sábado, 26 de maio de 2012

Como substituir um amor?


Ela trabalhava mecanicamente, rígida como um autômato, alheia a vozes e ruídos. Em um cenário predominantemente feminino, deveria ser apenas mais uma mulher, mas havia alguma coisa estranha... E logo percebi: entre o som dos secadores, as conversas desencontradas, risadas e barulho dos esguichos nos lavatórios, havia um gemido profundo, um choro cortado, rasgado, preso em sua garganta. Por vezes, este rompia os limites da resistência daquela mulher e explodia, congestionando seu olhar. Ela, visivelmente envergonhada pelo choro convulsivo, tentava controlá-lo, em vão. Por mais que o fizesse, mais forte ele ficava. Até que, por entre escovas e cabelos, a cliente que ela atendia, minha amiga de infância, falou, toda cheia de razão:

― Esquece, minha querida! Logo, logo você coloca outro no lugar dele. Ninguém é insubstituível!

Foi a gota d’água. Não sobrou nem um resquício de controle. Uma sombra correu para o banheiro e, pela primeira vez em um salão de cabeleireiros, fez-se silêncio.

Impressionada com o tamanho da dor, que agora se revelara de amor, comecei o natural ritual de “o que aconteceu com ela?”. O óbvio: perdera seu amor recentemente.

Fiquei chocada, muito mais do que eu mesma imaginaria. Como é possível que um amor possa ser substituído? E assustei todo mundo com um sonoro “nunca!”. Fora de contexto, no meio dos fios dos secadores e entre pincéis de tinturas, uma chapinha soltou fumaça e, pela segunda vez em minha vida, assisti uma cena de profundo silêncio em um cabeleireiro. “Nunca!”, repeti, estimulada pela atenção temporária. E continuei, inflamada:

― Ninguém é insubstituível? Como assim? Isso funciona para funcionário público, faxineira, motoboy... Essa mulher perdeu o amor de sua vida e você quer animá-la falando em substituição?

Obviamente, minha amiga me conhecia muito bem e suportou meu estardalhaço com uma risada. “Quer me matar de susto, Maria Eugênia? Fala sério!”. E continuamos, “falando sério” sobre nossos amores, perdas e ganhos, por muito tempo.

De alguma forma, alguns salões de beleza funcionam como áreas livres em que se lavam cabelos e algumas sujeiras mais. Eu amo meu salão, onde somente os cabelos são lavados e a roupa suja volta pra casa de quem a levou. Não há contaminação. Nenhum detalhe foi dado, e tampouco perguntado, sobre a perda “daquele” grande amor. E, consternadas, colocamos afeto nas feridas amorosas da cabeleireira. Na saída, sem cabelos brancos, dei-lhe um beijo e gostei de ver seus olhos não mais tão vermelhos. Mas estraguei tudo. Caí na asneira de lhe falar, bem baixinho: “Eu acho que nenhum amor tem substituto. Cada um é único. No máximo a gente consegue ter outro amor, novo. Que será único também.” Pra que eu fui fazer isso...

Passei dois dias depois para pagar a conta (agora comecei a esquecer algumas coisas...). E lá estava ela, fazendo uma escova, com os olhos muito inchados. Quase fiquei com inveja.

FONTE DA IMAGEM: Foto de Lolita Azambuja.




 

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