terça-feira, 24 de novembro de 2015

Girar e rodopiar...


Há quem observe estrelas, planetas e satélites. Por vezes quero vê-los, mas sou mais ligada a coisas terrenas, desde as menos descomunais até as bem pequenininhas. Nunca olhei em um telescópio, mas microscópios já usei vários. Quando menina, com uns sete anos, levaram-me a uma universidade e, em um laboratório de pesquisa, vi a vida como sempre me pareceu ser: repleta de movimento. Só que o movimento que me mostraram, incessante e surpreendente, vinha de uma planta! Uma pequena folha de Elodea ― planta aquática muito utilizada em aquários ― foi colhida da água em minha frente, colocada em uma lâmina de vidro e posicionada sob o microscópio, onde, sem truques nem mágica, aquela folhinha converteu-se em um piso de tijolinhos transparentes em que milhares de bolinhas verdes rodopiavam sem cessar. Incrédula, pedi para ver outra folha, que eu mesma arranquei. E o balé se repetiu. Havia vida naquela planta estática, que até então parecia obedecer só ao movimento da água. E era uma vida bem agitada. Nem preciso dizer que nunca mais olhei para gramas, arbustos, árvores e flores, com o mesmo olhar. (Ao voltar para casa, cheguei a fazer um funeral para uma violeta morta...)

Fui crescendo e percebi que a vida gosta de agitos. A ausência de movimento é morte. Tudo no universo gira, como se dançasse uma valsa, ou rodopia em espiral, como que trançando fitas em um poste de festa de São João. Os biólogos, os físicos e os astrônomos já nos mostraram que, do micro ao macro, sempre existe algo que se move: elétrons ao redor do núcleo atômico, luas em torno de seus planetas e planetas dando voltas em estrelas. Alguns movimentos, como a luz e o som, são perceptíveis a nossos sentidos; outros não. São giros, oscilações, órbitas, pulsos, ondas: uma infinidade de termos para diferentes estilos de dança.

Mas me parece que nenhum movimento tem mais ritmo que a vida. Até nosso coração, quando bate descompassado, entra em arritmia. E no meio de tanto encantamento ainda existem pessoas (e, assustadoramente, cada vez mais) que, ditas racionais, não respeitam a vida. São as que deixam barragens de lama romperem e matam por omissão; as que treinam para serem defensoras de determinada fé e matam por opção (para ganhar o paraíso!). Acho que esses assassinos, fanáticos religiosos ou não, nunca brincaram de roda. Tristes crianças adultas que só sabem brincar de descaso e ódio: as únicas brincadeiras que conheço que não têm riso, giro e nem rodopio; só descompasso, arritmia. E assim terminam, levando consigo a impressão de que viveram um dia.

[FONTE DA IMAGEM: Escultura de Sandra Guinle. “Ciranda mista”, 2003]


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Você já teve um professor ou professora? Então leia...

 

Não consigo mais falar, e tampouco escrever, sobre a vida de quem se propõe a ser professor(a). Gostei muito do que li no Observatório da Imprensa, escrito pelo Prof. Ricardo Santos. Aqui vai:

 

“Professor não tem vida fácil”

Por Ricardo Santos em 16/10/2015 na edição 872 do OI

“Ser professor no Brasil é um enorme desafio. O Brasil mudou muito nos últimos anos. Há cerca de cinquenta anos, a realidade da educação era outra. Os professores tinham boa remuneração, eram respeitados e valorizados pela sociedade.

Hoje, a carreira do professor vem se deteriorando ano a ano. Isso se dá em função de uma série de razões… Mais, além da desvalorização salarial, ele tem de lidar com a violência escolar e uma jornada de trabalho extremamente extenuante. É comum, ainda, muitos profissionais trabalharem em duas ou mais escolas.”

LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA:

FONTE DA IMAGEM: Maria Eugênia C. Amaral


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Programa do Concerto de André Matos Moreira

Data: Amanhã  10 de outubro de 2015 – sábado – às 20h.

Local: “Igreja do Relógio” – Igreja Presbiteriana do Brasil.

Endereço: Av. Marcelino Pires, 2233 – Dourados, MS.

Contato: (67) 3421-0381

ENTRADA FRANCA





terça-feira, 6 de outubro de 2015

“Perdido em Marte”, ciência e ficção com divertimento

O livro de Andy Weir é ótimo e o filme ― com Matt Damon, direção de Ridley Scott e um bom nível de fidelidade ao original ―, é muito divertido para quem gosta do gênero: ficção científica!


Eu, se fosse você, não perderia. Espia o trailer:



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Quem é André Matos Moreira?




Ele nasceu no dia 10 de outubro de 1984 e apaixonou-se perdidamente pela música aos quatro anos de idade, sem nem sequer entender que ela vinha de um piano. Essa paixão prematura foi observada por sua avó, Clarinda de Matos Moreira, que soube respeitar os desejos de seu pequeno neto e encaminhá-lo para receber aulas de piano clássico aos cinco anos, em Dourados, Mato Grosso do Sul, sua cidade natal.

Com o constante incentivo da família, em 2000, André Matos Moreira concluiu o curso de nível técnico em piano, em Campo Grande, MS, e aos 18 anos partiu para Goiás onde estudou, trabalhou em um conservatório e começou a firmar-se como pianista em parceria com um preparador vocal. Na época, dedicou-se também a produzir arranjos, compor e a dirigir gravações. Estudou durante cinco anos no Conservatório de Goiás, enquanto ministrava aulas de piano em Goianésia e Goiânia e dirigia um coro vocal em Ceres.

Voltou a Dourados em 2007 e tornou-se pianista auxiliar na Igreja Presbiteriana do Brasil – a “Igreja do Relógio”. Nesse ano participou de um concurso internacional de piano promovido pela Associação e Academia Musical Paranaense, concorrendo com cerca de 180 pianistas, em três fases eliminatórias, André obteve o terceiro lugar na fase final.

Em 2008 realizou um curso técnico de afinação e restauração de piano, em Campo Grande, com Albino Ferraz. Durante o Simpósio da Música Brasileira de 2009, em Campinas (SP) iniciou estudos de piano com ênfase em arranjo, improvisação e harmonia. Durante o ano de 2010, estudou regência e condução de coro e orquestra na Escola de Música do Instituto Adventista de Ensino (IAE), em Engenheiro Coelho, SP. Ao retornar para Dourados, no final de 2010, assumiu o cargo de pianista titular e regente do coro na Igreja do Relógio.

André realizou concertos em Ceres e Goiânia (2005), em Campo Grande (“Concerto de Natal”, 2008; “Homenagem à Música Popular Brasileira – Noite de Seresta”, 2009), Dourados (“Concerto Jovem”, 2009; “Concerto para dois pianos”, 2010; “Concerto para piano”, 2012; “Festival Douradense de Música”, 2014) e em Naviraí (“Recital de Piano”, 2014).

No período de 2013 e 2014, conduziu o projeto de canto coral do Hospital da Vida, em Dourados, para cerca de 20 funcionários. Outro coral também ensaiado e conduzido por André Matos Moreira foi o da congregação católica das Irmãs Clarissas, de 2014 até julho de 2015, também em Dourados. Atendendo a um convite do pároco, padre Crispim Guimarães, André foi o pianista da missa solene da reinauguração da Catedral Imaculada Conceição de Dourados, em junho de 2015.

Atualmente, André dedica-se aos seus alunos no “Espaço da Música” e à preparação de recitais e concertos de piano.

CONTATOS:
“Espaço da Música” – Av. Weimar Torres, 2447 – (67) 9225-5922
WhatsApp: (67) 9225-5922

Conheça mais sobre André Matos Moreira e seu trabalho:
·        https://vimeo.com/140156795
http://www.mariaeugeniaamaral.com/2011/11/um-menino-andre-matos-e-seus-desejos.html

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Concerto do pianista André Matos Moreira


O concerto terá peças eruditas dos compositores Bach, Handel, Mozart e Beethoven. Nele, o pianista apresentará minuetos, fugas e prelúdios de Bach, oratórios de Handel e concertos de Mozart e Beethoven, viajando pela música sacra e profana do período barroco ao período romântico.

Mesmo sendo realizado em uma igreja, o concerto não é religioso. A nave da “Igreja do Relógio” (como a Igreja Presbiteriana local é carinhosamente denominada) possui um belo piano de cauda e uma acústica excelente, condições ideais para esse evento. Cabe ressaltar que, cada vez mais, na Europa e em muitas capitais brasileiras, as igrejas têm sido utilizadas para concertos e recitais. Tal uso, amplia a visão de que as edificações destinadas para diferentes religiões, com suas acústicas especiais, também devem servir a comunidade com a música que, mesmo secular, é uma dádiva divina.

O concerto será iniciado pontualmente às 20h e terá duração de uma hora. O pianista convida a todos e solicita aos pais que não levem crianças que, com sua alegria e espontaneidade, possam interferir no som local.

Concerto Erudito – André Matos Moreira

Local: “Igreja do Relógio” – Igreja Presbiteriana do Brasil

Data: 10 de outubro de 2015 – sábado – às 20h

Endereço: Av. Marcelino Pires, 2233 – Dourados, MS

Contato: (67) 3421-0381

Entrada franca




sábado, 29 de agosto de 2015

Jesús Armand Chapa-Malacara, um fotógrafo do movimento




Fotografar é sempre um belo prazer. E a beleza em movimento pode ser apreciada pela dança. O fotógrafo Jesús Armand, em seu projeto “Dance prints”, através de clics realizados com longas exposições, captura o movimento congelando todas as suas etapas em uma única imagem. E cada imagem é mais encantadora do que a outra.

Aprecie suas fotos acessando



domingo, 12 de julho de 2015

“A poesia” de Manoel de Barros

Na voz do saudoso Abujamra, gravado do seu programa Provocações, na TV Cultura:

A poesia! A poesia está guardada nas palavras, é tudo que eu sei.
Meu fado é não entender quase tudo; sobre o nada eu tenho profundidades. Eu não cultivo conexões com o real. Para mim poderoso não é aquele que descobre o ouro; poderoso pra mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas. Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Chorei. Eu sou fraco para elogios.

Autor: Manoel de Barros




sábado, 20 de junho de 2015

Por um fio...


O inverno habitualmente me transporta para longe. Viajo no tempo e vivencio memórias que me... deprimem. Nunca entendi direito esse estado de espírito. É como se na ausência de calor o corpo contraído desdobrasse áreas normalmente revolutas, expondo lembranças que se escondem sob o sol de verão. E assim, como que geridas por períodos ciclotímicos, algumas frentes frias desnudam dores e tristezas arquivadas.

A lembrança dele veio com força nesta manhã. Acordei ao som de uma viola de cocho e fui invadida pela imagem de seu rosto de traços fortes. Lembrei-me do dia que lhe perguntei a origem de seu nome artístico e me respondeu: “Juntei o JO, o RA, o PI e o MO das iniciais do meu nome, muito longo para assinar uma tela, e criei o JORAPIMO”.

Esse era o corumbaense José Ramão Pinto de Moraes (1937-2009), por quem nutri forte afeto e admiração desde que o conheci no final dos anos 70, “ocupando uma cela” na desativada cadeia pública que, reformada, passou a abrigar a Casa do Artesão em Corumbá. E Jorapimo manteve um ateliê por lá. Devidamente pinçada pela força e beleza de sua pintura focada no universo pantaneiro, tornei-me sua colecionadora (modesta, mas fiel). A paixão pelo Pantanal nos aproximou. Fiquei conhecendo seus projetos de educar crianças pela arte e pela ecologia — o “Arte na Praça” em Corumbá e as elaboradas tirinhas para jornais, estas com personagens defensores do meio ambiente: Evinha, uma cobra e um menino ribeirinho. Muitos sonhos. Alguns materializados, outros não a tempo.

Jorapimo tinha orgulho de sua obra e vivia dela. Neste país nem é necessário dizer quão difícil foi viver assim. Acometido de grave insuficiência renal, passou seus últimos anos deprimido pelas dificuldades físicas e financeiras para continuar pintando. A última tela que me entregou, com meu nome escrito no verso, me cortou o coração: nela um violeiro tomava forma com muitas cores, em um evidente aproveitamento de restos de tintas, com uma viola de cocho de uma corda. Brinquei: “Que violeiro é esse que toca com uma corda só?”. Ele de pronto respondeu: “É uma corda verde. Minha esperança de melhora.” Mas a melhora não veio e o final de sua vida foi por demais dolorido. E nem me refiro à dor física, mas àquela de quem passa pela degradante peregrinação de usuário do sistema de saúde pública.

Hoje sua imagem ficou comigo, ao longo do dia, mesmo quando o frio arrefeceu e o sol ficou forte. Percebi que muitas coisas, próximas e distantes de mim, estão cada vez mais sem esperanças.

A noite caiu e senti a presença de um fio. Um único e tênue fio de esperança.


FONTE DA IMAGEM: A tela de Jorapimo!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Com ou sem legendas?



Para quem gosta de cinema, bons filmes permitem o envolvimento dos sentidos e transportam o espectador a dimensões inexploradas no mundo real. Com a cumplicidade da penumbra, o riso fica fácil, o choro extravasa sem medo, o olho entreaberto espia pelos vãos dos dedos e a gargalhada pode encher o ar. Pavor e nojo, desejo e prazer são revelados sem pudores.

Mas, apesar da atual disponibilidade de filmes, do medíocre ao insigne, para todos os tipos de público, o espectador que prefere som original está perdendo espaço. Os cinemas estão lotados de filmes dublados.

Tento imaginar qual é a vantagem em assistir um filme sem ter acesso à totalidade da interpretação dos atores e atrizes. Dedicam horas, dias, talvez meses em busca da nuance de voz planejada. Ensaios e mais ensaios para adequar o timbre, o sotaque, a entonação desejada para o personagem... E tudo isso é jogado fora com a dublagem.

Por outro lado, concordo que existem bons dubladores. Mas serão eles capazes de produzir a mesma expressividade da voz original? Li dezenas de opiniões sobre os “prazeres” de assistir uma película dublada, tais como: “Se leio as legendas acabo perdendo imagens do filme”, “Prefiro dublado para ver as cenas de ação”, “Você não se perde e nem se distrai com a legenda”. Honestamente, nenhum dos comentários me convenceu, a não ser para filmes (bem) infantis. Em resumo: filme dublado é bom para criança pequena, que ainda não sabe ler. Estendo o mesmo argumento para adultos: filme dublado é bom para quem não lê, seja por não saber de vez ou por não conseguir fazê-lo com agilidade suficiente para acompanhar a velocidade das legendas uma lamentável falta de prática. Lê melhor, com mais rapidez e capacidade de compreensão, quem lê sempre. E essa triste limitação acaba ditando a medida do mercado, com cinemas oferecendo filmes dublados para um público cada vez maior de leitores enferrujados.

Além disso, sem estímulo à leitura, cada vez menos espectadores terão a experiência, no caso de filmes baseados em obras literárias, de sair do cinema comentando se o livro é, ou não, melhor. Esse deleite está ao alcance apenas de quem não evita o universo que a leitura proporciona.

Gostaria de dispor de mais filmes legendados, não por simples questão de gosto, mas pelo prazer em ouvir a insubstituível interpretação vocal que vem com o som original. E torço (muito!) para que mais e mais brasileiros tenham condições de viver outra realidade: ler prazerosamente, inclusive no cinema.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Medos e monstros




A noite caía escura como breu. Nada se via no céu, além de algumas minguadas estrelas e uma nesga de luz da lua nova. Fui dormir bem cedo, pouco depois de as galinhas se aquietarem em seus poleiros. Após aquele dia na fazenda ― correndo atrás da bezerrada, pegando laranja no pé e ralando o joelho no centésimo tombo da semana ―, tamanha era minha canseira que cheguei ao quarto e não deitei. Desmaiei.
Acordei no meio da noite, na mais completa escuridão, com respingos de água morna em meu rosto. Fechei os olhos molhados, prendi a respiração, assustada, e fiquei alguns segundos quieta, tentando entender o que estava acontecendo, morrendo de medo de abrir um olho sequer. E a água voltou a respingar sobre mim, escorrendo sobre meus lábios. Um gosto amargo me aterrorizou. Não faço ideia de quanto tempo fiquei ali, sem mexer um músculo, paralisada de pavor. E a água continuava a cair, lentamente. Quanto mais eu pensava, mais medo sentia. Nada, nadinha de nada que eu conhecesse neste mundo podia explicar o que estava acontecendo. Era uma noite fria e aquela “água” era morna. Como era possível? Apurei os ouvidos e constatei que não chovia ― nem uma garoinha sequer. Não era goteira.
Aos poucos, com o corpo inerte e a mente acelerada ao máximo, exausta por respirar tão mal, uma única e aterrorizante verdade se apossava de mim: pendurado no teto de madeira, a pouca distância de meu rosto, um monstro imenso, com boca escancarada, deixava sua baba morna escorrer. Meu estômago ficava embrulhado só de imaginar e meu corpo inteirinho começava a doer. Então tomei a decisão: ele pode me devorar, mas antes eu vou gritar. E gritei: “Paiiêêê!”.
No dia seguinte, o cano de cobre do reservatório de água quente foi consertado. Por sorte, o fogão a lenha tinha sido pouco usado e a água da serpentina não se aquecera demais. Além disso, a noite fria ajudou a tornar apenas morna a água da caixa.
Mas as semanas seguintes foram tensas. Apesar da constatação da realidade, sem monstros visíveis, as noites ainda me perturbavam. Com o tempo, porém, fui me tornando cética. Passei a duvidar de qualquer ameaça estranha e comecei, desafiadoramente, a vasculhar a escuridão e as sombras até iluminá-las. Literalmente, jogar luz sobre o medo! Foi assim que aprendi a destruir os monstros que se atrevessem a aparecer.
Por vezes, em situações tensas, ainda fico paralisada. Mas hoje me controlo mais facilmente e começo a pensar. E o pensamento, tal qual a luz, esclarece!
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Crônica extraída de meu livro “Celebrando dezembro, janeiro, fevereiro...”, Editora Letra Livre, Campo Grande, MS, 2014.

FONTE DA IMAGEM: Foto de minha autoria.


sábado, 28 de março de 2015

Hora do Planeta!

Seja como for... em casa, na rua, na oficina, com amigos ou desconhecidos, vale a pena pensar e agir por ele: nosso único planeta. Sem reposição, devolução e tampouco reclamações posteriores.


sexta-feira, 20 de março de 2015

O Pantanal e sua história na pintura sul-mato-grossense


Sensibilizar e despertar consciências de professores, gestores, trabalhadores da educação, alunos e comunidades envolvidas com as escolas sobre questões ambientais contemporâneas. Este é o objetivo do projeto Águas que Educam, lançado como parte do Programa Rede, da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação e que traz nesta semana para a Cidade Universitária da UFMS oficinas de formação, exposição de obras de arte e espetáculo musical.

Iniciadas nesta segunda-feira (17), as atividades começaram com a exposição de obras de artistas plásticos de MS, intitulada O Pantanal e sua história na pintura sul-mato-grossense, Proposta e organizada pelo Prof. Dr. Gilberto Luiz Alves, a exposição retrata a história, a evolução econômica e as consequências da colonização no Estado, expressos em obras produzidas ao longo de cinco décadas e que utilizaram a água como elemento de ligação. Participaram da exposição os artistas: Adilson Schieffer, Anelise Godoy, Cecílio Vera, Daltro, Fujita, Humberto Espíndola, Ilton Silva, Isac Saraiva, Jonir, Jorapimo, Lelo, Marlene Mourão, Silvio Rocha, Tom Barbosa, Vera Jane e Xavier. As obras podem ser conferidas no Teatro Glauce Rocha.

FONTE DA IMAGEM E DO TEXTO: site da UFMS - http://www.ufms.br/events/view/id/1064


quarta-feira, 11 de março de 2015

BLUES: John Lee Hooker – one bourbon, one scotch, one beer


Três doses de blues, com boas imagens...


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Por que somos ou não somos obesos? Essa é a questão.


Meus avós amavam uma criança rechonchuda. Apertavam-lhe as bochechas e comentavam: “Ela está ven-den-do saúde!”. Era um grande elogio. Os pais, orgulhosos, agradeciam. A avó de um amigo dizia “gordura é formosura” e, não podemos esquecer, havia concursos nacionais de robustez infantil. Acho que se elogiava a gordura, sim. Depois de séculos de fome e duas guerras mundiais, era sinônimo de vida. Era o reconhecimento de que havia fartura e boa mesa na família. Se bem que sou tentada a acreditar que meus avós não estavam meramente elogiando a rechonchudez. Afinal, todos sabiam que a criança estava em crescimento e que não lhe faltariam oportunidades para gastar, e muito, toda aquela energia tão roliçamente acumulada. Com certeza eram outros tempos, com ruas largas e livres para correr, árvores para subir, enxurradas para deslizar, quintais para se esconder e toda a vizinhança para explorar.

Passei minha infância assim, como um azougue. E talvez por isso, e por ter sido muito “arteira”, não fui uma criança obesa. Ao contrário, era tão magra (para os padrões familiares) que passei por poucas e boas, tomando insuportáveis colheradas diárias de Emulsão de Scott (feita com óleo de fígado de bacalhau), que, nos anos 50, não maquiada com sabores laranja ou morango, tinha gosto de... óleo de fígado de bacalhau. E era rigorosamente receitada pelo médico da família para evitar desnutrição e auxiliar a assimilação de vitaminas. Sem saber como nem por que, mantive-me magra. Mas cheguei à adolescência, os hormônios mudaram, minha tireoide entrou em disfunção e comecei a substituir, mais e mais, correria por sedentarismo. Não deu outra: grande parte de minha vida adulta transformou-se em uma luta insana contra a obesidade.

Foi o preço de minha genética, do acesso fácil, cômodo e tentador à fast (and junk) food e de abandonar a lúdica atividade física. Perdi o prumo e a saúde. Foi nessa época (que felizmente já pertence ao passado) que ouvi horrores sobre “ser gorda”. Muitas pessoas, sem nenhum constrangimento, rotulavam minha vida como preguiçosa, sem força de vontade, indolente. E as piadinhas, os olhares, o desprezo... Ser gorda era ser pária social. (E, cá entre nós, continuo acima do tal “peso ideal”, mas estou saudável, com todas as taxas dentro de padrões de normalidade, e muito feliz, em paz com a balança.) Mas percebo até hoje, e por vezes ainda na própria pele, como os obesos são tratados preconceituosamente. Com certeza, por maldade ou pura ignorância.

Cada vez mais a ciência vem esclarecendo a intrincada rede de causas e efeitos que levam à obesidade, tais como os fatores já bem conhecidos de sedentarismo e má alimentação. São tantas as novidades que, até recentemente, achava-se que o tecido adiposo era tão-somente um depósito de gordura que o corpo acumulava e que poderia usar como reserva energética caso necessitasse. Pois bem: sabe-se hoje que esse tecido é a maior glândula endócrina do organismo. Quem diria? Nossa gordura corporal, que é muito aumentada na obesidade, produz dezenas de hormônios, entre eles a lepitina, o hormônio que reduz o apetite. Li em uma entrevista com o Dr. Bernardo Leo Wajchenberg, renomado endocrinologista, que “quanto mais gordura, maior a produção desse hormônio que age no cérebro e faz diminuir o apetite. O obeso, porém, que tem muita lepitina; desenvolve resistência a ela. Se não fosse assim, ninguém seria gordo.” (É sempre a mesma história... Excesso e escassez só servem pra complicar a vida.)

Mais recentemente, a comunidade científica fez outras descobertas sobre a obesidade: trata-se de uma doença em que estão envolvidos múltiplos genes ― e muito pouco ainda se sabe sobre quais e quantos são e como eles agem ―, além de modificações na flora intestinal, que podem facilitar o ganho de peso. (Agora sim, complicou pra valer...)

A tal parte hereditária eu conheço bem. Se você não é magro e não tem um amigo magro, talvez não saiba o que é isso. Tenho uma amiga assim, uma meiga e doce professora que odeia (e não pratica) atividades físicas. Eu a acompanho há anos e nunca a vi ganhar um graminha de peso. Ela come com o apetite de um peão de obra que carregou cimento o dia todo. E repete o prato, uma, duas vezes. Não dispensa sobremesa, toma cafezinho adoçado com tanto açúcar que causaria coma em diabéticos, faz boquinhas entre as refeições, adora balinhas e salgadinhos e todo tipo de frituras. E é tão magra que chega a preocupar, apesar de ser saudável. Tem um metabolismo fabuloso, que queima praticamente todas as calorias ingeridas, e seus genes são dignos de serem estudados.

Mas, voltando aos pobres mortais que precisam estar atentos ao que comem e a como comem (ou seja, eu), acredito cada vez mais que, uma vez gordo, sempre gordo! Explico: não basta emagrecer; seu cérebro já registrou o peso a que você “pode” chegar. Ou seja, é como no caso de tratamentos a quem já foi drogado. Permanecer magro é a mesma história de "estou abstêmio há x dias." A comparação é forte, mas, no caso, a “droga” é a “comida”.

Vamos por partes. Encontrei um artigo do Dr. Drauzio Varella que explica bem a situação. Selecionei alguns trechos:

“A visão atual compara a neurobiologia da obesidade à da compulsão por drogas, como cocaína ou heroína. Quando a fome aperta, hormônios liberados pelo aparelho digestivo ativam os circuitos cerebrais de recompensa localizados no núcleo estriado. Essa área contém concentrações elevadas de endorfinas, mediadores ligados à sensação de prazer. À medida que o estômago se distende e os alimentos progridem no trato digestivo, há liberação de hormônios que reduzem gradativamente o gosto que a refeição traz, tornando os alimentos menos atraentes. Os hormônios que estimulam ou diminuem o apetite agem por meio do ajuste fino dos prazeres à mesa. Carboidratos e alimentos gordurosos subvertem essa ordem. São capazes de excitar sensorialmente o sistema de recompensa a ponto de deixá-lo mais resistente aos hormônios da saciedade. Esse mecanismo explica por que depois do terceiro prato de feijoada, já com o estômago prestes a explodir, encontramos espaço para a torta de chocolate.”

“Na obesidade, os circuitos de recompensa respondem mal à presença de alimentos no estômago, exigindo quantidades cada vez maiores para disparar a saciedade. Pessoas obesas precisam comer mais para experimentar a mesma sensação de plenitude acessível com quantidades menores às mais magras.”

“Como defende Paul Kenny, do Scripps Research Institute, da Flórida: ‘A obesidade não é causada por falta de força de vontade. Como nas drogas causadoras de dependência, a compulsão pela comida provoca um feedback nos centros cerebrais de recompensa: quanto mais calorias você consome, mais fome sente e maior é a dificuldade para aplacá-la.’ Essa armadilha não lembra, de fato, a que aprisiona dependentes de nicotina, cocaína, álcool ou heroína? O efeito sanfona não é comparável às recaídas dos usuários dessas drogas? Faz sentido: a evolução não criaria um sistema de recompensa para cada forma de compulsão.”

“Durante milhões de anos, a sobrevivência de nossos ancestrais esteve ameaçada pela escassez de alimentos. Como ativar a saciedade era preocupação secundária, a seleção natural privilegiou aqueles dotados de circuitos cerebrais mais eficientes em estimular a fome do que em suprimi-la. Os avanços da culinária, a fartura, a disponibilidade de alimentos industrializados ricos em gorduras e carboidratos, os sucos, refrigerantes, biscoitos e salgadinhos ao alcance das crianças, a cultura de passar horas à mesa e a vida sedentária criaram as condições ambientais para que a epidemia de obesidade se disseminasse.”

E cá estamos, lutando ferrenhamente contra o que nos levou a ter sucesso evolutivo ― comer sempre que pudermos ― em uma batalha em que não há inimigos reais; somente a química de seu próprio corpo.

Por que somos ou não somos obesos? Essa é a questão que um dia eu adoraria responder objetivamente.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

“Brazil”. Meu Brasil brasileiro...


Um estrondo abala o edifício e todas as vidraças são estraçalhadas por uma bomba de fabricação caseira. Na TV, o repórter pergunta ao Ministro de Informações:

— O que o senhor acredita que está por trás dessa escalada de verdadeiros ataques terroristas?

— Falta de espírito esportivo — responde o ministro. — Uma insignificante minoria parece ter esquecido certas virtudes dos velhos tempos. Não suportam ver a vitória dos outros. Se essa gente entrasse no jogo, teria uma vida muito melhor.

E o repórter comenta:
— Mas, ministro, dizem que o Ministério de Informações é muito grande e pouco flexível. Informação é o nome do jogo. Não se pode ganhar se for limitado. E o custo de tudo isso é 7% do PIB.

— Entendo a preocupação do contribuinte — o ministro responde. — Ele quer ver seu dinheiro valorizado. Por isso, insistimos no princípio de recuperação de informações. É correto e justo que os considerados culpados paguem por sua detenção e pelos procedimentos usados pelo departamento em seus interrogatórios.

— E o governo está vencendo essa guerra? — questiona o repórter.

— Sim! — diz o ministro. — Nossa moral é alta. Estamos revidando os ataques, eliminando-os totalmente. Eles estão acabados.

E o repórter retruca:
— Mas... são 13 anos de ataques de bombas!

— Sorte de principiantes! — conclui o ministro.

Essa surreal entrevista está nos primeiros minutos de Brazil, uma produção britânica que estreou nos cinemas da Europa em fevereiro de 1985, e que me parece absurdamente atual, por inúmeras razões. Se você (nunca) ouviu falar nesse filme, aqui vão algumas informações:

O diretor, Terry Gilliam, que também assinou o roteiro com Charles McKeown e Tom Stoppard, foi um dos mais ativos integrantes do satírico grupo inglês Monty Python (só para lembrar: “O Sentido da Vida”, “A Vida de Brian”, “Monty Python em A Busca do Cálice Sagrado”). Tendo “Aquarela do Brasil” como tema principal, a trilha sonora explora lindamente, mas quase no limite da exaustão, a composição de Ary Barroso.

[A propósito: o filme original, com opção de legendas em português e duração de duas horas e 16 minutos, está disponível em http://youtu.be/XmSBtDLgBSQ]


Sucesso de crítica na Europa, e fracasso de bilheteria no Brasil, Brazil já foi descrito como um drama, uma grande comédia, uma fantasiosa crítica sobre a sociedade burocratizada, um filme de aventura, ficção científica e uma sátira distópica.

Confirmo todas as descrições, do drama à sátira. Os limites de nonsense são rompidos tantas vezes em Brazil, que o filme acaba por se encaixar, tranquilamente, nas mais diferentes visões. Mas nenhuma é tão perfeita como a antiutopia, por mostrar a vida sob condições de extrema opressão, desespero e privações. É impossível não associar Brazil com outras distopias imortalizadas na literatura por dois escritores ingleses: “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley (1894-1963), e “1984” de George Orwell (1903-1950). (Este último é o livro em que figura o “personagem” chamado Big Brother, que obviamente não tem nada a ver com a bobagem global do Big Brother Brasil.)

Terry Gilliam (que também dirigiu “Os 12 Macacos”) colocou em Brazil um clima noir em um regime totalitário, tão absurda e violentamente burocrático, que todos, todos mesmo (desde o garçom até o eletricista, o motorista e qualquer outro prestador de serviços, e mesmo o censor e o torturador), vivem soterrados sob papéis, carimbos, recibos e formulários.

O filme tem passagens inesquecíveis, como a de um jantar entre amigas em que os sofisticados pratos são identificados, rigorosamente, por números e são todos idênticos a bolas de sorvete com cores repugnantes. Durante o jantar, um grupo de “terroristas” (contrários ao regime) adentra o restaurante explodindo mesas e machucando pessoas. Toda a cena é então prontamente coberta por coloridos biombos, trazidos por um atarefado maître, enquanto as amigas, alheias a tudo, continuam a conversar animadamente sobre a mais recente técnica de cirurgia plástica facial. Por sinal, o filme é fantástico na representação de alienações. Sonhos, delírios e uma tremenda confusão entre realidade e fantasia são o fio mestre de Brazil.

Pouco se falou sobre a identidade do filme com o verdadeiro país, Brasil. Na época do lançamento, 1985, havia várias correntes, desde a mais pueril, baseada no título e na trilha sonora; passando pelos sarcásticos gozadores, que viam o crescente mercado de cirurgia plástica do país representado no filme pelas hilárias cenas em que poderosas senhoras idosas deformavam seus rostos na busca de uma pele jovem; até a corrente dos céticos (ou seriam realistas?), que viam uma perfeita identidade entre a sátira do filme e a realidade do Brasil, que passara pelo então recente sistema opressor da ditadura militar.

Delações premiadas, documentos que desaparecem no caótico Ministério das Informações... Os heróis, ou anti-heróis, são Sam e Jill no filme, lúcidos e delirantes, mas poderiam ser Venina, Graça... ou quem melhor representasse a realidade do país. Realidade? Faz tempo que não passa nenhum filme sobre isso. Nem me lembro mais...
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FONTE DA IMAGEM: Divulgação do filme Brazil.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quem somos eu?

  

A pergunta é exatamente esta: “Quem SOMOS eu?”. (O revisor, é verdade, chegou a ficar confuso no início.) Com certeza, a única estranheza no título vem de nossa língua portuguesa e suas boas regras de concordância verbal. Mas vamos por partes.

Um artigo do periódico Popular Science, publicado em 2011, revelou que as bactérias presentes em nosso organismo superam de 10 a 1 o número de células de nosso corpo! Mas, “pelo fato de serem muito menores que as células humanas, elas corresponde a apenas cerca de 1 a 2% de nossa massa corporalembora totalizem quase metade de nossas excreções sólidas”, explicou a doutora Lita Proctor, coordenadora do Projeto Microbioma Humano (do Instituto Nacional de Saúde, nos Estados Unidos), estudo este que focaliza as comunidades bacterianas que vivem sobre nossa pele e dentro de nós.

Os exércitos de bactérias que levamos conosco não haviam sido adequadamente catalogados até recentemente. Em julho de 2011, na Universidade do Estado da Carolina do Norte, o Belly Button Biodiversity Study (curioso objeto de pesquisa, já que o nome significa, literalmente, “Estudo da Biodiversidade do Umbigo”) identificou cerca de 1.400 diferentes variedades de bactérias vivendo nos umbigos de 95 participantes. Destas, 662 eram até então desconhecidas.

Uma interessante reação a nossos “hóspedes”, voluntária ou involuntariamente adquiridos, começou então a ganhar corpo na internet: uma nova entidade sem fins lucrativos chamada “Meus Micróbios”http://my.microbes.eu/ — propõe-se a conectar pessoas em rede social com o exclusivo propósito de conversarem e trocarem experiências sobre bactérias, especificamente as gastrointestinais.

O site http://hypescience.com/ também publicou os resultados de outras pesquisas sobre nossas mais íntimas relações com essa parafernália de vida microscópica. Selecionei os trechos mais instigantes:

“Não há absolutamente nada de errado com seu corpo, formado por várias células. Disso você já sabia. O que talvez você não saiba é que, para cada célula do seu corpo, existem outros 10 organismos que são essenciais para o desempenho de várias funções que o nosso sistema necessita. Existem cerca de 100 trilhõesvamos repetir: 100 trilhões!de organismos vivendo sobre ou dentro de você neste momento. Eles entram por sua boca, nariz, ouvidos e por qualquer outra entrada de seu corpo. Ou seja, aquilo que você considera ser você é apenas uma fração do que realmente é... você. Nós chamamos este sistema de seres vivos morando em nós de microbiota. Estas pequenas criaturas contêm cerca de 22 milhões de genes, com seus próprios DNAs, que não só permitem que elas existam, como também são fundamentais para vários processos do nosso corpo. Elas auxiliam na digestão, mantêm o sistema imunológico saudável e controlam nossa fome, ajudando a nos fazer sentir ‘cheios’. Elas até mesmo podem alterar nosso humor. Ratos criados em ambientes esterilizados, não expostos a estes micro-organismos, respondem de forma menos efetiva a estímulos de estresse do que ratos normais.”

E o Hypescience continua... surpreendentemente: “Você já ouviu falar em ‘transplante de fezes’? Acredite, é uma coisa real e muito eficiente. Algumas doenças são causadas por microbiotas com pouca diversidade, o que deixa o indivíduo suscetível a infecções. As fezes de uma pessoa saudável são transferidas diretamente para o intestino da pessoa com poucos micro-organismos. Os novos habitantes recolonizam o local e deixam tudo bem novamente. Esse tratamento é usado com mais frequência quando alguém toma algum antibiótico que acaba matando uma parte grande demais da microbiota. Os cientistas inclusive descobriram que ratos obesos que receberam microbiota de ratos magros incrivelmente perdem peso de forma mais eficiente, mesmo que as suas dietas fossem mantidas inalteradas. Os micro-organismos que vivem em nós são tão significativos, de várias maneiras diferentes, que se cogita que, no futuro, os médicos não irão mais nos diagnosticar, mas sim diagnosticá-los.”

“Embora apenas 10% de você seja você, você tem um papel importante em relação a seu corpo. Porque, na verdade, você pode mudar os outros 90%. Tudo o que você come afeta sua microbiota. Comidas que possuem prebióticos e probióticos, por exemplo, introduzem novas e saudáveis bactérias, que podem ajudar as velhas a funcionarem. Por outro lado, os ‘nuggets’ de frango que você adora ou quaisquer outros alimentos processados são tratados com produtos químicos que matam as más bactérias, mas que possuem o infeliz efeito colateral de matar as suas bactérias boas também. Pessoas que vivem no lado ocidental do planeta, na verdade, possuem uma microbiota muito menos rica do que pessoas em outras culturas sem o costume comer alimentos processados. Isso acontece não só por causa deste tipo de dieta, mas também pelo uso frequente de antibióticos e sabonetes antibactericidas. Esses costumes ocidentais também podem explicar por que existem muito mais casos de alergia e de doenças autoimunes neste lado do planeta.”

As revelações sobre a diversidade de vida que vive dentro de nós e que, em grande parte, nos controla (pelo menos fisiologicamente), têm feito um rebuliço em nossa desavisada mente, tão habituada à ideia, e a uma profunda sensação, de individualidade. Vamos então refletir, com “nosso” cérebro, sobre o significado de “eu sou”:

O mestre Antonio Houaiss esclarece que “ser” denota “ter identidade, característica ou propriedade intrínseca”, como exemplificado em a Terra é esférica” ou o homem é um animal racional”. Já o pronome “eu” é usado “por aquele que fala ou escreve para se referir a si mesmo, quando gramaticalmente é o sujeito da oração” e também para designar “a individualidade da pessoa humana” e, por extensão, a “forma assumida por uma personalidade num momento dado” (como em “meu eu de outrora não mais existe”). Mais revelador de nossa cultura ocidental é que a palavra EU, ainda segundo Houaiss, designa a “tendência de um indivíduo a não levar em consideração senão a si mesmo; egocentrismo; egoísmo, narcisismo”.

Nosso dicionarista é esclarecedor: “Meu eu de outrora não mais existe”. E basta de divagações por hoje. Definitivamente, somos não só eu, mas também o outro e muitos mais...

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FONTE DA IMAGEM: autorretrato de Nadia Wicker


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Para sair de uma urucubaca...




Recentemente fiz uma experiência, inadvertidamente, sobre o papel de pessoas que considero como raras. São as amigas e os amigos. Uma presença muito forte em minha vida e, consequentemente, um tema inesgotável em minhas crônicas.

Tudo começou com conversas, e-mails e whatsapps sobre acontecimentos recentes — furtos, doenças, mortes, explorações financeiras e até pequenos, mas devastadores, mal-entendidos. Quando percebi, eu havia me deixado envolver a tal ponto pelos eventos, que estava sendo soterrada sob uma onda de energia muito ruim. Com falta de ar e assustada, pedi socorro.

Recebi conselhos, orações e receitas de todos os tipos. Algumas não muito publicáveis; outras sim, como estas:

“Reze, amiga. Reze sempre!”

“Já experimentou a Veuve Clicquot brut? Fantástica. Caríssima, mas não dá nem sombra de ressaca rsrsrs e o mundo fica melhor.”

“Lembre-se que o Senhor dá fardos de acordo com os ombros de quem os recebe!”

“Para de lengalenga e vai encher a cara. Nenhum FDP vai ficar te incomodando depois de uma dúzia de cervas estupidamente geladas. Tudo isso é esse calor infernal.”

“Toda noite, ao deitar, faça orações para seu anjo da guarda que ele irá protegê-la. Diga, com muita fé: Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a vós me confiaste a providência divina, guardai-me, iluminai-me, amém!”

“Sai dessa, mulher! Você é mais forte que esse clima do mal. Vai tomar quatro banhos de cachoeira e, durante sete dias, use sal grosso nos quatro cantos do seu quarto.”

“Fiz oferendas para Iemanjá na passagem do ano e pensei muito na nossa amizade. Não se esqueça que você é uma querida filha dela, um tipo muito maternal. Você precisa aprender a se fechar para maus espíritos por que a porta da sua casa está sempre aberta para acolher junto de si todos que a procuram. Mas Iemanjá protege suas filhas. Vou fazer um trabalho de descarrego pra você. Seus caminhos ficarão desimpedidos.”

“Já te disse que odeio essa distância entre nós. Mas hoje já temos a Azul, a Arvoredo... ou é Passaredo... kkkk... até o Rio e depois pegue um voo e venha pra cá. Tem promoções da Lufthansa. Vamos tomar chocolate quente com rum em frente a lareira e rir. Estou com saudades das suas gargalhadas.”

“Existem fases em nossas vidas que tudo parece que vai desmoronar. Não creia nisso. Você passou por muitos (piores) obstáculos. Fique tranquila que daqui faremos vibrações para você. Mas não se entregue. Abração.”

“Saia para andar descalça, pisando na grama. É muito bom.”

“Cante, bem alto, no final da tarde: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Esse antiquíssimo mantra é uma invocação de amor e devoção.”

“Não reprise mentalmente os episódios. Vá para um local aberto, pegue um copo com água e outro vazio e verta a água de um para o outro, para arejar, umas 20 vezes ou quanto sentir que deva. Depois tome a água. Não se ocupe de notícias negativas. Evite mentalizar críticas ruins. Elas drenam sua energia e te deixam vulnerável. Vigie toda reação ou postura mental que te tire do eixo. O que está sem eixo fica à mercê. Se não souber com o que se ocupar hoje, veja coisas bonitas, leia poesia inspiradora...”

“Use floral de Bach.”

Somente hoje notei que meu grito de desespero foi respondido carinhosamente por amigos ateus e espiritualizados, praticantes de diversas religiões — budista, católica, muçulmana, umbandista, presbiteriana e kardecista. Literalmente, uma legião ecumênica. Diante de tanta intolerância religiosa rondando as pessoas, me senti resgatada e inundada por uma forte luz de discernimento. Como é bom perceber que nenhuma venda me cobre os olhos.

Mas depois fiquei pensando na pretensão de “nenhuma venda”. Sou uma aprendiz na vida, uma tola inexperiente em questões espirituais, nem sempre humilde. Entretanto, até onde posso enxergar no momento, estou liberta de antolhos e amo pessoas de diferentes tipos e crenças, não apesar disso, mas também por isso. O importante é que as conheço bem, há muitos e muitos anos. Elas são boas no que fazem, conseguem manter diálogos inesgotáveis, são inteligentes, divertidas, sérias, irônicas, companheiras e, principalmente, não fazem, voluntariamente, mal a ninguém.

Acordei inundada de azul, sorrindo, com a alma leve como há tempos não sentia. Só me resta dar graças à minha legião de benfeitores e cantar, como Emmanuel Marinho em seus versos: “Amigo é bom. Amigo é tão bom!”.
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FONTE DA IMAGEM: http://conexaopromessa.com.br/

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

E ainda estamos em janeiro!

 

Não sei se é somente impressão ou se há um clima de intranquilidade, com algo estranho e pesado no ar. A sensação é de que faz um tempão que o ano começou. Nem dá pra acreditar que mal e mal se foram duas semanas somente. E, para piorar minhas caraminholas premonitórias, uma avalanche de acontecimentos está soterrando as expectativas de um feliz 2015.

Nas primeiras horas do dia primeiro, um acidente enlutou uma das famílias que estava na festa em que celebrávamos o ano novo. Uma daquelas tragédias que deixam marcas para sempre. E as fatalidades continuaram... Sem tantas dores e tristezas, mas com contato direto com uma das piores faces humanas — a hipocrisia —, fui envolvida em um desgastante caso de furto, que se arrastou por dias, até que a ladra caiu em uma armadilha e foi pega em flagrante, abandonando rapidamente a prova envolta em um pano de limpeza, sujo. Uma irônica analogia ao ato. Assistir ao desenrolar da farsa, ao abuso da confiança de uma idosa, e ver o cinismo final, com cena de choro ensaiado, me deixou com um estranho gosto de fel na garganta, talvez pela vontade, reprimida, de xingar a simpaticíssima e gentil pessoa que se revelou tão cínica e perigosa em poucos dias. Que começo de ano!

Como se não bastassem os maus augúrios dos acontecimentos locais, o mundo ficou muito mais sujo e mal-humorado no último dia 7, com o brutal assassinato de 12 pessoas no atentado ao jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris. Não há justificativa, sagrada ou profana, de forma alguma, mas me pareceu um ato há muito tempo anunciado. Afinal, radicais, descrevam-se eles como religiosos ou não, são radicais! E nunca vi um radical ter bom humor e tampouco, principalmente tampouco, rir de si mesmo.

Voltei no tempo e reli um irretocável artigo, intitulado “Qual é a graça? Um manifesto”, que o jornalista Alberto Dines publicou no “Observatório da Imprensa” em 25 de setembro de 2012. Aqui vão alguns trechos:

“O homem é o único animal que ri e este particularismo faz do humor um tema da maior seriedade. Sócrates, São Tomás de Aquino, Immanuel Kant debruçaram-se sobre as diferentes formas de humor, mas Sigmund Freud parece ter encontrado a melhor interpretação — ou, pelo menos, a mais política — ao constatar que o riso é resultado da remoção de uma censura interna. Alívio.

O riso é libertário. Impossível suprimi-lo, sufocá-lo. Graças ao riso o rei infalível aparece nu, inexpugnáveis muralhas mostram-se feitas de barro e vilões mal-encarados ficam ridículos sentados na privada. Comédias derrubaram déspotas ainda no império romano, sátiras desarmaram a ignorância da Inquisição portuguesa, os pequenos pasquins do Renascimento sugeriram piadas que de outra forma não poderiam ser engendradas. [...]

Caricatura vem do italiano ‘caricare’, carregar, exagerar, buscar o grotesco; charge vem do francês, charger’, forçar; cartum vem do inglês,cartoon’, cartão, onde se fazem desenhos humorísticos. O Ocidente fez do riso uma arma a um tempo destruidora e enriquecedora, agressiva e benfazeja, ponte e ruptura.”

E assim, de charge em charge, chegamos a 2015 e ao massacre do último dia 7. E novamente Alberto Dines me chamou a atenção no “Observatório da Imprensa”, em um artigo publicado cinco dias depois do atentado: “Por quem os sinos dobram, cara-pálida?”. Veja por quem:

“Os sinos dobram pelos caídos em defesa do laicismo, contra a chantagem fundamentalista e a barbárie das guerras santas.

Quase quatro milhões de franceses foram no domingo (11/1) às ruas do país — num espetáculo emocionante pelas dimensões, pela serenidade e simplicidade — para se identificar com o projeto na qual se engajou o ‘Charlie Hebdo’ nos últimos anos: ‘Penso, logo me manifesto’. Ou esperneio. Ou chuto o pau da barraca. Este é o mandamento elementar do cartesianismo jornalístico. O resto é diletantismo, conversa fiada, frivolidade.

Jornalistas resistem contra as forças que os oprimem diretamente e não dão trégua àqueles que rondam as redações para silenciá-los.

E quem ameaçava os ‘Charlies’ massacrados na quarta-feira (7/1) — o governo francês, a liga neofascista europeia, o imperialismo ianque, a máfia russa, o narcotráfico internacional?

Não há o que discutir: as kalashnikovs foram acionadas dezessete vezes entre quarta e sexta-feira nas ruas de Paris em nome do fanatismo e do fundamentalismo religioso.

Os ‘Charlies’ franceses foram longe demais? Problema dos que não querem se incomodar, os não-me-importistas de sempre. Se no hemisfério democrático há jornalistas que recusam ser Charlie, lamentam a matança, mas denunciam as vítimas como incendiários, blasfemos e obscenos, é um direito que a democracia oferece aos que preferem ver o mundo em cima do muro. [...]

Intransigência na França não é defeito, é atributo. ‘Je suis Charlie’ não é apenas uma casual defesa da liberdade da expressão: é um compromisso com a memória coletiva do primeiro país a separar com o necessário rigor e intransigência a Igreja (= religião) do Estado. [...]”

E cá estamos, assistindo ao maior show recente do fanatismo religioso e seu enorme sucesso. Afinal, o que interessa ao terrorismo senão a divulgação de seus atos? Mas a publicidade é relativa... Fiquei impressionada ao ler um editorial da “Folha de S. Paulo” de terça-feira (13/1):

“Terror na Nigéria — Passou quase despercebido, na semana passada, um massacre de proporções catastróficas ocorrido em Baga, cidade no nordeste da Nigéria. Autoridades locais afirmam ter desistido de contar os corpos, e por essa razão não se sabe ao certo quantos são os mortos. Segundo estimativas da Anistia Internacional, seriam cerca de 2.000. Foram todos chacinados por fanáticos da milícia islâmica Boko Haram [...]”.

E aqui fica uma incômoda sensação: Por que “passou quase despercebido”? Por que a mídia não noticiou esse massacre na África com o mesmo alarde do atentado de Paris?  


Com o estômago embrulhado, relembro que o ano mal começou. E mau começou.
 

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