvalho Peitl e André Matos
·        Pour Elise (Beethoven)
Pianos: Gabriela Markus e André Matos
·        Concerto para Piano nº 1 (André Matos)
Piano solo do compositor André Matos


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A descoberta e a fama póstuma de Vivian Maier (1926–2009): uma babá, fotógrafa amadora

Autorretrato de Vivian Maier. 1955.

As imagens clicadas por ela foram acidentalmente encontradas em um leilão por John Maloof, um empreendedor da eBay e agente imobiliário de 29 anos de idade. Tudo começou nesse dia, em 2007, quando ele adquiriu seu primeiro lote de negativos de Maier por 400 dólares. Os trinta mil negativos haviam permanecido trancafiados em um armário, como parte de um conteúdo retido para quitação de dívidas da fotógrafa. Mallof se interessou pelas imagens ao saber que mostravam cenas de Chicago. Na época ele estava trabalhando em uma história ilustrada sobre o bairro Portage Park para a série “Imagens da América”, da Arcadia.

John Mallof não encontrou nenhuma foto de Portage Park entre os negativos. Na verdade, ele não sabia exatamente o que havia encontrado. “Eu nem sabia o que era ‘fotografia de rua’ quando os comprei”, revelou ele recentemente em uma entrevista sobre Vivian Maier.

Hoje ela é famosa nos Estados Unidos por seus flagrantes de cenas de rua, registrados com um olhar de rara sensibilidade. Na grande maioria das fotos conhecidas atualmente, feitas em Chicago e Nova York de 1955 a 1970, Maier mostra as pessoas imersas na solidão e no burburinho das cidades, ao mesmo tempo em que as revela em condições vulneráveis, nobres, derrotadas, orgulhosas, ternas, frágeis e, muito comumente, engraçadas.

John Maloof é hoje o principal entusiasta da fotografia de Vivian Maier e atualmente está catalogando e digitalizando 100 mil negativos da fotógrafa. E ainda tem que revelar várias centenas de rolos em preto e branco e cerca de 600 rolos de filme colorido. De parte do material já selecionado, Maloof montou um site - http://www.vivianmaier.com/ - e editou um livro de 144 páginas que está para ser lançado, com um autorretrato de Vivian na capa: 


Outro grande acervo — incluindo 15 mil negativos, 70 filmes de cinema caseiros e numerosos slides — está na Coleção Jeffrey Goldstein e pode ser parcialmente apreciado no site Vivian Maier Prints: http://vivianmaierprints.com/

A foto de abertura desse site, belíssima, é esta:


Pouco se sabe sobre a vida de Vivian. Há indícios de que, depois de nascer em Nova York em 1926, viveu na França (sua mãe era francesa) e retornou a Nova York em 1951. Cinco anos mais tarde, mudou-se para Chicago, onde trabalhou por cerca de quarenta anos como babá, principalmente para famílias dos subúrbios. Nos dias de folga, perambulava pelas ruas de Nova York e Chicago, quase sempre com uma câmera reflex – uma Rolleiflex de duas lentes. Ao que consta, ela não mostrava suas fotos a ninguém. Ela própria não chegou a ver muitas dessas imagens, pois deixou centenas de rolos de filme sem revelá-los. Quase todos foram entregues como pagamento de dívidas de aluguel em sua velhice. Maier morreu pobre, muito pobre. No final da vida chegou a morar nas ruas, as mesmas por onde passeou, fotografando, em seus dias de folga como babá.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

“A internet não é meio de comunicação”, por Eugênio Bucci

O texto, claro e direto, lança um facho de luz sobre a internet, o que ela é e, principalmente, o que ela não é!

 

Receosa de que você não clicasse no link de acesso, copiei e colei o texto na íntegra. Seu autor, Eugênio Bucci, é advogado, jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Atuando como jornalista profissional, foi diretor de redação de várias revistas nacionais e colunista de O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e Veja. Presidiu a Radiobrás de 2003 a 2007. Tem vários livros publicados, dentre os quais eu destaco Em Brasília, 19 horas – a guerra entre a chapa-branca e o direito à informação no primeiro governo Lula (2008, Editora Record). Bucci continua atuando como jornalista e é professor da Escola de Comunicação e Artes da USP e da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

 

O texto abaixo foi clipado da Seção E-Notícias do Observatório da Imprensa, edição 665, de 25 de outubro de 2011:

http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_a_internet_nao_e_meio_de_comunicacao


INTERNET & DEMOCRACIA


A internet não é meio de comunicação


Por Eugênio Bucci em 25/10/2011 na edição 665

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 20/10/2011; intertítulos do OI


No início do mês (3/10) a Suprema Corte, nos Estados Unidos, decidiu que baixar uma música da internet não equivale a exibir essa mesma música em público. Portanto, ao copiar o arquivo de uma canção no seu computador, o consumidor não deve ser tratado como alguém que toca essa mesma canção para uma grande audiência, no rádio ou num show.

Ora, dirá o leitor, nada mais óbvio. Baixar uma faixa de CD é mais ou menos como copiar no gravador de casa uma canção que a gente sintoniza na FM. Trata-se de um ato doméstico, que não se confunde com executar uma obra musical para uma plateia de 5 mil espectadores. No entanto, até hoje, o pensamento oficial sobre a internet – em especial o pensamento das Cortes de Justiça – carrega uma tendência de equipará-la aos meios de comunicação de massa. Um erro grosseiro e desastroso. Além de obtusa, essa visão traz consequências perversas, como a que levou parlamentares brasileiros, há coisa de dois anos, a tentarem aprovar uma lei que impedia os cidadãos de manifestarem suas opiniões sobre as eleições em sites e blogs durante o período eleitoral, como se a rede mundial de computadores fosse da mesma família que as redes de televisão e de rádio, que funcionam sob concessão pública.

O furor censório dos parlamentares acabou não vingando, para alívio da nação, mas o conceito equivocado em que ele plantou seu alicerce continua aí. Por isso, a recente decisão da Suprema Corte, negando as pretensões econômicas e intimidatórias da American Society of Composers, Authors and Publishers (Ascap), interessa especialmente a nós, brasileiros. Ela constitui um argumento a mais para que expliquemos aos retardatários (autoritários) que nem tudo o que vai pela internet é comunicação de massa. Aliás, quase nada na internet é comunicação de massa. Para as relações políticas e jurídicas entre os seres humanos, essa distinção elementar faz uma diferença gigantesca.

Segundo grau de abstração

A internet não é televisão, não é rádio, não é jornal, nem revista, assim como não é correio ou telefone. Ela contém tudo isso ao mesmo tempo – mas contém muito mais que isso. Existem canais de TV e de rádio na internet, é bem verdade. Os jornais estão quase todos online, bem como as revistas, sem falar no correio eletrônico: as pessoas trocam mensagens, como trocavam cartas. O Skype e outros programas vieram para baratear e melhorar os velhos telefonemas, com a vantagem de mostrar aos interlocutores a cara um do outro. Logo, dirá a autoridade pública, a rede mundial de computadores internet é uma Torre de Babel em que todos os meios de comunicação se encontram e se confundem, certo?

Errado. A humanidade comunica-se pela internet – só no Brasil, já são quase 80 milhões de usuários –, mas isso não significa que ela seja, como gostam de dizer, uma “mídia” que promove a convergência de todas as outras “mídias”. Ela é capaz de fornecer ferramentas para que um conteúdo atinja grandes audiências de um só golpe, ao vivo, assim como permite que duas pessoas falem entre si, reservadamente. Acima disso, porém, ela abre outras portas, muitas outras. Pensá-la simplesmente pelo paradigma da comunicação é estreitá-la, amofiná-la – e, principalmente, ameaçar a liberdade que ela encerra.

A internet também é comércio: os consumidores fazem compras virtualmente – mas isso não nos autoriza a dizer que ela possa ser regulada como se fosse um shopping center. Vendem-se passagens aéreas e pacotes turísticos pela rede, mas ela não cabe na definição de agência de viagens. Correntistas acessam suas contas bancárias e pagam contas sem sair de casa, mas a internet não é banco e, embora quitemos nossos impostos pelo computador, ninguém há de afirmar que a web é uma extensão da Receita Federal. Ela é tão ampla como são amplas as atividades humanas: aceita declarações de amor, assim como aceita lances ousados da especulação imobiliária. Nela, a vida social alcança plenamente outro nível, que não é físico, mas é real, tão real que afeta diretamente o mundo físico, sendo capaz de transformá-lo. Mais que meio de comunicação, a internet é, antes, a sociedade num segundo grau de abstração. Se quiserem comparações, ela tem mais semelhança com a rede de energia elétrica do que com um aparelho de TV ou com o alto-falante na praça do coreto.

Decisão bem-vinda

Para efeitos da regulamentação e da regulação, a internet não cabe num regime. Ela é capaz de abrigar tantos regimes quanto a própria vida em sociedade – e, assim como a vida em sociedade, é maior que o direito positivo. Ela, sim, pode conter e processar decisões judiciais e trâmites processuais, mas estes não podem contê-la, explicá-la ou discipliná-la por inteiro. Pretender controlá-la, taxá-la, pretender instalar pedágios em cada nó seria equivalente a começarmos a cobrar direitos autorais de quem empresta um livro de papel à namorada, ou, pior ainda, seria como sujeitar as conversas de botequim à legislação do horário eleitoral na televisão e no rádio.

A rede de computadores trouxe uma expansão sem precedentes a uma categoria que, nos estudos de sociologia e de comunicação, ganhou o nome de “mundo da vida”. Trata-se de um conceito contíguo a outro, mais conhecido, o de “esfera pública”. Nesta se encontram os temas de interesse geral dos cidadãos. No “mundo da vida” moram as práticas sociais mais arraigadas, a rotina mais prosaica, os nossos modos de amar, de velar os mortos ou, se quiserem, de conversar no botequim. Não por acaso, daí, desse mundo da vida, é que brota a esfera pública democrática; a própria imprensa nasceu dos saraus e das tabernas, quando aí se começou a criticar o poder.

Por isso, enfim, as formas de livre expressão na internet precisam estar a salvo do poder do Estado e da voracidade dos grupos econômicos. Por isso a decisão da Suprema Corte é bem-vinda.

***

[Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e da ESPM]



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

27.ª UNIARTE – um festival douradense

Um evento cultural em Dourados, Mato Grosso do Sul, em sua vigésima sétima edição. Não é fácil, não! É necessário muito esforço, dedicação e perseverança. Aplausos aos organizadores!   

A abertura da UNIARTE é hoje, segunda-feira, dia 24, a partir das 19h30min no salão de eventos da UNIGRAN.  

Confira a programação para escolher o que mais lhe agradar:


domingo, 23 de outubro de 2011

Flores simples, flores ímpares

A primavera me provoca um certo tipo de vertigem, como se me deixasse inebriada com aromas e pólen. Ela inspira os poetas a escrever sobre flores: dúzias e dúzias de páginas, livros aos ramalhetes. Aos apaixonados, para que presenteiem com flores: rosas em botão com um cartão perfumado, amores-agarradinhos, amores-em-penca. E aos músicos, para comporem com flores, por vezes com letras melodramáticas: “Meu primeiro amor foi como uma flor que desabrochou e logo morreu”; por vezes derretidas e rebuscadas: “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa do amor... formada com o ardor da alma da mais linda flor, de mais ativo olor, que na vida é a preferida pelo beija-flor”. São flores. Flores aos borbotões. Cachos de flores: “Fonte de mel, nos olhos de gueixa... Choque entre o azul e o cacho de acácias, luz das acácias, você é mãe do sol. Linda.”

Poetas, romancistas, escritores, cantores, compositores, profissionais ou amadores, apaixonados, moldam suas musas e seus amores às flores. Como se existisse uma imagem imutável, um inconsciente coletivo que permeasse qualquer pensamento e ação em uma associação obrigatória entre flores e a mulher amada. Ambas femininas. Ambas inseparáveis.

Tal associação é secular e evoluiu através do tempo. Mulheres e flores se conhecem há milênios, são cúmplices e guardiãs de segredos imemoráveis. Compartilham a química da geração da vida. Ambas desabrocham e exalam néctar. Ambas fertilizam seus óvulos e frutificam.

Na caverna ancestral, no começo dos tempos, uma mulher faminta mastigou flores. Entorpecida, notou que a perna ferida não doía mais. E o conhecimento empírico frutificou. A mulher buscou mais ervas, flores e botões. Separou, triturou, manipulou, desvendando os segredos da natureza. Aprendeu sobre o tempo de colher, o tempo de plantar, o tempo de curar. Suas curas geraram mais conhecimento. E as sacerdotisas pagãs floresceram e frutificaram. Magias. Rituais. Flores de mandrágora, poções e poder.

E esse poder as levou da exaltação dos altares pagãos às fogueiras da Inquisição. A estupidez da ignorância ceifa a vida daquilo que não compreende, daquilo que não domina, daquilo que não professa a mesma fé. Mulheres simples que conheciam o poder de algumas ervas e flores dos quintais. Mulheres tristes que, adoentadas, eram tratadas como possuídas por forças malignas. Era mais fácil romper o elo mais fraco da corrente: queimar aquele ser estranho que sangrava todo mês e nem assim morria. Soturnos tempos. Mulheres e flores murcharam. Esconderam-se. Foram longos e tristes séculos com emplastos, chás e poções clandestinas – e marcas profundas na alma feminina, de sacerdotisa a bruxa.

Mas chegamos ao século XXI. A bruxa chutou o caldeirão e a sacerdotisa desceu do altar. Adoro a evolução! Podemos escolher: passear de dona de casa, madame, bruxa, fada ou sacerdotisa, a nosso bel-prazer. Podemos exalar néctar livremente; quem não goste, que saia de perto. Podemos prender um cacho de acácias nos cabelos ou vestir um longo cor-de-rosa. É nosso direito. É nosso deleite. É nosso vexame.

As flores fazem parte de nosso ambiente natural e voltamos a conviver com elas harmoniosamente, sem medo das fogueiras. A convivência vai além das poções, chás e unguentos. O cultivo das flores é prazeroso. Vicejamos com e como elas. E bem cuidadas, regadas com carinho, podadas quando necessário, adubadas com a energia da família e dos amigos, florescemos por anos afora, belas e plenas como flores simples, flores ímpares.

sábado, 22 de outubro de 2011

E o mundo não acabou...

Harold Camping, o pregador evangélico da Califórnia, vencedor do Prêmio Ig Nobel de Matemática de 2011, errou novamente nos cálculos sobre a data do apocalipse.

Saiba mais sobre o Ig Nobel clicando AQUI.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

COMUNICAÇÃO É TUDO… O mundo vai acabar amanhã!


É exatamente isso que você leu: O mundo vai acabar no dia 21 de outubro de 2011, sexta-feira. Quem afirma é Harold Camping (foto), um pregador evangélico da Califórnia, vencedor do Prêmio Ig Nobel de Matemática de 2011.

O pregador havia divulgado anteriormente que o apocalipse ocorreria em 6 de setembro de 1994. Recentemente recalculou a data e a divulgou como sendo 21 de maio passado. Ao perceber novamente que o mundo não acabou, Camping refez seus cálculos pela terceira vez e confessou, na última semana, que cometeu um equívoco: o “Dia do Juízo Final” será, com certeza, na próxima sexta-feira.

Isso sim é que são cálculos! Pelos dois enganos anteriores, Harold Camping chegou a ser mundialmente conhecido entre os cientistas esse ano, ao ser agraciado com o Ig Nobel de Matemática (uma honraria que foi compartilhada com outras seis pessoas). O prêmio, segundo seus organizadores, foi merecido pelos sete (cavaleiros do Apocalipse?) “por terem ensinado ao mundo como ser cuidadoso quando se fazem cálculos e suposições matemáticas”. (Saiba mais sobre o Ig Nobel clicando AQUI.)

Quem sabe ele não acerta desta vez? Se tudo correr bem (ou seja, se Harold Camping errar novamente), nos reencontramos no sábado, dia 22!


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Entendendo o cérebro... com um derrame!

Jill Bolte Taylor teve uma oportunidade de pesquisa que poucos neurocientistas desejariam: ela, uma doutora e pesquisadora de neuroanatomia, ao sofrer um grave derrame, coloca-se como observadora de suas funções de movimento, fala e autoconsciência, que, uma a uma, vão entrando em falência. Uma história incrível e um relato muito claro de como os dois hemisférios de nosso cérebro funcionam.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Maria Antonia Oliveira: “Compensação”

Na falta de um animal de estimação
Eu costumava sair para passear com meu coração à mostra
amarrado num fino fio de sensatez
só para fazer graça pros outros.

Um dia, enquanto fui apanhar umas laranjas,
deixei-o preso numa cerca
Daí me chamaram pra brincar de pique
Fui, mais tarde choveu
fez sol de novo
choveu
o coração apodreceu esquecido.

Quando me lembrei dele, já não servia pra nada.
Agora ando pela vida sentindo um vazio por dentro
sendo que quando chove entra água no espaço desocupado
formando um laginho
Bom pra alma lavar os pés quando chego cansada das lutas.


FONTE: Maria Antonia Oliveira – 1997 – “Terra de Formigueiro – Poemas” – Editora Papirus.

sábado, 15 de outubro de 2011

Os professores e Cora Coralina

"Feliz é aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina"
Cora Coralina

[clipei texto e imagem do material de uma das minhas livrarias prediletas: CANTO DAS LETRAS, de Dourados, MS]


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

COMUNICAÇÃO É TUDO... A sonda espacial e o “cartão de visita” do planeta Terra


Quando comecei a coletar informações para uma série de posts sobre o tema “COMUNICAÇÃO É TUDO...”, queria alguma coisa especial para o primeiro. Foi quando me lembrei da imagem acima, um “cartão de visita” dos habitantes do planeta Terra para civilizações alienígenas inteligentes. Uma imagem perfeita para minha proposta. Até então não sabia que um de seus idealizadores havia sido Carl Sagan. Hoje está tudo esclarecido para mim: a sonda espacial Pioneer 10 foi portadora da obra de um dos últimos cientistas românticos. Acredito até que, logo após planejar o aceno da figura masculina, ele se conteve para não colocar uma rosa na mão da mulher. (A propósito, Carl Sagan, um dos mais importantes divulgadores da ciência no século XX, também foi um pioneiro no estudo da exobiologia ― ciência que estuda como os ambientes extraterrestres podem afetar organismos vivos e também as possibilidades de existência de vida extraterrena.)

Conheça a história desse “nosso cartão de visita”:

No dia 2 de março de 1972 a NASA lançou uma de suas sondas da Missão Pioneer, a Pioneer 10, primeira espaçonave não-tripulada a atravessar o cinturão de asteróides e também a primeira a fazer observações diretas e obter imagens de Júpiter (quase em close). Eram os tempos das façanhas espaciais pioneiras.

Mas a Pioneer 10 fez muito mais do que qualquer outra missão enviada ao sistema solar: ela carregou consigo, firmemente afixada às hastes de sustentação de sua antena, uma pequena placa com um “mapinha”: um cartão com endereço. O cartão continha desenhos da localização do planeta Terra, incluindo imagens de corpo inteiro de seus habitantes, com dicas sobre nosso estágio de desenvolvimento científico.

A placa, de 15 por 23 cm, confeccionada em alumínio anodizado a ouro, tinha inicialmente a mera função de proteger a antena da erosão causada por poeira estelar. Sua posição estratégica merecia, porém, mais que um simples logotipo da NASA. Foi quando os astrônomos Carl Sagan e Frank Drake entraram em cena, criando o conteúdo informativo em que se destacam um homem e uma mulher em frente a um contorno esquemático da espaçonave. Tudo foi planejado detalhadamente. O homem traz a mão levantada, num gesto de boa vontade. A conformação física do homem e da mulher foi determinada por análise computadorizada de dados de uma pessoa média de nossa civilização.

Segundo a NASA, “a chave para interpretação da placa consiste em entender a composição do elemento mais comum do universo – o hidrogênio. Esse elemento está esquematizado no canto superior esquerdo, mostrando a transição hiperfina do hidrogênio atômico neutro. Quem quer que provenha de uma civilização cientificamente educada que disponha de conhecimento suficiente sobre o hidrogênio conseguiria interpretar a mensagem”.

Para ajudar os extraterrestres a nos localizarem, a placa mostra a posição do Sol com relação a 14 pulsares e ao centro da galáxia. O desenho inferior representa o Sol e os planetas do sistema solar e suas distâncias binárias relativas. Note que uma seta indica a trajetória da sonda, mostrando que ela foi lançada do terceiro planeta (ou seja, da Terra).

De 2 de março de 1972 até hoje... O que terá acontecido com a Pioneer 10? Ainda estará viajando pelo espaço com nosso cartãozinho pendurado? Seu último sinal, muito fraco, foi recebido pela Deep Space Network da NASA em 23 de janeiro de 2003, quase 31 anos após seu lançamento.

A fonte de energia de radioisótopos da Pioneer 10 sofreu decaimento radioativo e pode não ter força suficiente para enviar novas transmissões à Terra, informam os engenheiros da NASA. Houve ainda uma tentativa final para localizar seu sinal, em março de 2006, mas não se conseguiu detectar nenhuma resposta da espaçonave. Enquanto isso, a Pioneer 10 segue à deriva pelo imenso oceano cósmico, tal qual uma garrafa lançada por um náufrago.
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Para acessar a imagem da placa no site da NASA e ampliá-la (muito interessante para visualizar detalhes do “cartão de visita”), clique AQUI.

Para saber mais sobre a Missão PIONEER:

FONTE DA IMAGEM: Site da NASA – Reprodução da placa, com desenhos gravados que representam o sistema solar e a raça humana, que foi afixada à sonda Pioneer 10, lançada em 1972.

FONTE DAS INFORMAÇÕES TÉCNICAS SOBRE A PLACA “NOSSO CARTÃO DE VISITA”: Site da NASA - http://www.nasa.gov/


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Um parceiro que ajuda a emagrecer (com bom humor)

A cada ano, as revistas anunciam uma nova dieta da moda.

E todas as vezes, a mesma conclusão: ela não funciona. Para perder peso de forma eficaz e permanente, não há milagre. É preciso adotar uma dieta equilibrada, beber água e fazer exercício físico regularmente.

Quer desistir? É aí que entra em cena seu novo parceiro emagrecedor. Perder peso sem fazer força, de maneira agradável e divertida, é algo possível. Assista, e veja como:

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Brian Dettmer, um escultor de livros


FONTE DAS IMAGENS: Brian Dettmer – site Flickr – Escultura “New Books of Knowledge” (“Novos Livros do Conhecimento”), 2009, fotografada em dois ângulos diferentes.

Brian Dettmer, um artista plástico americano de 38 anos, coleciona livros abandonados – dicionários, atlas e enciclopédias que alguém descartou – e os transforma em esculturas surreais. Sua técnica, por ele denominada “autópsia”, foi desenvolvida ao “dissecar” cada livro, efetuando cortes cuidadosos de camadas e camadas, com uma reorganização de trechos e recortes.

Observe os rearranjos e os detalhes coloridos das páginas, que chegam a formar labirintos visuais. É impressionante a criatividade dos cortes e colagens, bem como a evolução do trabalho do artista de 2009 para 2011:


FONTE DAS IMAGENS: Brian Dettmer – site Flickr – Escultura “Lands and Peoples” (“Terras e Povos”), 2011, em visão geral e em um detalhe.

Veja outras de suas obras na “Galeria de Brian Dettmer”, no Flickr:

domingo, 9 de outubro de 2011

Escher e um cardume magnífico

FONTE DA IMAGEM: Revista National Geographic – Foto de Sandra Critelli, especializada em imagens da vida selvagem.


“O artista gráfico holandês M.C. Escher poderia ter desenhado esta cena”, comentou Jennifer Holland, na National Geographic. Pois aí está a cena: a imagem de um fantástico cardume de raias em migração da Península de Yucatán para as baías costeiras do Golfo do México, em busca de águas tépidas e alimento. Segundo a ecologista marinha Julie Neer, “esses animais (raias-nariz-de-vaca) têm somente um filhote por ninhada e uma ninhada por ano”, o que torna um cardume de milhares um feito notável.

Agora observe um desenho de M.C. Escher (1898–1972). Nem sei mais qual é a redação original do ditado popular: “A vida imita a arte” ou “A arte imita a vida”. E, quer saber? Tanto faz!


FONTE DA IMAGEM: http://www.mcescher.com/


sábado, 8 de outubro de 2011

Uma homenagem “cerebral”

Ode ao Cérebro” é o nono episódio da série musical Sinfonia da Ciência, de John Boswell, onde a “letra” da canção digital é feita com trechos de falas dos cientistas Carl Sagan, Robert Winston, Vilayanur Ramachandran, Jill Bolte Taylor, Bill Nye e Oliver Sacks.


O cérebro é um lugar muito grande
num espaço muito pequeno

Carl Sagan



Basta de crueldade com os animais!




sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nobel da Paz 2011 vai para três mulheres

Três mulheres dividirão o Prêmio Nobel da Paz deste ano, anunciado nesta sexta-feira em Oslo: a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, a ativista Leymah Gbowee, também liberiana, e a jornalista e ativista iemenita Tawakkul Karman.


Ellen Johnson-Sirleaf, a primeira mulher eleita presidente na África, foi premiada por sua atuação voltada a mobilizar as mulheres liberianas contra a guerra civil no país


Tawakkul Karman vem participando ativamente dos protestos
pró-democracia no Iêmen


Leymah Gbowee é reconhecida pela mobilização das mulheres liberianas contra a guerra civil em sua nação


FONTE DO TEXTO E DAS IMAGENS: BBC-Brasil

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs - 1955-2011


Qualquer pessoa que tenha (ou venha a ter) contato com computadores, por mínimo que seja, deve saber quem foi Steve Jobs.


FONTE DA IMAGEM: Apple – Tributo a Steve Jobs


 

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