quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Escultura animal... em tamanho natural


Seu jardim está sem graça, meio vazio, com umas parcas plantinhas? Cogitando em instalar algum acessório que traga vida a seu pequeno horto doméstico? Pois saiba que seus problemas acabaram, assim como a era dos anõezinhos de jardim! Descobri onde comprar essa belezinha da foto — uma réplica do maior mamífero terrestre que já existiu. Trata-se do Indricotherium transouralicum, que viveu na Mongólia, no período Oligoceno, há 30 milhões de anos.

A réplica, feita com fibra de vidro e olhos artificiais, é de fácil montagem. Cada etapa da fabricação, desde os desenhos anatômicos até a finalização, é documentada e supervisionada por paleontólogos. É o que garantem os fabricantes. Em tamanho natural (8 metros de altura), o simpático mamífero está hoje em promoção, podendo ser adquirido por parcos 49 mil euros!

Essa e outras pechinchas imperdíveis podem ser encontradas no site
http://www.dinocasts.com/default.asp

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

“Amor e outros bichos”, por Terry Tom Brown

Com o subtítulo “Um primata dá uma aula cabeluda sobre intimidade”, o artigo de Terry Tom Brown – publicado no jornal britânico The Guardian (www.guardian.co.uk), me reavivou a memória sobre as aulas de comportamento animal, quando em muitas ocasiões a teoria era mesclada com divertidas comparações entre nós e outros bichos.

Não resisti. Providenciei uma versão em português e decidi compartilhar o bem-humorado artigo com duas intromissões que, por uma questão de clareza, e respeito ao texto original, mantive entre colchetes: [ ]. E vale esclarecer que tais intromissões foram feitas muito mais por diversão e vontade de “participar” de um texto que eu mesma gostaria de ter escrito, do que por qualquer desacordo com o autor. Obrigada Terry! E obrigada ao Peter Moon pela dica.

Uma fêmea de mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia rosalia) com seu filhote. Foto: Alamy / www.guardian.co.uk

Um primata dá uma aula cabeluda sobre intimidade

Tal como entre nós, a higiene tem papel importante em outros setores do reino animal. O asseio animal pode consistir em vasculhar a pelagem, escarafunchar as penas ou inspecionar as escamas. Quando os micos-leões-dourados não estão a balançar-se por entre as árvores da América do Sul, mantêm-se ocupados asseando-se uns aos outros. [Tal asseio é habitualmente chamado de “catação” e adoro interpretá-lo como um “cafuné mútuo” quando realizado por dois adultos saudáveis do bicho-gente.] Nesses macacos, isso melhora a higiene da tribo e fortalece as relações entre possíveis parceiros. Os seres humanos respondem de forma muito diferente quando tais atividades são realizadas neles, e não por eles.

Quando o relacionamento é sério, qualquer imperfeiçãozinha salta aos olhos. Talvez seu par não consiga deixar de lhe ajeitar o cabelo, de lhe tirar fiapinhos da roupa ou de aparar-lhe as unhas, ou quem sabe lhe peça para usar uma fragrância diferente. Você poderia se perguntar: como minha cara metade ousa macular a visão idealista que outrora teve de mim? Todos conhecemos ao menos um casal que arranca cílios desalinhados um ao outro ou (por vergonha) tira cravos mutuamente – e achamos que essa gente é maluca. Faz lembrar o afã de nossas mães em umidecer um lencinho com saliva e nos passá-lo no rosto para tirar alguma sujeirinha. A mera cogitação em revelar essas... macaquices familiares poderia deixar você de cabelo (ou pelo) em pé. Nos tempos medievais, catar piolhos era uma atividade social de primeira necessidade. Mesmo hoje, ninguém se recusaria à satisfação de lhe escovarem o cabelo ou de deleitar-se na banheira com a pessoa amada.

Os antropólogos e primatologistas concordam que o asseio mútuo pode ter levado ao surgimento da linguagem. Será que a razão de não rejeitarmos essa intimidade é porque ela funciona como lembrete de que éramos animais há não tanto tempo?

Para os micos-leões-dourados, praticar a higiene mútua cria fortes laços sociais. Valem-se dela para resolver conflitos, reduzir tensões e stress e também, o que não é surpresa, para estimular a atividade sexual. A prática também lhes garante uma bela e saudável pelagem dourada. Os seres humanos mais habituados com o asseio mútuo têm relacionamentos mais românticos, satisfatórios e duradouros. É curioso, então, que tantos enxerguem essa atividade como primitiva. [É uma atividade primitiva! E daí? Não vejo nenhum problema. Só acho que relacionamentos duradouros não são necessariamente associados a asseio mútuo. Conheci vários casais que tiravam cravos mutuamente e estão separados, para alívio dos amigos íntimos que assistiam aos desagradáveis atos. Mas conheço muitos casais que fazem cafuné há anos e continuam juntos, praticando esse divertido ritual (primitivo!) que me parece simular a catação de piolhos.]

Em nossa evolução rumo à autossuficiência, teremos perdido outra oportunidade de interagir com nossos companheiros? Para os micos-leões-dourados – e para as poucas pessoas que se permitem um nível moderado de codependência – há recompensas. No entanto, a maioria de nós resiste. Talvez se pararmos de tentar nos separar dos outros animais, possamos passar menos tempo separados uns dos outros.
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Para acesso ao artigo original:

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Esculpindo em livros – Guy Laramée

O artista plástico canadense Guy Laramée nos surpreende com suas esculturas ao confundir, à primeira vista, o árduo trabalho do cinzel com a voracidade das traças que corroem bibliotecas. Algumas de suas obras, cujos relevos e volumes nos remetem a paisagens minuciosamente entalhadas e de convincente similitude geológica, podem ser aqui apreciadas:






A propósito, veja o trabalho de Brian Dettmer, que também utiliza livros descartados como matéria-prima – embora esta seja a única semelhança entre as esculturas dos dois. Ao contrário de Laramée — que “esculpe” cada livro —, Dettmer os “disseca”, reconstruindo-os com recortes e colagens.

Para mais informações sobre as obras dos artistas plásticos, clique em seus nomes:

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

“A invenção do tempo”, por Adilson de Oliveira

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para diante vai ser diferente

Carlos Drummond de Andrade

Os calendários, criação humana usada para marcar a passagem do tempo, é o tema da coluna do físico Adilson de Oliveira. Na ‘Física sem mistério’ de janeiro, ele conta a história por trás de nossas agendas e fala sobre a ideia de Carl Sagan de construir um calendário cósmico. O artigo, na íntegra, pode ser lido na Ciência Hoje On-line:

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

“Cabeças vazias, corpos sarados e comportamentos patéticos”, por Washington Araujo


O Observatório da Imprensa, na seção TV EM QUESTÃO, publicou um artigo do escritor Washington Araujo (que eu adoraria ter escrito) sobre o programa Big Brother Brasil que coloca brothers e sisters sob os holofotes da realidade:

BBB

Cabeças vazias, corpos sarados e comportamentos patéticos

Por Washington Araujo em 18/01/2012 na edição 677

Não demorou muito e o BBB é caso de polícia. Mais, é caso de estupro. Mais, é caso do habitual descaso com que a programação da tevê aberta brasileira é tratada tanto pela sociedade quanto pelas instâncias governamentais.

A 12ª edição de um dos programas mais fúteis dentre a enormidade de produção de lixo televisivo nem chegou a completar uma semana de existência e já mostrou a que veio: vender cabeças vazias em corpos sarados e uma série quase interminável de comportamentos humanos aceitáveis na esfera privada e patéticos quando transbordam para a esfera pública.

Na noite de sábado [14/1], festa no BBB. Prenúncio de comas alcoólicos e certeza de danças variando entre o sensual e o erótico, ritmo alucinante, luzes piscando e tudo contribuindo para a exposição, sem reservas, dos instintos humanos. Na madrugada de domingo, o Twitter passa a movimentar um sem número de mensagens denunciando Daniel de ter estuprado Monique, tudo captado pelas lentes do BBB, tanto imagem de cobertor em movimento quanto som. O problema, segundo o Twitter, é que apenas um dos dois parece estar vivo – apresenta, vamos dizer, sinais vitais. Este seria o Daniel. Não tardou para que hashtag #DanielExpulso viesse a ser um dos tópicos mais comentados do domingo.

E a onda se espraia na internet com força de tsunami: todos se unem para pedir a cabeça do Daniel e, de quebra, criticar ferozmente a existência de um programa como o Big Brother Brasil. Muitos questionam a correção em classificá-lo como programa. Muitos anunciam que irão boicotar a marca de automóveis Fiat, aquela que premia os carros entre os participantes e entre a audiência, e muitos clamam por intervenção do governo na grade de programação da tevê aberta.

Caso de polícia

Na tarde da segunda-feira [16/1], investigadores da polícia vão ao Projac (centro de produção da emissora, localizado na Zona Oeste do Rio) para apurar a suspeita de que Daniel teria abusado sexualmente de Monique durante a madrugada do último domingo [15/1]. A essa altura, Monique, a presumida vítima, é chamada no “confessionário” para dar explicações sobre o que aconteceu entre ela e Daniel na madrugada de segunda-feira. A moça parece não dizer coisa com coisa, algo como “não sei muito bem”, “acho que não passamos disso”, “ele seria muito mau-caráter se tivesse se aproveitado de mim”, e por aí vai. Logo, as notícias na internet, em particular no sítio G1, da TV Globo, produtora e responsável pela “atração”, passam a divulgar que a moça negou a ocorrência de estupro e replicam a fala do diretor-geral do reality show, J.B. Oliveira, o Boninho. “Ela não confirmou que teve sexo e disse que tudo o que aconteceu foi consensual. Não dá para garantir que houve sexo, muito menos estupro. Eles estavam debaixo do edredom e de lado. Mas o mais importante é que ela [Monique] estava consciente de tudo. Ela me disse que na hora que o clima esquentou pediu para ele [Daniel] sair da cama”. Não ficaria por aí: “O que está acontecendo nada mais é que racismo”.

Ainda na segunda-feira, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes, enviou ofício ao Ministério Público do Rio de Janeiro solicitando que o órgão “tome providências em relação ao suposto estupro que teria acontecido dentro do programa Big Brother Brasil 2012, exibido pela TV Globo.”

Nesta mesma noite, Pedro Bial lê em teleprompter a nota oficial da TV Globo dando conta da expulsão de Daniel por “haver infringido gravemente o regulamento do BBB”. É evidente o clima de constrangimento, sentimento que nem deveria existir em se tratando do BBB, que bem poderia ser visto como uma gincana ininterrupta de constrangimentos... à condição humana. Patética a figura de Bial. Porque ele é aquele jornalista que cobriu a histórica derrubada do muro de Berlim, em novembro de 1989, e mostra à larga que o seu talento é melhor aproveitado fazendo o que faz há 12 anos seguidos no BBB: uma mistura de mestre-de-cerimônias com animador de picadeiro e bedel de escola primária com direito a filosofices tão rasas quanto o programa em que foi aceito como sumo pontífice. Fez o caminho de volta sem ao menos ter ido.

Silêncio da imprensa

Em um país que busca combater a violência contra a mulher em seus muitos aspectos e, em especial, combater o crime de estupro, chama a atenção o silêncio da grande imprensa em torno do caso. Sim, porque pedidos pela expulsão de Daniel e punições à TV Globo não partiram dos jornais Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e muito menos da emissora-líder na desconfortável posição de facilitar a ocorrência de estupro, com tudo gravado, segundo a segundo, e retransmitido para todo o Brasil. As denúncias começaram na forma de “piados” (twitter, em inglês), passaram pelo Facebook e tomaram forma nos tais blogues sujos (para a grande imprensa) e alternativos (para a cidadania).

No espaço de 24 horas, muitas águas rolaram nos desfiladeiros oceânicos da internet. Muitos levantaram o assunto na forma de algo adredemente planejado pela emissora do Jardim Botânico carioca para alavancar a audiência do BBB nesta sua 12ª edição. Outros tantos foram mais enfáticos e exigiram nada menos que a suspensão do programa por tempo ilimitado ou, ao menos, pelo tempo em que durarem as investigações policiais. Mas isto é pedir muito quando estão em jogo interesses unicamente comerciais. Porque o dinheiro não tem nem pátria, ética, nem moral, nem costumes. Tem apenas a densidade que seu proprietário a ele conceda. E nesses tempos em que a liberdade é vista como garantia de expressão dos instintos humanos básicos a qualquer momento, o sucesso nada mais é que conseguir esticar ao máximo seus quinze minutos de fama (lembram do Andy Warhol?), amealhar bens materiais e financeiros sem qualquer escrúpulo, usando os meios mais torpes para sua consecução. Neste contexto, não há muito o que esperar.

Nos últimos três anos escrevi no Observatório da Imprensa críticas ao conteúdo, formato, estilo, produção e transmissão do Big Brother Brasil. Tratei de estética, de conteúdo, de ética e de direitos humanos. Abordei a questão da privacidade e o circo de horrores que a qualquer momento poderia vir a ser a marca registrada do BBB. Depois, resolvi não mais escrever. Porque é difícil falar para o deserto, ou pior, para o vácuo. Mas com a chegada da polícia ao Projac julguei oportuno voltar a tratar do “assunto”. Não porque o programa mereça, mas sim porque é um momento propício para debater sobre a sociedade que temos e a sociedade que queremos.

E qual o papel da mídia, enquanto espelho da realidade, na formulação dessa nova sociedade, uma sociedade que seja justa, igualitária, fraterna, inclusiva e promotora dos direitos humanos?

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[Washington Araújo é mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter]
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FONTE DO TEXTO: clipado do Observatório da Imprensa – edição de sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012 / ISSN 1519-7670 - Ano 16 - nº 677

FONTE DA IMAGEM: Divulgação – Programa BBB12 – TV Globo

domingo, 15 de janeiro de 2012

Crônica de Ana Elisa Ribeiro — “Voltar com ex e café requentado”

Fico ali entre duas condições estranhas: acreditar que o passado está fixo e “imexível” (como diria um de nossos políticos, profundo conhecedor da produtividade na morfologia da língua portuguesa) ou crer que nossas vivências atuais modificam nosso passado. Bom, é, em todo caso, melhor explicar: se todo passado está lá, onde foi cosido, aqui, quando o rememoro ou o conto, ele não passa de uma narrativa. Sendo narrado, é, a cada momento, visto de um modo, de um ponto de vista, influenciado que é pelo que somos na atualidade. Ou não? Daí que, após uns anos de vivências e experiências (dizia o nobre Júlio Pinto, semioticista mineiro, que são coisas diferentes), nossa narrativa do passado se altera. O que nos pareceu ruim quando estávamos lá, e aquele passado era presente, pode ser entendido, agora, como o melhor episódio de nossas vidas, uma dádiva que abriu todos os bons caminhos seguintes. E se assim é, o passado não muda, ok, mas nossa maneira de percebê-lo, sim.

Quando eu estava lá, o passado com esta ou aquela pessoa me parecia alegre ou triste. E ali estão negociados também todos os finais de relacionamentos. Sim, esses episódios que nos assombram por semanas, meses ou décadas. Essas pessoas que se cristalizam em nossas memórias e que se transformam em avatares. Essas figuras meio míticas que fazem parte de muitas narrativas em nossas vidas, inclusive suscitando comparações chatas ou insistentes com o presente (talvez até impedindo um futuro bacaninha).

Eu não costumava me apertar muito com ex-relacionamentos. Lembro-me de um que terminei por telefone mesmo, para evitar o encontro. Por ele chorei uma exata lágrima, por um olho só, porque não contive certa tristezinha de ouvir a vozinha sussurrada do moço decepcionado. Era uma pessoa tão legal... Mas fugia muito daquele meu zelo pelo futuro que eu pensava que ainda poderia ter (mais tarde veria que não).

Já dizia aquele meu poema, no livro de 2008 (Fresta por onde olhar, Cantiga do amor fodido, página 58): “Não me demoro/ deitada em peito algum/ Nem espalho/ em qualquer corpo/ minha anca de metro”. Está valendo, não? Nem sempre. Algo me diz, sempre, se devo investir ou não, porque relacionamentos costumam gastar energia demais. É muita energia gasta para conviver com alguém, para dar certo, para combinar as mínimas coisas, para atuar sexualmente, para manter a atenção, a exclusividade e o bom astral. Então já vamos logo aprendendo a pescar se funciona ou não. E aí valia mais a pena terminar logo o que não tinha solo fértil.

Em compensação, havia sempre aquelas histórias mal-fadadas, fracassadas ou mal-resolvidas. Certa vez um namorado me disse, antes de resolvermos assumir o romance: “Seu passado está bem-resolvido? Porque não tenho vocação para caça-fantasma”. Adorei. Pelo bom humor (entre outras infinitas coisas da lista de opcionais... homens costumam vir no modelo pé duro), eu quis namorar. Naquele tempo, as questões com ex-cruz-credos estavam todas resolvidas, sim, mas custara bastante resolvê-las. Ufa.

Havia, um dia, o ex-primeiro namorado, aquele da adolescência, que deixa marcas míticas. Anos depois de arrastar várias e pesadas correntes, desfizemos nossos mal-entendidos todos. Final de todos os rounds. Luta inglória esquecer namorado paixonite. Mas quando a gente encontra o cara, décadas depois, a decepção ajeita tudo. Ponto para nós. Cada um pro seu lado.

Mais tarde, o outro ex, colega de colégio, que, uma década depois, continua nos afetando negativamente pelos mesmos motivos. Nada mudou. Excelente remédio para curar desamores largados na memória. É isso mesmo, minha filha, não tem jeito. Tudo igual sob o Sol. Minha amiga Ana Martins Marques (poetíssima) me ensinou isto: “Voltar com ex é assim: na primeira semana, você se pergunta como deixou aquele homem maravilhoso escapar. Na segunda semana, você pensa: ah, lembrei”.

E ainda há um terceiro caso, quando você tem a chance (dada pela vida ou por sua agência ansiosa) de reencontrar um ex desses fascinantes, muito mais velhos, ricos e bonitos (músicos, inclusive) para ver se na atualidade a relação poderia funcionar melhor. A máxima da Ana Marques continua valendo, não nos esqueçamos. No caso aqui, a relação terminara sem conclusões, por descuido, assim... uma distância qualquer impediu que a história se resolvesse. É aquele caso do “e se”, que nos deixa sempre suspensos em relação ao que poderia ter sido e não foi, se... isto ou aquilo, assim e assado. Não se trata, portanto, de um relacionamento terminado, encerrado, com explicações e justificativas, mas de uma suspensão muita vez involuntária. Daí que a vida vem e nos põe, novamente, frente a frente (a vida ou o Facebook). Pronto, é hora. Daí, em pouco tempo, você, mais madura (ou maduro... mas em geral isso ocorre às fêmeas), vai sacando coisas que não percebera antes. E então aquele mítico ex se transforma num odioso ser comum. Pronto. E ponto.

Um quarto caso, curioso, é o do ex que é a excelência em ex. Aquele pelo qual a gente agradece por ter virado ex, com louvor. É o cara do qual você se livra. E é uma pena não poder dar um ctrl+z pra tirá-lo do currículo.

Terminadas as questões pendentes, pode-se fazer a fila andar. E como anda? Meu amigo me disse, com várias certezas (e inclusive munido de exemplos), que as mulheres é que decidem as partidas nas relações. Sei não. Bom, em todo caso, conheço muito mais mulheres que têm a dignidade de dar cabo de relacionamentos ruins. Ah, interessante: esse meu amigo é, de fato, um dos poucos homens que conheço que dão fim a relacionamentos.

Filas andam. E vamos nós preparar novos futuros e novos passados. Narrar de forma diferente todas aquelas relações que ficaram para trás, agora sem fios soltos. É preciso soldar, arrematar, finalizar. Próximo, por favor! Lá vem ele. A versão pé duro chega com muitos opcionais. Que beleza! Não há mais ex bicando a conversa. Não há muitas comparações... ou melhor, há, mas o próximo namorado tem parecido melhor do que a fila de links já acessados (todos roxos). Bom, vamos à vistoria, à vivência, à experiência. Vamos em direção a algo que seja leve, que funcione, que seja bom. E os critérios? Mudaram. Porque o que eu valorizo hoje só pode ser observado hoje. Há alguns anos eu não tinha olhos para certas coisas. Hoje, tenho.

Casar-se é uma verdadeira escola de lidar com o impossível. Namorar é só superfície, só regalia. Vai lá dividir teto e cama pra ver se qualquer um é príncipe? Em todo caso, tomara que seja. Princesa também não há. As tais das sacas de sal (25 kg, ok?) são difíceis de compartilhar com alguém, oh. E ex é isto: não deu nem pra consumir aquele saquinho do supermercado (1 mísero quilinho). Vai tentar de novo? Você curte um café velho requentado, né?

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FONTE DO TEXTO: clipado da coluna de Ana Elisa Ribeiro, do Digestivo Cultural

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

“O silicone e o papel da imprensa”, por Ligia Martins de Almeida



O Observatório da Imprensa, no seu Caderno da Cidadania, publicou um texto sobre a saúde da mulher que coloca o dedo na cicatriz do caso das próteses mamárias de silicone:

O silicone e o papel da imprensa
Por Ligia Martins de Almeida em 10/01/2012 na edição 676

“Silicone ruim, lições boas: As próteses adulteradas por fabricante francesa são caso de polícia, mas devem servir para lembrar que o aumento cirúrgico dos seios não é banal como uma ida ao cabeleireiro.” Assim a revista Veja começa a reportagem (de oito páginas) sobre o fato que rendeu matérias na imprensa durante toda a semana que passou. Mas enquanto os jornais se limitaram a entrevistar mulheres obrigadas a fazer o implante depois de uma mastectomia, Veja não descuidou o lado fofoqueiro ao publicar fotos de 40 atrizes/celebridades com seus novos “seios perfeitos”, enfatizando que “o exemplo vem de cima”.

Veja parece ter razão ao dizer que o procedimento não é banal como uma ida ao cabeleireiro. Mas poderia ter dito muito mais. A verdade é que nem a revista nem os jornais, que acabaram tratando o assunto como mais um caso de engano ao consumidor, estão devendo uma reportagem que vá além das estatísticas.

Por enquanto, o que as leitoras ficaram sabendo é que, no Brasil, 120 mil cirurgias de implante de silicone são feitas por ano, que 34.631 próteses da marca francesa PIP foram importadas pelo Brasil, que 10.680 foram apreendidas no Paraná e que o SUS vai operar de graça as mulheres que fizeram o implante devido à mastectomia (O Estado de S.Paulo, 8/1/2012).

Os jornais noticiaram também que existem nada menos que 12 mil mulheres brasileiras usando as próteses francesas. Mas, segundo o médico José Horácio Aboudib, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o silicone francês só é perigoso se o implante se rompe:

“Antes disso, o melhor é fazer um acompanhamento periódico. Indicar uma cirurgia desnecessária é um risco. Os problemas que as próteses podem causar são localizados e podem ser tratados. Não há justificativa para uma retirada por precaução.” (Folha de S.Paulo, 5/1/2012).

Mulheres reais

Em meio às denúncias de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não deu retorno às reclamações sobre próteses defeituosas, as consumidoras brasileiras devem estar se perguntando se as próteses nacionais são seguras e se, com estas, também não correm risco. E mulheres preocupadas não devem ser poucas, se levarmos em conta uma pesquisa divulgada pelo Ibope em2010. Naquele ano, a coordenação do XI Simpósio Internacional de Cirurgia Plástica divulgou que...

“...em 2009 foram realizadas no Brasil 645.464 cirurgias plásticas, sendo 443.145 cirurgias estéticas (69%), das quais 158.711 usaram implantes de silicone nas mais diversas regiões do corpo, tanto homens quanto mulheres. O estudo constatou que o procedimento cirúrgico mais requisitado pelas mulheres é a colocação de silicone nas mamas. Tanto é que mais de 143 mil mulheres colocaram próteses mamárias no ano passado. A cirurgia de mama, em sua maior parte, foi de cunho estético, atingindo a marca de 91%. Enquanto as cirurgias reparadoras corresponderam a 9%.”

Nem as revistas nem os jornais discutiram o que deveria ser o verdadeiro tema das matérias: por que as mulheres se submetem a procedimentos cirúrgicos de risco (afinal trata-se de uma área muito sensível do corpo feminino), gastam um dinheiro que nem sempre está sobrando e fazem tudo isso sabendo que em dez anos, no máximo quinze, terão que passar por todo o processo novamente, já que os implantes não duram para sempre. Isso, se tiverem sorte e nada de errado acontecer nesse meio tempo.

Claro que as revistas noticiosas e os jornais têm mais o que fazer. Mas, e as chamadas revistas “femininas”, que se dedicam a tornar as mulheres mais seguras, mais felizes e mais bonitas? Por que se omitem? Nas revistas noticiosas, como Veja, a visão que a mídia tem das suas leitoras fica bem clara, quando se afirma que o “exemplo vem de cima”. “Em cima” estão atrizes de cinema, atrizes de TV e algumas celebridades que servem de modelo para a grande massa de mulheres insatisfeitas com seu visual. São as mulheres “reais”, a quem a revista Claudia de janeiro dedicou uma matéria de moda verão. As mulheres reais, pelo que se conclui das fotos, são mocinhas bonitas, peso certo, mas sem altura ou medidas de modelos de revista.

Leitoras fiéis

Como podemos esperar que as mulheres insatisfeitas com o visual (e isso vale para as mais jovens e mais velhas) consigam sobreviver à propaganda – não tão sutil – que deixa claro ser preciso ter corpo de top model para conseguir seus objetivos?

A imprensa feminina bem que poderia entrar no assunto de forma séria. Em vez dos famosos “antes e depois”, das matérias de beleza ensinando dietas milagrosas, truques de maquilagem para esconder tudo que é considerado imperfeição, está na hora de ajudar as mulheres a serem felizes com o rosto e o corpo que têm.

Não é o caso de acabar com a indústria da beleza ou da moda. Mas seria mais fácil para todas as mulheres (bonitas, feias, gordas, magras, altas ou baixas) se elas pudessem descobrir que dá para ser feliz do jeito que elas são. E a imprensa “feminina” bem que poderia ajudar nessa tarefa. Com toda a certeza, leitoras mais identificadas com as revistas seriam compradoras mais fiéis.

[Ligia Martins de Almeida é jornalista]

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FONTE DO TEXTO: clipado do Observatório da Imprensa

Manuel de Barros: o que é ser poeta?




“Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.”

“Poeta, s.m. e f.
        Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
        Espécie de um vazadouro para contradições
        Sabiá com trevas
        Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto.”
 
Manoel de Barros
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FONTE DA IMAGEM: Arquivo pessoal - Aplicações de retalhos no encosto de uma cadeira feita em homenagem a Manoel de Barros.

Leia também “Uma livraria e oito cadeiras”:

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Olhando para o teto...


Foi exatamente assim que Renata Lima, escritora e produtora cultural, descobriu um lado pouco observado da arquitetura: olhando para o teto! E a beleza encontrada, registrada pelos fotógrafos Bruno Veiga e Cristiano Mascaro, transformou-se no livro Tetos do Brasil – Origem, História e Arte (editora Babel, 240 páginas, R$ 160), lançado no final de dezembro de 2011, que traz um olhar apurado sobre esses elementos arquitetônicos nas construções nacionais.

Confira algumas das fotos de Bruno Veiga:





FONTE DO TEXTO E DAS IMAGENS: Revista Vogue 317



domingo, 8 de janeiro de 2012

Annie Leonard e “A História dos Eletrônicos”


Após o estrondoso sucesso do vídeo “The Story of Stuff” (“A História das Coisas”), com mais de 15 milhões de acessos, sua autora, Annie Leonard, vem criando mais filmes “educativos”, tais como este:

“The Story of Electronics” (“A História dos Eletrônicos”) utiliza o estilo de “A História das Coisas” para mostrar os efeitos colaterais da revolução high-tech: 25 milhões de toneladas de lixo eletrônico (que continua crescendo), além de trabalhadores envenenados e da conta que fica para o bolso do público. A apresentadora Annie Leonard leva os espectadores em um passeio que vai desde as minas e fábricas onde nascem nossos apetrechos eletrônicos, até os assustadores postos de reciclagem caseiros da China, onde muitos desses produtos acabam chegando.

O filme termina com um alerta sobre a premente necessidade de um programa governamental do tipo Race to the Top (algo como “corrida até o topo”, um programa criado no governo Obama para incentivo à melhoria da qualidade de ensino). Annie Leonard propõe um Race to the Top como incentivo ao desenvolvimento de eletrônicos em versão verde, com designers competindo para criar produtos duradouros, isentos de substâncias tóxicas e que sejam integralmente recicláveis com facilidade (ou seja, nada de “totalmente reciclável” após 600 anos na natureza). A proposta vem recebendo forte apoio de consumidores (e eleitores) esclarecidos.

Sempre é bom ficar sabendo como anda a política dos produtos verdes nos Estados Unidos, “pátria” do consumo, mas também surpreendente gerador de críticas a seus próprios hábitos. Afinal, lá foi um dos berços dos movimentos de contracultura, que se alastraram pelo mundo na década de 60.

Para conhecer melhor quem é Annie Leonard, clique AQUI.


O filme tem legendas em vários idiomas. Para escolher qual, clique sobre o pequeno quadrado à direita [CC] e escolha o idioma. 


sábado, 7 de janeiro de 2012

As mulheres, segundo Stephen Hawking


“Elas são um completo mistério!” foi a frase da semana nos principais periódicos do mundo. Seu autor (foto), um dos mais atuantes e reconhecidos físicos da atualidade, estava muito à vontade quando fez essa revelação à revista New Scientist, em uma recente entrevista comemorativa a seu aniversário de 70 anos (que acontecerá amanhã, dia 8 de janeiro).

Stephen Hawking é também considerado mundialmente um exemplo de superação. Aos 21 anos de idade recebeu a notícia de que viveria somente alguns anos mais, devido a uma doença degenerativa – esclerose lateral amiotrófica. A doença lhe tirou a maioria dos movimentos e provocou muitas outras dificuldades. Ainda assim, Hawking, não apenas sobreviveu, como cultivou seu humor britânico e progrediu em sua carreira como astrofísico, pesquisando os mistérios do universo.

FONTE DA IMAGEM: Nasa – Fotógrafo: Paul E. Alers.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

COMUNICAÇÃO É TUDO... “A era e o poder do Twitter”, por Gian Danton


O Twitter é um fenômeno mundial de dimensões grandiosas. Ele mudou a forma das pessoas se relacionarem e fazerem política. E mudou a forma das empresas se relacionarem com os clientes. Reflexo disso são duas publicações recentes voltadas para o uso do microblog como ferramenta de Marketing: O poder do twitter, de Joel Comm (Gente, 268 p.) e A era do twitter, de Shel Israel (Campus, 274 p.).

Embora tenham objetivos semelhantes, são dois livros diferentes. O poder do twitter é uma espécie de manual, que ensina desde como criar sua conta à estratégias para conseguir mais seguidores. A era do twitter é mais um livro de cases, com histórias de sucesso e fracasso de empresas no mundo virtual. A origem do microblog é bem explicada nesse último. O twitter surgiu numa empresa chamada Odeo, de propriedade de Ev Williams, um ex-funcionário do Google e criador do Blogger, e Biz Stone, criador de um dos primeiros sites para desenvolvimento de blogs. O objetivo da empresa era fazer para o áudio on-line o que o Google fez para o texto on-line: ser um mecanismo de busca para arquivos de áudio e vídeo.

Mas a empresa enfrentava um problema sério: a maioria dos funcionários trabalhava em sua própria casa. Ninguém sabia exatamente quem estava fazendo o que. Convocar uma reunião, então, era um inferno: era quase impossível encontrar as pessoas quando se precisava delas. Quem trouxe a solução foi Jack Dorsey, arquiteto de software da Odeo. Quando era criança, ele ficou fascinado com a maneira como os veículos de emergência eram despachados - a tecnologia que direciona polícia, bombeiros, motoristas de ambulância para os locais em que fossem mais necessários. Para isso, ele resolveu usar o SMS, tecnologia mais popular de envio de mensagens de celular. Ele cortou vinte caracteres do tamanho do texto, de forma que as mensagens pudessem identificar o emissor. Mas a grande diferença é que os SMS eram enviados não a uma pessoa, mas a todo um grupo: se uma funcionária da Odeo postava, todos os outros funcionários saberiam que ela estava almoçando, a caminho do escritório ou trabalhando em casa. Era um microblog: “a conversa ia de uma pessoa a outra com facilidade e rapidez. A conversa fluía como um rio e logo foi chamada de tweetstream (ou apenas “stream” ou “fluxo”)”, conta Shell Israel.

A empresa ia registrar o serviço como Stat.us, mas o domínio já tinha dono. Acabou virando TWTTR seguindo a moda de suprimir as vogais, iniciada pelo Flickr. Logo se transformaria no TWITTER. O serviço, que havia sido criado para uso apenas interno, foi se alastrando. Os funcionários não conseguiam resistir à tentação de compartilhar essa nova ferramenta com os amigos, e logo uma multidão estava no serviço.

Qualquer outra empresa demitiria os funcionários que compartilhassem um serviço que deveria ser apenas interno, mas a Odeo não viu problemas nisso e logo o Twitter seria o principal sucesso da empresa e o acesso era tão grande que provocava bugs no site. Em conseqüência, surgiu um ícone popular: a baleia de manutenção (imagem acima), criação da artista chinesa Yi Yung Lu.

E logo o twitter teria papel fundamental para as novas empresas, seja para o bem, seja para o mal. Aliás, os melhores capítulos de A era do twitter são aqueles dedicados a empresas que foram vítimas do microblog. Exemplo disso é a história da Motrin Mons, um analgésico. Em uma de suas campanhas, eles fizeram um vídeo para internet em que se mostrava como os acessórios para carregar bebês poderiam causar dores no corpo, que seriam aliviadas pelo analgésico. Era um anúncio divertido, para o público jovem. Mas uma mãe blogueira, Jessica Gottlieb, ficou indignada e afirmou no twitter: “É cruel fazer brincadeiras com mães de primeira viagem”. A partir daí, a indignação contra a empresa se espalhou com rapidez na rede. A hashtag #Motrin Moms entrou para o Trending Topic daquela semana. A campanha contra a empresa se alastrou por outras mídias e foi até para o Youtube, em que um vídeo satirizava o comercial da empresa, em que uma mulher com implantes de silicone dizia: “Vou suportar a dor, porque é uma dor boa. É para o meu marido”.

O livro traz também bons exemplos, de empresas que estão se saindo bem usando o Twitter, mas essas curiosamente parecem menos interessantes, e muitas vezes o autor acaba perdendo a mão ao contar mais a história do responsável pelo sucesso da empresa no twitter do que o sucesso em si.

O livro de Joel Comm, embora seja bastante objetivo, traz sacadas interessantes. Uma delas que o Twitter é um ótimo veículo para pedir ajuda. Ele cita o caso, também relatado por Shel Israel, do estudante de jornalismo norte-americano que foi detido enquanto fotografava manifestações contra o governo do Egito. Uma única palavra (“Preso”) salvou-o da prisão. Uma rede internacional se uniu para pressionar por sua liberdade.

Um exemplo igualmente dramático é dado por Shel Israel. Em 20 de dezembro de 2008 a escritora Jean Ann Van Krevelem estava num avião pronto para decolar no aeroporto de Portland, Oregon, com seu marido e filhos. A região enfrentava uma nevasca, mas os passageiros foram orientados a ficar em seus lugares. Não havia água ou comida no avião. Duas horas e meia depois os passageiros foram liberados para desembarcarem. Dez minutos depois, os passageiros foram novamente direcionados para embarque. Poucos tiveram tempo de comer ou beber algo. Pensavam que já iam decolar, mas passaram mais duas horas e meia parados. Muitos passageiros precisavam tomar remédios que estavam nas bagagens despachadas, pois acreditavam que a viagem seria curta.

Conforme Jean tuitava, a notícia se espalhava pela rede. Logo as emissoras locais souberam do fato, correram para o local e, diante da pressão, a empresa permitiu que os passageiros desembarcassem. Quando a escritora desembarcou, todos os jornalistas queriam saber o que era o tal de Twitter.

Joel Comm explora a maneira como as empresas podem aproveitar essa característica a seu favor, oferecendo ajuda às pessoas. Um ponto os dois autores têm em comum: eles defendem que o twitter não deve ser usado para mensagens unidirecionais: “Todo o site age como um fórum gigantesco, no qual especialistas em toda sorte de assunto estão dispostos a oferecer seus conselhos a praticamente qualquer um que os solicite (...) Toda vez que você responde, contribuiu para a conversa de alguém. Isso faz com que você seja uma parte valiosa da comunidade”, escreve Joel Comm.

Ao comentar sobre uma empresa que usa o twitter apenas para enviar mensagens unidimensionais para seus clientes, Israel escreve: “Acho que Sinkov e eu tratamos 'amigos próximos' de forma diferente. Eu geralmente pergunto como as famílias vão, o que está acontecendo na vida deles. Meus amigos e eu falamos sobre esportes, livros, filmes e o tempo. Às vezes fazemos brincadeiras uns com os outros. Outras vezes, somos um ombro amigo e oferecemos apoio”.

Nesse sentido, os dois livros defendem que as empresas devem ter no Twitter abordagens pessoais e coloquiais, preferencialmente de forma que os seguidores saibam com quem está falando. E, principalmente, que participem da conversa, e não usem os outros apenas como platéia.

Muitos políticos que entraram no twitter durante a última eleição deveriam ter lido ambos os livros.

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Texto clipado de Digestivo Cultural:

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Depende de nós...


Maria Claudia e Marcos Mendes, ao homenagearem a chegada de 2012, nos presenteiam com uma bela interpretação de “Depende de nós”, música de Ivan Lins:


Paulo Robson: o que é ser poeta?



“Sempre imaginei que o poeta é apenas uma antena captadora de poemas emanados do piscar das estrelas, algo como um Código Morse de luz...”

Paulo Robson

FONTE DA IMAGEM: Creative Commons / Ligth effect by HMN/Deviantart

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O calendário maia e o ano 2012


Em breve vão estar pipocando todas as péssimas previsões para o ano que acaba de nascer, baseadas no calendário maia, com destaque para a já conhecida profecia de que o mundo vai acabar em 2012. Más notícias voam, pois há um público ávido por elas.

E a nova interpretação sobre as inscrições maias pouco foi noticiada: “Em vez de predizer o fim do mundo, na realidade a mensagem dos maias faz referência à chegada de um deus em 2012”. Essa é a conclusão da análise dos hieróglifos feita por Sven Gronemeyer, da Universidade La Trobe, na Austrália, apresentada no sítio arqueológico de Palenque, no sul do México, no final de novembro de 2011.

As interpretações de Gronemeyer são baseadas em uma tábua de pedra, encontrada anos atrás, no sítio arqueológico de Tortuguero, na costa do Golfo do México. Ele concluiu que a inscrição prevê o retorno do misterioso deus maia Bolon Yokte (deus da criação e da guerra) no final de um período de 13 ciclos de 400 anos, conhecidos como baktuns, o que corresponde ao dia 21 de dezembro de 2012. Segundo o pesquisador, não há nada de apocalíptico nessa data.


FONTES DO TEXTO: Instituto de Antropologia e História do México (INAH) e The Guardian.

FONTE DA IMAGEM: History Channel - Victor Habbick/Shuttersotck.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Se essas ruas fossem minhas...


Você percebe claramente que está ficando velho, mesmo, quando muitos nomes de ruas e avenidas são de pessoas que conviveram com você. Isso assusta um pouco.

Não sei se para me acalmar, ou para ficar mais preocupada, fui dar uma espiada nas ruas de minha cidade natal, Dourados, Mato Grosso do Sul, para ver quais eu conhecia. E eram muitas... Comecei a escrever sobre algumas e decidi não me preocupar com as razões que levaram à homenagem. Afinal, ninguém é nome de rua sem uma boa justificativa. Mas as “minhas” ruas estão muito além das causas que as levaram a ter determinado nome. As “minhas” ruas são aquelas que estão vivas nas memórias de meu afeto.

Rua Antonio Alves Rocha — Tio “Nhonhô”, o dono da Farmácia Popular, marido da tia Joaninha. Eles moravam na Marcelino Pires, em um dos primeiros sobrados da cidade, em cima da farmácia. Lembro-me das festas que lá faziam, com refrigerante gelado(!), e de como o vento soprava livre e fresco no sobrado, dando trégua ao calor. Tio Nhonhô, sempre elegante, se esmerava como farmacêutico no atendimento atrás do balcão de madeira maciça.

Rua Antonio de Carvalho — “Carvalhinho”, meu avô materno. Um nordestino baixinho e gozador, exímio mecânico de máquinas e motores que fez parte da Comissão Rondon, trabalhando na instalação das linhas telegráficas em Mato Grosso, e que por aqui ficou ao decidir casar-se com Gasparina Mattos (minha avó materna). Era político, do tipo pacificador. Tinha jogo de cintura, até para driblar a vovó que odiava suas noitadas de jogo de baralho. Foi um de meus instrutores de canastra, juntamente com o tio Miguel. (Eu devia ter levado essas aulas mais a sério.)

Rua Maneco de Melo — O padrinho de meu irmão. O Maneco nos visitava toda semana, religiosamente, com sua esposa Zizi. Chegavam sempre à tardezinha, na “boca da noite”, como diziam. E passavam horas tomando mate com minha avó Gasparina, proseando sobre o tempo, a falta ou a abundância da chuva, quem tinha morrido por aqueles dias, como a cidade estava crescendo, as últimas dos filhos e dos netos... até que ele começa a cochilar na cadeira. Era a hora das despedidas. Até a semana que vem!

Rua Izzat Bussuan — “Seu” Izzat! O pai de meus amigos Luiz Antonio e William. Sempre atencioso, com sua esposa Dona Afife, esse libanês culto e elegante era um anfitrião adorável. Como se comia bem em sua casa! E como era divertido vê-lo falar, com seu forte sotaque, jamais perdido em quase cinquenta anos de Brasil.

Rua Geni Ferreira Milan — Anos atrás escrevi uma crônica sobre “Dona Geni”, publicada em meu primeiro livro, onde comentei que ela era uma mulher plena, totalmente diferente de todas as outras mulheres da cidade, quando o “diferente” era (e ainda é) um assunto instigante e inesgotável. E assim, a cada ato ou fala dela (reais ou imaginários), o universo feminino da cidade era abalado e a ordem subvertida. Até hoje sou grata à Geni. Com ela aprendi que ser ousada, verdadeira e rebelde era muito, muito divertido. Ela foi minha primeira feminista, a mais autêntica das que conheci. (Geni morreu assassinada, em um dia 3 de janeiro, meu aniversário.)

Av. José Roberto Teixeira — Meu amigo. Um cara do tipo calado como muitos adolescentes. Batia um bolão. Morreu na rua que leva seu nome em um triste acidente, ao voltar de uma festa do Clube Indaiá.

Av. Weimar Gonçalves Torres — Tio Weimar! Casado com a irmã de meu pai, tia Adiles. Político, poeta, fundador do jornal “O Progresso”, era um homem ocupadíssimo, que estava sempre viajando. Tivemos pouco contato. Mas ele foi o orador que homenageou as primeiras debutantes da cidade. E, é claro, eu era uma das vinte e duas adolescentes que dançaram suas valsas no Clube Social de Dourados no dia 27 de agosto de 1966.

Rua Miguel Ângelo do Amaral — Tio Miguel, irmão de meu pai, marido da tia Dulce. Passei quase toda a minha infância na casa dele, brincando com seus filhos. Um grande pescador e, como tal, um divertido contador de histórias. Meu parceiro de canastra paraguaia — um dos jogos de baralho mais difíceis que já vi —, me ensinou a jogar. Ele tinha uma expressão peculiar para ressaltar sua habilidade na canastra: “Eu jogo isso por música!”. E jogava mesmo, chegando a memorizar quais cartas os adversários, e o parceiro, tinham em mãos... e quais tinham descartado. Parceria com tio Miguel era sinônimo de vitória.

Rua Docelina Mattos Freitas — Tia “Doce”. Uma das pessoas mais delicadas que já conheci. E como me tratava bem, me agradava, mimava... Contava histórias dos parentes, tomando mate embaixo de uma ramada, ao lado da caixa-d’água que vez por outra deixava respingar água fresca. Sempre me presenteava com uma barra de geleia de mocotó autêntica, feita com os tendões de patas de boi que ficavam horas e horas em um grande tacho de cobre sobre o fogão a lenha. E aqueles mocotós rendiam tão pouco doce...

Rua Teodoro Capilé — Também já escrevi uma crônica sobre ele. O grande seresteiro de minha adolescência, parceiro de Renê Miguel. Acredito que os dois tocam juntos, ainda hoje, em algum lugar conhecido por pessoas iluminadas. Teodoro me marcou com sua amizade, seu sorriso largo e sua alma boêmia, que soltava a voz morna de acordo com a entonação desejada para destacar a letra da guarânia. Até hoje não posso ouvir Mercedita, Índia, Lejanía, Recuerdos de Ypacaray e tampouco Saudades, sem me lembrar dele.

Rua Dr. Nelson de Araújo — Ah! Essa rua é como se fosse minha... Não só porque morei nela por anos a fio. Eu o chamava de “Vovô Nelson” e ele nem sequer era meu parente. Mas foi ele mesmo que me contou que, quando cheguei ao mundo, foi o primeiro a me olhar, tocar e sorrir, ao fazer o parto de minha mãe. E isso bastava. Ele exigia que eu o chamasse de vovô. Entrou em minha vida e nunca mais saiu. Tomava café da manhã todos os dias em minha casa e era um grande amigo de minha família e meu. Apesar da grande diferença de idade, conversávamos muito, como de igual para igual. Um homem sábio que sabia escutar e falar no mesmo nível do interlocutor. Ele faleceu em junho de 1966, um mês antes de completar 61 anos. Chorei muito. Eu tinha então 14 anos e senti muito sua falta, tanto quanto sinto ainda hoje, quando acabo de completar 60 anos.

Estou ficando velha, com certeza. Mas, em vez de me preocupar com o tempo que me envelhece, vou gastá-lo em caminhadas pelas “minhas” ruas, vivendo minha própria história.


[Hoje é dia 8 de janeiro de 2012 e mudei a foto do post. A foto atual, de uma rua de Dourados com a calçada coberta por flores de ipê rosa, é a cara de uma das minhas ruas. A foto foi clipada do facebook da prima Jussimara Mattos Souza. Obrigada, Jussi!]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2011, 2012... E esse tempo que voa


Mal me dei conta e já estamos em janeiro, iniciando um novo ano. Que coisa estranha... A sensação de que o tempo voou é muito forte. É como se os dias tivessem escapado pelos dedos e cada mês de 2011 houvesse durado bem menos do que devia. Me parece que até as semanas se tornaram diferentes. Não são mais aquelas que eu conhecia tão bem, com sete dias distintos. Hoje tanto faz se é segunda, terça ou sábado: todos são iguais perante o tempo — passam às pressas, do mesmo jeito.

Em minha concepção “temporal”, o único dia que ainda mantém a pose e o cronômetro é o domingo. Forte, ele segura a posse de suas 24 horas como antigamente e, com todos os segundos bem marcados, registra o primeiro dia da semana. É a “primeira-feira” que não perdeu o compasso. As demais “feiras” e o sábado detonam o tempo, como dias alucinados.

Comentando sobre a correria das horas, um amigo que compartilhava a mesma impressão me pôs a par de uma teoria que, segundo ele, explica essa sensação: a ressonância de Schumann. A tal ressonância (para resumir a história) é originada no campo eletromagnético que se forma entre a superfície do planeta e a ionosfera, produzindo cerca de 7,8 pulsações por segundo. Entretanto, segundo o que meu amigo leu em algum lugar, essa ressonância estaria aumentando nas últimas décadas e atualmente vibraria na frequência de 11 a 13 pulsações por segundo. Tal aceleração seria responsável por esse descompasso de como sentimos o passar do tempo.

Adorei! Pesquisei, li, conversei com cientistas, físicos e astrônomos, e descobri que a ressonância de Schumann existe mesmo, mas não encontrei nenhuma fundamentação científica na relação entre ela e a percepção do tempo e tampouco sobre essa história de aceleração de suas pulsações. Mas, como fã incondicional de ficção (mesmo que por algumas horas), passei noites me entretendo a olhar estrelas mais atentamente, como se elas fossem me revelar algum segredo. Há poucas semanas mantive longo monólogo com um halo solar. (Mas nada me foi confessado sobre a ressonância, por astro nenhum.)

O resultado de todo esse tempo investido em pesquisar e em ouvir estrelas é que ainda não compreendo o que se passa com o tempo — que parece correr feito louco. Acho que isso é coisa para verdadeiros iniciados, tais como o coelho de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.

Estou pensando seriamente em não mais questionar o tempo, passe ele com vagar, arrastado ou a galope, me dando um susto com o ano que já se foi. Sempre que viajo, que reencontro amigos, e também quando leio, escrevo e sonho, o tempo se acelera, escorre, voa. Quando me entristeço e fico fechada, o tempo me acompanha com a mesma marcha, pesada, lenta, como no cortejo de um funeral. Quando adoeço, também me arrasto, como que carregando toda a dor do mundo. E nessas horas quero tomar chá de sumiço e permanecer em estágio atemporal.

Seja como for, atualmente tenho tomado posse de meu tempo com meu próprio jeito – um jeito que pode chegar a ser exagerado, extravagante e até entediante. Assumir meu tempo privativo me faz bem. Com ou sem ressonância, estou a vivê-lo intensamente, seja recostada na letargia de um sofá ou com o coração acelerado diante de eventos espantosos. Vivo entre a leveza de um voo em asa-delta e a celeridade de um barco em rio de corredeira, sempre arrumando tempo extra para degustar um vinho pausadamente. Uma taça levantada em um brinde: Feliz 2012 e um excelente recomeço!

E espero que o tempo me dê a chance de nos reencontrarmos, bem e felizes, ao longo deste ano. Semana após semana... Quem sabe?

 

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