Por
estes dias, andei pensando muito em tradutores. Conheço
alguns, pessoalmente, mas não muitos. Eu mesma sinto um prazer incontido quando
me arvoro na tradução de alguma coisa. Mas o sentido que me vem (o sentimento,
talvez) é o de estar fazendo algo muito bom pelo meu próximo. Se a Babel era
uma espécie de punição, a tradução é a própria transgressão.
Dificilmente
seremos poliglotas, democratica e popularmente, poliglotas. Que me perdoem os
professores de língua inglesa, mais ainda os que dedicam suas vidas à pesquisa
sobre o assunto, mas muito provavelmente seremos sempre um povo de uma língua
só, no máximo transeuntes de um segundo idioma meio frouxo. Talvez sejamos
sempre excluídos de um universo de falares variados, dando aos poucos que
circulam por ali o título imponente de "privilegiados". Mas não estou
me lamentando.
Na
casa dos meus pais, uns anos atrás, diziam para nós que não precisávamos
aprender inglês. Vive-se bem a vidinha nos arredores sem saber outra língua.
Que nada, dinheiro gasto à toa. Contente-se com seu português, invista em
usá-lo bem e estará feita. De certa forma, concordo com isso, ao menos na parte
do português bem-aprendido. Já nas questões alienígenas, sei não. Bem que me
faz falta um inglezinho mais bem-arranjado, um espanhol mais respeitável e um
francezinho de vez em
quando. E bem que tentei.
Para
certas coisas, é preciso ter apoio, inclusive moral, quando não o financeiro.
Os cursos de inglês que eu conhecia duravam mais de década e ainda deixavam
muita gente só no "the book is on the table". Essa deve ser a
expressão mais jocosa e mais famosa das piadas nacionais sobre o ensino de
língua estrangeira.
Meus
pais, que estudaram em disputadas escolas públicas, nos idos de 1950-60,
aprenderam, e pra valer, inglês e francês, sem falar nas noções de música,
hein. Eu cá, também numa escola pública, tive um inglês de boteco, um aninho
raso de francês e algum período de música numa sala com piano. O que ficou?,
talvez o leitor indague, quase nada, digo eu. Ou estarei sendo injusta?
Eu
sei dizer que me chamo Ana, em
francês. Bom , isso já alivia uma parte da conversa, caso eu a
tenha. Fui fazer francês na faculdade e aprendi a ler. E li. Tudo numa tacada
rápida, de curso instrumental. Mas outro dia tentei ouvir uma palestra na
língua de Roger Chartier e já não deu. No espanhol não acontece coisa tão grave
porque é língua muito mais hermana. No inglês, tenho a sorte de ter sido fã,
muito fã, de rock.
Foi
nesse amor vivido pelo rock'n'roll que descobri a tradução. A curiosidade de
saber o que estava ouvindo e cantando me movia a traduzir aquelas letras, em
geral horrorosas, para a minha língua, que tornava as frases bem maiores.
Traduzir na raça, na mão, como não se faz hoje, com tanto translator à
disposição. Traduzir com dicionário de bolso, tentando encaixar os sentidos
meio na marra, vertendo ao português o que nem sempre tinha explicação.
Vez
ou outra, me aventuro a traduzir um texto inteiro, dos grandes, para ajudar
meus alunos. Mesmo na pós-graduação, eles chegam mais crus do que eu na leitura
de textos originais que serão importantes para sua formação. Não sei se fazendo
um desserviço ou não, traduzo o texto para abrir-lhes o acesso, num sentimento
forte de que "não posso ficar com isso só para mim". É nesse sentido
que acho que os tradutores (especialmente os profissionais, o que não é meu
caso, claro) são anjos cheios de vozes, tagarelas abençoados que nos ajudam, os
tartamudos, a entrar pela senda dos textos e dos conhecimentos sem tantos
tropeços.
Não
contra-argumentem, por favor, dizendo que eu deveria incentivar as pessoas a
aprender outra língua. É claro que incentivo. Não foram poucos os estudantes
que correram ao Centro de Extensão ou a uma escola conveniada para lustrar seu
parco inglês de colégio ou mesmo para iniciar a caminhada pelas línguas
estrangeiras. É razoável a lista de estudantes que foram fazer alemão, diante da
possibilidade do intercâmbio institucional. E aprendem, sofregamente, a falar
aquela língua que não ouvimos nas rádios e nem temos o hábito de assistir pela
TV. Mas enquanto não nos tornamos todos poliglotas, vou prestando meu serviço
de outro lado, compartilhando com outros leitores o que acessei na língua
vizinha ou na outra, bem distante.
Passeando
em Porto Alegre ,
ouvi as pessoas contando da Argentina e falando palavras espanholadas. Atinei
para uma questão tão importante quanto verdadeira: sou mineira, não faço
fronteira com outro país, meus limites são todos em português, meus sotaques,
meus falares. Por razões geográficas, políticas, históricas e, claro,
educacionais, tenho comigo que não é coisa do dia a dia ter de participar de
mais de um universo. Minhas lacunas em relação a isso são resultado da falta de
investimento, claro, mas também de não saber que, um dia, me tornaria uma
viajante, transitando por lugares onde meu português não ecoa (principalmente o
português). Um improviso que me custa, às vezes, o desentendimento, a mudez e a
interrupção. No entanto, continuo fazendo a apologia do tradutor, esse falante
múltiplo, capaz de tapar com um tapete macio um chão que me pareceria de
espinhos.
A
tradução deveria fazer parte de políticas de acesso, assim como as outras: a
arquitetura, a usabilidade, o jornalismo científico. E é claro que me refiro à
boa tradução, capaz de reduzir a opacidade de um texto estrangeiro. Porque a má
tradução, ah, esta!, o diabo que a carregue.
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[Texto clipado do
Digestivo Cultural - http://www.digestivocultural.com/]